domingo, 23 de abril de 2017

DEPOIS DA TEMPESTADE

Artigo de Fernando Gabeira
Furacões, ciclones e tsunamis são fenômenos dinâmicos: chegam e passam. Costumo trabalhar com desastres naturais, tempestades devastadoras. De um modo geral, o presidente sobrevoa a região, verte uma lágrima diante das câmeras, anuncia uma ajuda financeira que, além de ser realmente menor do que vai enviar, no fim é parcialmente devorada pela corrupção local.
O que foi arrasado, agora, não é um pedaço de terra, mas um sistema político eleitoral. E não há presidente para ajudar, pois está agarrado aos escombros para não ser levado pela enxurrada. De qualquer forma, com ou sem ajuda, o problema que se coloca é sempre esse: como reconstruir. Apesar de figurar no topo da lista de países dominados pela corrupção, o Brasil tem condições de superar esse estágio, a partir da vontade de uma boa parte de seu povo.
Não acredito tanto em lição de moral. O que vai funcionar é tornar o risco da corrupção extremamente alto para quem se deixa seduzir por ela. O primeiro e grande passo para isso foi a Lava-Jato, que revelou a possibilidade de uma investigação eficaz que sobreviva ao arsenal de artifícios jurídicos do próprio sistema corrompido.
Algumas outras operações morreram na praia. A Lava-Jato sobreviveu às pancadas dos bandidos mascarados, mas também dos bem-intencionados defensores do estado de direito. Ela cumpriu o papel histórico de apontar para um futuro em que a qualidade da investigação torna muito mais arriscado escolher o caminho do crime. Necessita de outra medida importante para que o risco seja maior ainda: o fim da impunidade, garantida pelo foro privilegiado.
Com essas duas colunas erguidas, o processo de reconstrução do edifício devastado torna-se mais promissor. Finalmente, uma articulação entre os políticos que sobreviveram à tempestade e os que virão nas próximas eleições pode ser a amálgama de algo próximo da expectativa popular.
Não tenho muitas ilusões. Em 2012, já fora da política eleitoral, percorri grande parte do país, falando para jovens candidatos a vereador. A sensação que tive na época foi a de que a maioria esmagadora queria se integrar ao esquema político tal como ele existia, inclusive, e sobretudo, com seu potencial de enriquecimento. Enfim, sonhavam com ascensão social, grana, era possível ler nos seus lábios: eu também estou aí/ estou aí/ o que é que há/ também estou nessa boca.
Esses anos foram muito tristes para mim. Por mais informações que tivesse, a delação da Odebrecht, pelos detalhes e circunstâncias, trouxe um grande impacto emocional. Houve algumas surpresas, decepções, mas não creio que o caminho seja apenas criticar as pessoas. Não eximo ninguém da responsabilidade. Mas, no sistema político partidário brasileiro, era praticamente impossível vencer uma eleição majoritária sem aceitar as regras do jogo. É preciso mudá-lo, senão os que ainda não caíram cairão no futuro, sejam experientes ou não. E algo precisa ser feito agora.
Algumas medidas parecem sensatas. Uma delas é o fim da coligação proporcional, nas quais você vota num candidato e acaba elegendo gente indesejável na sua carona. Outra é a cláusula de performance. Partidos que não têm representatividade, algo que se mede eleitoralmente, não podem ocupar o espaço político. Eles tornam o presidencialismo de coalizão um fracasso ético anunciado. Finalmente, para não ir muito longe: o programa eleitoral gratuito é uma jabuticaba. É possível suprimi-lo. Com seu fim, desaparecem também as grandes somas de campanha, os marqueteiros fissurados por grana.
É possível um caminho intermediário, algumas inserções. Nesse contexto, a imprensa precisaria cobrir as eleições proporcionais também, algo que o faz com muita relutância. Ainda assim, embora ganhe meu pão na grande imprensa, é preciso admitir que o mundo mudou, ela não é o único canal para se comunicar com a sociedade. Não há razões para essa programação patética, falsamente chamada de gratuita, pois na verdade é paga pelo contribuinte.
A esta altura, sei que muitos estão perguntando se já combinei com os russos. Haverá sempre uma grande resistência à mudança. Mas, se a sociedade não for capaz de impor um caminho de transição para 2018, as regras do jogo vão estraçalhar de novo as melhores intenções.
Voltando aos desastres naturais, sempre me impressionei com os japoneses. Por mais desolador que seja o panorama, esfregam as mãos e reconstroem tudo com rapidez. Pontes que levamos anos para construir no Brasil, consumindo milhões com propinas, reaparecem em semanas, novas, honestas, reluzentes. Bobagem supor que vamos nos comportar exatamente como os japoneses. O peso cultural é acachapante, consome gerações para se transformar. Mas tudo muda.
O Brasil que iniciamos com o movimento das Diretas já não existe mais. Nossa geração de políticos não soube ler os sinais no horizonte.
A delação do fim do mundo é o prenúncio de um novo mundo. Será que agora, escrito em letras garrafais e até com desenhos, finalmente, vamos compreender em que país vivemos?
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 23/04/2017
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sábado, 22 de abril de 2017

O BRASIL MOSTROU A SUA CARA, E NÓS, COMO CEGOS EM TIROTEIOS !

Artigo de Joaquim Cunha 
Diante do que vemos, será que os dias precisavam ser assim? O que diria Tiradentes, dentre tantos outros, que lutaram, sofreram, e ofereceram as suas próprias vidas?
Alguém tem dúvida da verdadeira cara do Brasil? Vivemos como cegos em tiroteios, todas as balas nos atingem, de quase todas as direções, menos as perdidas, que infelizmente, tem alcançado pessoas mais ingênuas do que nós.
O que fazer? Continuar sendo vítimas, por sermos quase sempre coniventes com tudo isso? Algozes de nós mesmos?
O Brasil chegou na sua quarta-feira de cinzas, não há mais máscaras, como de resto, em quase todos os recantos deste País.
A indignação sem ação, é como a fé sem caridade, é falar aos surdos ou exaltar Cristo ao ateu. Transferir culpas, é a forma mais covarde de se isentar de erros.
Chega de populismo, e de dizer o que gostamos de ouvir. A hora é da verdade e de ouvirmos o que precisa ser dito, e assumirmos nossos equívocos e corrigir rumos, mesmo com os sacrifícios que precisam ser feitos, já que de alguma forma, muitos de nós, patrocinamos este estado de desencontros e descaminhos.
Que Deus nos proteja! Um abraço, Joaquim Cunha.
Joaquim Cunha, ex-prefeito de Gavião (BA) – Foi Presidente da Associação de Prefeitos da Região nordeste e Vice-Presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB).
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sexta-feira, 21 de abril de 2017

O "BON VIVANT" DO AGRESTE

Editorial, ISTOÉ
Foi o amigo dileto, Emílio Odebrecht, que o ajuda desde os idos de 70 com presentes, agrados e muita propina, quem assim o classificou: “Lula é um bon vivant, não tem nada de esquerda, gosta de coisa boa!”. Mimos como uma conta aberta em seu nome no valor de R$ 40 milhões, com saques à disposição em dinheiro vivo na hora desejada, reformas de sítio, palestras regiamente pagas em troca de vantagens, apartamento, jatinhos, terreno, qualquer coisa. Era só o “chefe” mandar. Ou pedir.

Ajuda meu filho, meu irmão, meu compadre, meu partido. Valia a pena. No universo idílico que ronda Lula tudo é fruto de uma benevolência extrema. Do toma-lá-da-cá. Dos favores. Nos idos dos anos 80, o memorável “Senhor Diretas” Ulysses Guimarães já diagnosticava com uma precisão cirúrgica: “o mau de Lula é que ele parece gostar de viver de obséquios”.

Os fatos teimaram em demonstrar. Estavam certos Ulysses e o patriarca do grupo que agora faz a “delação do fim do mundo”. O petista sempre deu sinais nesse sentido. Quando da primeira vitória nas eleições presidenciais, lá foi ele comemorar com uma garrafa de vinho Romanée-Conti, ao custo de US$ 5 mil (paga por outro amigo, naturalmente). Lula jactava-se pelos ventos da sorte e pelas boas relações com os amigos.

Não há como negar: ele também é um fiel e generoso amigo. Ao menos dos ricos amigos, numa convivência tão estreita como promíscua. Fez mais por eles que recebeu. Não há dúvida. Foi capaz de prejudicar estatais e o povo que recolhe impostos em prol dos negócios da empresa do amigo Emílio. Seguiu sempre a surrada máxima “para os amigos, tudo!”. Com o patrimônio alheio – de cada um de nós, brasileiros. Você bancou a farra. Mas isso é detalhe.

Não seria da conta de ninguém, é verdade, se o deplorável hábito de pedir tudo a todos ocorresse estritamente na platitude das relações desinteressadas. Infelizmente não foi bem assim. O que ele fez chama-se corrupção. Em benefício próprio e dos seus. Com a quebra inexorável das finanças de um País. Está evidenciado. Lula instaurou a corrupção como política de Estado. Em suas gestões, e na da sucessora Dilma , os desvios ganharam conotação de praga endêmica, institucionalizada e alastraram-se para cada departamento, autarquia ou organismo federal. Às favas com os escrúpulos.

Lula hoje diz que as acusações são mentira. Só ele fala a verdade. Seria a história mais fabulosa do mundo um conluio tão bem arquitetado de delatores, que contam em requintes de detalhes as tramoias do grande líder, com o intuito exclusivo de condená-lo. Quem não se condói de tamanha injustiça? Lula agora reclama das noites insones, temerário de ser preso a qualquer momento. Os companheiros ideológicos desembarcam.

O marxista Noam Chomsky, admirador de primeira hora, reclamou do partido e do seu criador que “simplesmente não pode manter as mãos fora da caixa registradora…que está roubando o tempo todo”. A alternativa do retirante nordestino que virou presidente – e acredita estar sendo penalizado por essa condição – é reagir no grito. Insistir na nauseabunda mentira.

Seus convictos aliados – detentores de uma fé incondicional, que enxergam o homem quase como uma divindade, a despeito de seus reincidentes pecados – convocam a militância para armar um verdadeiro circo de protestos em frente à sede da Polícia Federal, em Curitiba, onde no próximo dia 3 acontece o que já vem sendo chamado como o “embate do século” entre o paladino da justiça, Sergio Moro, e o cacique objeto da cega veneração. Os mais extremados abarrotam as redes sociais com ameaças de “guerra civil”, num tom belicoso que extrapola para o crime, sem receio de reprimendas.

A lei, ora a lei, não vale para o grande comandante. Quando você nasce como a alma mais honesta que existe, qualquer um precisa respeitar. Ele está acima dos demais. Não podem pairar dúvidas sobre seus atos. É preciso louvar a santidade. Ela não mente, não erra, não comete faltas. Onipotente, onisciente, acima do bem e do mal, não pode ser alcançada pelas infâmias da raia miúda, nem condenada pela justiça dos mortais. De forma alguma.

Por esse modo muito peculiar de visão dos fatos, Lula não pediu nada a ninguém. Lula não levou propina. Não armou quadrilha de desvios. Muito menos costurou esquemas que lesaram o Tesouro. Aquele sítio, com notas frias, ora bolas, era do amigo. O tríplex, de outro amigo. O apê onde mora, também. Se de 2006 para cá uma empresa quis dar mais de R$ 10 bilhões, como confessou, em propinas para Lula e sua turma do poder, o problema é dela. Se ganhou como contrapartida grandes obras públicas, foi sorte. O Estádio do Corinthians, sonho de mais de R$ 1 bilhão de Lula, era merecido.

Maldosos, os brasileiros! Há de se perguntar aos áulicos seguidores do petista se por acaso tiveram tempo e o cuidado de ouvir os depoimentos dos delatores, gravados em áudio e vídeo e mostrados a quem quisesse ver? Atentaram para o volume de informações, para a avalanche de evidências e provas já colhidas? É esse o País que desejam para si e para os seus, sob o julgo de um esquema de bandalheira sem fim? A ladroagem ilimitada e a arrogância populista não podem virar exemplo. Destruiu recentemente a Venezuela nas mãos do caudilho Hugo Chaves. Não podem se repetir pela ambição desmedida do “bon vivant” Lula.
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ANOS DE PRISÃO

Da ISTOÉ
Para réus, denunciados e investigados pela Lava Jato, o emprego da lógica matemático-penal é como o tempo: implacável. Senão vejamos: se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse condenado por todos os crimes pelos quais é acusado na Justiça, ficaria de 519 a até incríveis 1.795 anos na cadeia. Usando o mesmo critério, o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL), poderia amargar até 247 anos na prisão. Sua pena mínima seria de 60 anos. Já o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), não ficaria menos do que 39 anos no cárcere, podendo alcançar 170. Um grupo multipartidário de cinco expoentes políticos analisados por ISTOÉ não registra cifras menos assustadoras. Somadas, suas penas podem variar de 678 anos a fenomenais 2.527 anos no xilindró.
Claro que o cálculo é hipotético pois, no Brasil, ninguém fica mais de 30 anos na prisão. Mas o turbilhão Odebrecht aumentou em muito o tamanho do risco jurídico-emocional que corrói a classe política, cujo encalço é vigiado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. O levantamento feito pela reportagem de ISTOÉ inclui o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), um dos principais auxiliares do presidente Michel Temer. Se implicado por todos os crimes, Padilha, correria o risco de pegar uma pena de 67 anos. O mesmo cálculo se aplica ao ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab (PSD), e ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O ex-ministro e ex-governador José Serra (PSDB-SP), por sua vez, poderia ser condenado a uma pena máxima de 89 anos de detenção. O presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), entre 5 e 25 anos.
O presidente da Associação dos Juízes Federais (Ajufe), Roberto Veloso, lembra que são os magistrados, e não os procuradores, quem definirão se os políticos são culpados ou não e qual o tamanho da pena proporcional ao crime que eles realmente cometeram. O levantamento, baseado em inquéritos policiais e denúncias do Ministério Público, mostra que, quanto mais maduros estão os processos, maiores sãos os riscos de temporadas mais longas na prisão. Como Lula tem mais ações penais que os outros, está bem à frente dos colegas. O cálculo não considerou todas as investigações do petista e de Renan, ambos com mais de dez procedimentos criminais na Justiça, mas apenas as denúncias ou os inquéritos derivados das delações da Odebrecht.
O cálculo é hipotético pois, no Brasil, ninguém fica mais de 30 anos na prisão, mas mostra como a classe política está corroída
Os demais políticos do grupo só não estão com risco igual ou maior que o de Lula, Renan e Jucá porque seus processos ainda não estão tão amadurecidos. Explica-se: na fase de inquérito, a polícia e o Ministério Público e a polícia não detalham a totalidade de crimes supostamente cometidos como acontece quando chega-se à fase da denúncia. Os crimes apontados são basicamente corrupção passiva e lavagem de dinheiro (ver quadro). Investigadores da Lava Jato têm dito nas delações da Odebrecht que nunca aceitariam a “desculpa” da empreiteira de que houve “apenas caixa 2”, uma saída honrosa aventada pelo presidente do grupo, Marcelo Odebrecht, no início das negociações, mas rejeitada desde então. Para eles, trata-se de um esquema de corrupção generalizada, que utiliza vários estratagemas de lavagem, inclusive doações de campanha feitas à margem do sistema ou registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A artimanha que hoje une petistas, tucanos e peemedebistas já foi usada pelo PT em meio ao escândalo do mensalão no passado. Como se sabe, naufragou.
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FIM DO MUNDO, NOVO MUNDO

Artigo de Fernando Gabeira
A delação dos dirigentes da Odebrecht não trouxe tantas novidades para quem leu os vazamentos. No entanto, a forma como se apresentou – vídeos dos delatores, riqueza de detalhes e algumas surpresas – trouxe grande impacto mesmo para os que conheciam os dados principais da trama.
Para começar, alguns obstáculos técnicos: as denúncias não foram hierarquizadas e divididas em blocos. E o áudio das delações era bastante sofrível. Aliás, a qualidade do áudio é uma crítica que faço não apenas à Lava Jato. Parece que vivemos numa era pré-estereofônica, na contramão de uma tecnologia cada vez mais acessível.
Percebo à distância que grandes peixes passaram quase em branco, como o negócio dos submarinos com a França. Aliás, dos 200 depoimentos ainda em sigilo, quase todos tratam de aventuras internacionais e da participação do BNDES, algo que me interessa na proporção em que se esforçam para escondê-los. Nesse oceano de informações, algumas dolorosas, porque trazem também decepção sobre certas pessoas, escolhi uma frase de Emílio Odebrecht para comentar, aquela em que ele diz que a corrupção existe há 30 anos e ele não entende a surpresa da imprensa, que não a teria denunciado.
Reconheço que mostrar-se surpreso e ser ao mesmo tempo um observador da vida política nacional é contraditório. Só posso entender esse movimento de alguns comentaristas pelo desejo de empatia com seus leitores ou espectadores, estes, sim, sem o mesmo nível de informação, estupefatos com os bastidores das relações entre políticos e empreiteiros.
Não é verdade que o sistema de corrupção, ao longo dos anos de redemocratização, não tenha sido denunciado. A própria Odebrecht confirma isso ao confessar que sofisticou o processo depois da CPI dos Anões do Orçamento. O jornalista Jânio de Freitas foi um pioneiro ao desmascarar licitações fraudadas na Ferrovia Norte-Sul. Grandes operações da Polícia Federal, como a Castelo de Areia, morreram na praia porque a Justiça anulou as provas, algo que o ministro Gilmar Mendes chegou a sugerir para a Lava Jato.
E posso me concentrar num episódio que conheço bem, para contestar parcialmente a fala de Emílio Odebrecht. Refiro-me ao caso que ficou conhecido, graças à esperteza de Lula, como o dos aloprados do PT. É a história dos petistas detidos com R$ 1,6 milhão em dinheiro, nas eleições de 2006. Eu era o relator da CPI dos Sanguessugas incumbido desse caso.
Ele tinha relação com a CPI porque José Serra, supostamente, seria denunciado pelos principais acusados de superfaturar ambulâncias.
Tentei desvendá-lo ouvindo depoimentos, era o instrumento que tinha. Os petistas estavam eufóricos com a reeleição de Lula. Não davam pistas.
A imprensa trabalhou muito. Dois repórteres da Veja chegaram a ser detidos na Polícia Federal de São Paulo. O então diretor da revista, Mário Sabino, foi indiciado por tentar informar os seus leitores.
O que a CPI não tinha nem a imprensa conseguiu foi o detalhe revelado agora pela delação: num dos maços de notas destinados a comprar o dossiê contra Serra havia uma etiqueta de uma empresa da cervejaria Itaipava. No contexto atual, o caso seria esclarecido a partir desse detalhe, desprezado nas investigações.
Não quero afirmar que a imprensa tenha sido uma combatente heroíca da corrupção, sobretudo porque sob esse conceito mais geral há comportamentos muito distintos. Quero afirmar apenas suas limitações. Ela não pode quebrar sigilos bancários e telefônicos, muito menos realizar entrevistas seguidas de condução coercitiva.
O que mudou essencialmente o quadro foi a eficácia da Lava Jato. Ela evitou todas as armadilhas em que caíram as operações derrotadas pelo poderoso sistema de corrupção.
Foi graças às investigações e sólidas provas da Lava Jato que a imprensa conseguiu avançar, contribuindo com seu esforço para desvendar a engrenagem que sufocava o Brasil. O interessante é a crítica pendular que ela sofre. Quase sempre foi acusada de inventar denúncias. Recentemente, o PT qualificava os escândalos que o envolvem como uma “conspiração midiática”. Emílio Odebrecht a acusa-a de ter silenciado ao longo dos anos e fazer agora um grande estardalhaço. Mas a verdade é o quanto tanto a PF como os procuradores evoluíram com o tempo e com os fracassos relativos. E a própria imprensa se tornou mais cautelosa ao se mover em terreno tão delicado.
Alguns dos mais importantes vazamentos foram em blogs, que têm uma estrutura mais leve e, por causa disso, ousam mais. O que Emílio Odebrecht não considerou em sua fala foram os enormes avanços havidos no Brasil, enquanto empreiteiras e políticos vivam num mundo à parte.
A experiência de vida mostra que muitas coisas que eram proibidas no passado passam a ser permitidas com o tempo, como, por exemplo, o divórcio e a união de gays. Mas história é mais complicada. Muitas coisas, antes toleradas, passam a ser proibidas com o tempo, como o assédio sexual por exemplo.
Alguns fatores tornaram a corrupção conhecida de quem observava friamente o processo, mais vulnerável que no passado. Um desses fatores é a maior transparência impulsionada também pela revolução digital. Outro aspecto importante, talvez inspirado pela Justiça americana, é a tática de rastreamento do dinheiro de propinas através dos labirintos do sistema financeiro internacional.
Finalmente, certas mudanças de atitude, como a da Suíça, foram fundamentais. A Suíça se abriu, a polícia brasileira mudou, a tolerância das pessoas comuns mudou, foram tantas mudanças que é bastante compreensível que a bolha tenha estourado agora, e não antes, apesar de inúmeras tentativas frustradas.
Mesmo sem me importar com os risos pragmáticos, diria que Emílio poderia aprender com o escândalo uma lição mais valiosa que sua fortuna: a impermanência de tudo, o constante processo de mudanças.
Artigo publicado no Estadão em 21/04/2017
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O VERDADEIRO LULA

Rodrigo Constantino, ISTOÉ
Já foi dito que o esquerdismo prevalece quando a visão estética de mundo fala mais alto do que a busca pela verdade, ou seja, quando as aparências importam mais do que a essência. A retórica sensacionalista seduz os corações enquanto a mente segue imune aos fatos. O apelo emocional é mais forte do que o argumento racional. A vaidade alimenta a hipocrisia daqueles que só querem se sentir moralmente superiores, sem ter de efetivamente sê-lo. No Brasil, essa postura sempre predominou, culminando no “coitadismo”, traço marcante de nossa cultura. Quem não chora não mama. O sucesso individual é visto como pecado mortal, enquanto as vítimas proliferam feito coelhos, sempre conquistando o poder com sua demonstração de suposta fraqueza. O mito do “bom selvagem” é irresistível para a nossa elite culpada.
Foi assim que se criou o mito do retirante nordestino que virou metalúrgico e depois entrou para a política para combater as injustiças e desigualdades e lutar pelos fracos o oprimidos. Era uma narrativa sedutora, que levava os “intelectuais” ao orgasmo. O marxismo nunca foi parido pelos trabalhadores, e sim pelos pensadores de classe média ou alta. Ele é o ópio dos intelectuais, como disse Raymond Aron. O Lula que iluminava o mundo quando abria a boca era o fantasma de Marilena Chaui. O Lula que lutava pelos desvalidos era a fantasia de Chico Buarque. O PT cresceu graças aos membros dessa elite, que só queria saber das aparências, da estética. Quem tinha olhos para enxergar sabia que o petista nunca deixou de ser um oportunista disposto a só se dar bem, não importa em quem tivesse que pisar. Isso desde as greves, já durante o regime militar.
A decepção de muitos com o “novo” Lula exposto após as delações de Emílio e Marcelo Odebrecht só mostra como essas pessoas foram ingênuas, não quiseram abandonar as ilusões para ver as coisas como elas são. Preferiram permanecer no mundo das aparências apesar de todas as evidências contrárias. Alguns ainda relutam contra os fatos, para salvar o mito.
Para a imensa maioria, porém, ficou claro quem é Lula, quem sempre foi Lula. Os que nele acreditaram se sentem traídos e querem vingança, e os que sempre souberam sua verdadeira essência querem justiça, por todo o mal que ele causou ao País. A prisão de Lula é aguardada como um ato simbólico da luta contra a impunidade.
Mas o inimigo maior ainda é essa mentalidade estética e a narrativa da vitimização. Se hoje Lula pode estar desmoralizado, isso não quer dizer que um outro Lula não possa surgir em cena. Enquanto houver gente disposta a sacrificar os fatos em prol de suas ilusões, lá estará algum oportunista de plantão, pronto para explorar com sua demagogia essa característica. O PSOL que o diga…
Os que nele acreditaram se sentem traídos e querem vingança, e os que sempre souberam sua verdadeira essência querem justiça, por todo o mal que fez ao País.
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TROCA DE FARPAS

Em meio a uma das mais graves crises na Segurança Pública enfrentada pelo governo do estado, o deputado estadual Capitão Wagner (PR) rompeu o silencio e veio a público criticar as ações do governo.
O parlamentar chamou Camilo Santana (PT) de “frouxo” por não concordar com a estratégia adotada pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para normalizar a situação. Camilo não ficou calado e rebateu a declaração chamando o deputado de “moleque”. O bate-boca ocorreu nesta quinta-feira (20).
Capitão Wagner acredita que o trabalho que está sendo realizado pela SSPDS não traz bons resultados e que o governo estadual deveria agir para complementar as atividades comandadas por André Costa, titular da secretaria. “O secretário de Segurança pode ser um super-homem, mas sozinho, ele não irá conseguir sanar os problemas de violência que o Estado vem sofrendo. Governador, está na hora de agir!”, declarou Capitão em uma publicação no Facebook.
“Se o que está sendo feito não está dando bons resultados, a estratégia precisa mudar. Na coletiva da Secretaria de Segurança Pública, ontem, afirmaram que continuarão fazendo o mesmo trabalho. Ora, o mesmo trabalho só irá gerar os mesmos resultados que não estão sendo bons. Não dá para ter um secretário valente e um governador ‘frouxo'”, disse o parlamentar.
O governador não ficou calado e rebateu a declaração de Capitão Wagner. “Eu acho que isso é coisa de moleque. Eu acho que se aproveitar do momento para querer tirar vantagem política, infelizmente eu não vou entrar nesse jogo. Agora ‘frouxo’ é quem nunca pegou em uma arma e foi combater um bandido no Ceará, isso é que pra mim é ”frouxo”, respondeu Camilo.
Ele ainda justificou a onda de ataques dizendo que é uma reação às ações que o governo tem adotado para enfrentar os bandidos no estado. “O que está acontecendo aí é a reação às ações que o governo tem tido para enfrentar os criminosos, porque nós vamos enfrentar os criminosos e vamos botar para fora do estado do Ceará. Então, eu lamento esse tipo de oportunismo nesse momento”, concluiu o governador.
Reforço policial
O secretário de Segurança Pública e Defesa Social, André Costa, em entrevista à Tribuna Band News FM, informa que a Polícia Militar está realizando ações para que a situação se normalize. “Ontem, alguns ônibus saíram em comboio. Nós colocamos viaturas da Polícia Militar junto à Guarda Municipal fazendo esse acompanhamento. Na madrugada, cada ônibus da Linha Corujão foi acompanhado por uma viatura da Polícia Militar”, explicou o titular da SSPDS.
André Costa descartou momentaneamente o reforço de tropas federais para conter a série de ataques a ônibus. Ele disse que policiais lotados no serviço administrativo da Polícia Militar foram convocados para reforçar o patrulhamento nas ruas.
No final da tarde desta quinta, os ônibus passaram a circular em comboios e com escolta da polícia em Fortaleza. A decisão foi tomada pelo Sindiônibus, em parceria com a Secretaria de Segurança Pública do Estado e a Prefeitura de Fortaleza, por meio da Etufor e da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos.
Os ataques a ônibus resultaram em prejuízo de, pelo menos, R$ 1,5 milhão, de acordo com o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Ceará. O número é referente apenas à diminuição da venda de passagens no primeiro dia de incêndios aos coletivos. Cada ônibus custa, em média, R$ 365 mil. Nesta quinta-feira (20), outros cinco veículos foram alvos dos bandidos, totalizando 23 ônibus nos dois dias.
O presidente do Conselho Penitenciário do Estado do Ceará (Copen-CE), Cláudio Justa, em entrevista à Tribuna BandNews FM, explicou que os ônibus incendiados nesta quarta-feira (19) na capital cearense podem ser um suposto anúncio de declaração de guerra entre as facções criminosas.
Cláudio relata que houve alguns confrontos na CPPL II e na CPPL IV, porque estão expulsando, na linguagem dos presídios estão “espirrando”, os detentos da facção do Comando Vermelho, o que segundo ele significa uma aparente ligação entre as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e GDE (Guardiões do Estado).
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RECORDANDO TANCREDO NEVES

Memória - Tancredo de Almeida Neves, nasceu em 4 de março de 1910, em São João Del Rei, Minas Gerais. Advogado, empresário e político foi casado com Risoleta Guimarães Tolentino, com quem teve três filhos.
Em 1985 foi realizada a primeira eleição (indireta, via Colégio eleitoral) para presidente desde o golpe militar de 1964.
Tancredo Neves foi indicado por uma coligação de partidos, com apoio de Ulysses Guimarães (a figura mais importante no período de redemocratização do país).
Tendo como candidato a vice na mesma chapa José Sarney, venceu o pleito em 15 de janeiro de 1985, por 480 votos contra 180 de Paulo Maluf.
A articulação que elegeu a dupla Tancredo e Sarney é tida ainda hoje como uma das mais complexas e bem-sucedidas na história política do país.
Tancredo temia que os militares mais rigorosos se recusassem a passar o poder ao vice-presidente. Porém não resistiu, e na véspera da posse (14 de março de 1985), foi internado em Brasília com dores abdominais.
José Sarney assumiu a presidência aguardando o restabelecimento de Tancredo, que a partir de então, já em São Paulo, sofreu sete cirurgias. No entanto, em 21 de abril (mesma data da morte do mártir nacional Tiradentes), Tancredo faleceu vítima de infecção generalizada, aos 75 anos.
Vinte anos após, o corpo médico revelou que não divulgou o laudo correto da doença, que não teria sido diverticulite, porém um tumor. Embora benigno o anúncio de um tumor poderia ser interpretado como câncer, causando efeitos imprevisíveis no andamento político no momento.
Em seu lugar, assumiu a presidência da República o vice José Sarney, encerrando o período de governos militares chamado de Anos de chumbo iniciado com o Golpe de 1964.
Vale a pena ler –  O blog Sou Chocolate e Não Desisto recomenda três obras sobre a trajetória de Tancredo Neves: o livro Tancredo Neves - A travessia midiática; uma organização de textos de vários autores sobre a vida desse político feita por Nair Prata e Wanir Campelo, o documentário Tancredo – a travessia; de Silvio Tendler e a recente biografia Tancredo Neves, O Príncipe Civil, do jornalista Plínio Fraga.
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PARABÉNS, BRASÍLIA !

Brasília completa hoje, 57 anos. Inaugurada em 21 de abril de 1960, pelo então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, Brasília é a terceira capital do Brasil, após Salvador e Rio de Janeiro.
A transferência dos principais órgãos da administração federal para a nova capital foi progressiva, com a mudança das sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário federais.
O plano urbanístico da capital, conhecido como "Plano Piloto", foi elaborado pelo urbanista Lúcio Costa, que, aproveitando o relevo da região, o adequou ao projeto do lago Paranoá. O lago armazena 600 milhões de metros cúbicos de água.
Sob as linhas retas e curvas do arquiteto Oscar Niemeyer, nasce Brasília. Um grande desafio; a cidade foi construída na velocidade de um mandato, e Niemeyer teve de planejar uma série de edifícios em poucos meses para configurá-la.
O blog Sou Chocolate e Não Desisto indica dois livros biográficos sobre Juscelino Kubitschek: JK – O artista do impossível, do jornalista Cláudio Bojunga e Juscelino Kubitschek – O presidente bossa-nova da jornalista Marleine Cohen com prefácio de Maria Adelaide Amaral.
Além dessas biografias, uma ótima opção é o filme Bela Noite Para Voar, de Zelito Viana, lançado em 2005, baseado no livro de Pedro Rogério Moreira que tem como pano de fundo duas conspirações contra o governo "50 anos em 5", de Juscelino Kubitschek.
Se preferir uma obra mais extensa, a minissérie JK, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira com cinco discos (DVD), aproximadamente 230 minutos em 47 episódios; é uma excelente opção para quem gosta de história e política.
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LIBERDADE, LIBERDADE

Em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes era enforcado. Lutou pela Independência do Brasil. Foi traído e não traiu jamais. A Inconfidência de Minas Gerais.
Os versos do samba enredo da escola de samba Império Serrano, campeã de 1949, fez um enorme sucesso em todo o Brasil e, desde então, vem servindo para ajudar a contar um dos capítulos mais importantes da nossa história.
A Inconfidência Mineira foi um movimento político que tinha como objetivo conquistar a independência do Brasil em relação a Portugal, alimentado pelos altos impostos cobrados da mineração em Minas Gerais e também pelos ideais propostos pela Revolução Francesa.
Ao longo do tempo a execução de Tiradentes, um dos participantes desse movimento foi transformada em seu símbolo, mesmo sendo objeto de muitas controvérsias em relação ao seu papel e mesmo sobre a imagem que foi criada e divulgada para retratar os acontecimentos.
Controvérsias a parte, a possibilidade de contarmos essa história através de sambas e de feriados mostra que essa é uma história importante e consolidada na cultura brasileira.
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quinta-feira, 20 de abril de 2017

ABUSO DE PODER

O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) cassou, na sessão plenária de hoje (19), os diplomas do prefeito e vice-prefeito de Paraty, Carlos José Gama Miranda, o Casé, e Luciano de Oliveira Vidal.
Ambos foram acusados de abuso de poder político pelo uso irregular do programa social Paraty, Minha Casa é Aqui e pela prática de conduta vedada a agente público, em função da edição de lei complementar durante período eleitoral para reduzir a carga horária de servidores.
De acordo com a decisão, o presidente da Câmara de Vereadores, Anderson Maia dos Santos, assumirá a prefeitura e novas eleições serão convocadas, ressalvado eventual efeito suspensivo concedido pela Justiça Eleitoral (após a publicação do acórdão, o prefeito e o vice ainda podem ajuizar embargos de declaração no TRE-RJ).
A Agência Brasil procurou a prefeitura de Paraty, mas não obteve resposta sobre a decisão até o fechamento da matéria.
De acordo com o relator do processo, desembargador eleitoral Leonardo Grandmasson, ficou comprovado o uso promocional em favor da candidatura do programa social do município que concede, gratuitamente, o direito real de uso de propriedades do poder público.
Ao julgar o recurso eleitoral interposto pela coligação “A esperança de novo com a força do povo”, a Corte ainda decidiu tornar Carlos Casé e o vice Luciano Vidal inelegíveis por oito anos, além de determinar o pagamento de multa no valor R$ 156.412,00 cada.
O magistrado destacou ainda “o comparecimento de 23.196 eleitores às urnas, sendo certo que os próprios recorridos propagaram que o programa social beneficiaria cerca 5 mil munícipes, de maneira que não há outra solução mais proporcional do que a cassação dos diplomas e a aplicação da multa no patamar máximo estabelecido pela legislação eleitoral”.
Da Agência Brasil, via Exame
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A CULPA É DA IMPRENSA

Cora Rónai, O Globo
Não há “piores momentos”. Todos são piores momentos, todos revelam como e por que chegamos tão baixo, como se venderam as nossas ilusões e se desfizeram os nossos sonhos. Todos mostram como o nosso esforço foi para nada, como os nossos impostos só serviram para saciar a sede de — mas de que mesmo? de badulaques? de futilidades? de viagens em jatinhos? de hotéis de luxo? — que moveram os criminosos que mandam no país. Mas talvez o pior dos piores, o mais acintoso, o mais repulsivo, seja aquele momento em que Emílio Odebrecht abre o seu coração num lampejo de mágoa:
“O que nós temos no Brasil não é um negócio de cinco anos, dez anos atrás” — diz o dono da lama toda. “Nós estamos falando de 30 anos atrás. Tudo o que está acontecendo é um negócio institucionalizado. Era uma coisa normal. O que me surpreende é quando eu vejo todos esses poderes, a imprensa, tudo realmente como se isso fosse uma surpresa. Olhe, me incomoda isso. A imprensa toda sabia que o que acontecia era isso. Por que agora estão fazendo tudo isso? Por que não fizeram isso há dez, 15, 20 anos atrás?”
Como se vê, a culpa, mais uma vez, é da imprensa. É uma conversa bem conhecida essa, compartilhada universalmente por bandidos de todos os quadrantes do espectro político, que acham que imprensa boa é imprensa morta. Mate-se a imprensa pelo que se diz que faz, e mate-se pelo que se diz que não faz.
“Olhe, me incomoda isso.”
Pois a mim o que me incomoda é o cinismo, a cara dura, a desfaçatez. O que me incomoda é a sua risada asquerosa, Emílio Odebrecht, a sua vilania, a sua falta de humanidade; o que me incomoda é a sua alma podre.
Para além do incômodo, me revoltam os seus crimes, me revolta imaginar quantas pessoas morreram pelo hospital que não houve, pela comida que não chegou à mesa; me revolta saber quantas gerações deixaram de se educar nos 30 anos açambarcados pela sua sordidez.
“Revolta”, aliás, nem começa a definir o que eu sinto.
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A imprensa isso, a imprensa aquilo.
Não aguento mais isso.
Eu sei, a imprensa não é perfeita. Errou e erra muito, sempre, como erram todos os seres vivos. Tem falhas enormes. Imensas.
Mas eu prefiro mil vezes os erros e as falhas de uma imprensa atuante, que bota a boca no trombone, ao silêncio servil que as ditaduras e os canalhas tanto amam.
E, ao contrário de Emílio Odebrecht e dos seus miquinhos amestrados que se multiplicam pela internet, eu me lembro de centenas de editoriais, matérias e colunas denunciando a corrupção ao longo dos anos, quase uma categoria jornalística em si mesma. Também me lembro dos desmentidos veementes dos políticos e dos incontáveis processos que moveram contra jornalistas, assim como não me esqueço da intensa campanha de demonização da mídia promovida pelo PT desde que chegou ao poder, e da sua obsessão com a “regulação dos meios de comunicação”, um eufemismo “progressista” para censura.
Dito tudo isso, a verdade é que, ainda que existisse uma percepção nítida de que estávamos cercados de ladrões, ninguém tinha a mais pálida noção das dimensões que a corrupção havia tomado. E ninguém tinha a mais pálida noção porque essas dimensões não eram imagináveis. Não era possível, nem para a fantasia mais delirante, perceber a que ponto o país estava contaminado.
Quem não manifestou surpresa diante das delações ou não é humano, ou estava por dentro do esquema.
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Um leitor me mandou, por esses dias, uma coluna antiga de que já havia me esquecido, e que escrevi motivada pela declaração de rendimentos que tinha acabado de preencher. Por acaso, ela se mostrou oportuna: eu sabia, como todos nós que temos olhos para ver sabíamos, que aquele dinheiro ia para o ralo, para a composição de um cenário de crescimento que não era real, para a manutenção de mordomias tão desnecessárias quanto ofensivas em todas as instâncias do poder.
“Ao longo do ano, somos constantemente provocados pelas autoridades federais, estaduais e municipais, que tratam o nosso dinheiro como papel higiênico usado. É superfaturamento de obra, ministério inútil, hotel de luxo em Roma, merenda escolar que vai para o lixo, aparelho hospitalar que apodrece sem sair da embalagem, auxílio moradia com dez anos de retroatividade para juízes sem teto, demolição de equipamentos esportivos recém-construídos — a lista não acaba nunca e desafia a imaginação mais pervertida”, dizia a coluna, que assinaria hoje como assinei em maio de 2013, sem mudar uma vírgula.
O engraçado é que, uma semana depois, um rico colunista da “Carta Capital” usou o seu espaço para me acusar de ser uma burguesa elitista sem compromisso com o Fabuloso Brasil de Lula & Dilma. Foi aí que, para minha surpresa, descobri que reclamar do destino dado ao dinheiro público não é coisa de gente bacana — gente bacana não liga para a corrupção, desde que aquele dinheiro esteja sendo roubado do lado certo.
A gente aprende as coisas das formas mais inusitadas.
Agora só me falta mesmo entender como é que a Receita, tão atenta aos centavos dos cidadãos comuns e tão zelosa em multá-los aos menores erros, deixou de ver as montanhas de recursos ilícitos movimentadas debaixo do seu nariz. 
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JOAQUIM, O FILME

Bruno Carmelo, AdoroCinema
Crítica - Joaquim se abre de maneira chocante, com uma cabeça decapitada sob a chuva torrencial. O narrador-defunto se apresenta como Joaquim José da Silva Xavier, vulgo Tiradentes, que foi decapitado por traição à Coroa portuguesa e passou a ser estudado nas escolas como herói (sim, o falecido está consciente da futura apropriação cultural de sua imagem). O início converge tempos históricos, rompe com a cronologia narrativa e com a contextualização dos fatos. A radicalidade é ainda maior por se tratar de uma biografia, gênero pouco afeito às desconstruções estruturais.
Aos poucos, a narrativa se acalma, embora mantenha uma linguagem cinematográfica viva, com câmera na mão acompanhando os personagens, cores fortes no retrato da natureza e diálogos ágeis, contrariando o imaginário do comportamento empostado atribuído às relações sociais no século XVIII. Joaquim é composto por Júlio Machado como um tipo bruto, movido mais pela ação do que pelas convicções – no início, ele é todo exterioridade e nenhuma psicologia. A estética contribui à impressão de imediatismo, de impulsividade por parte do homem que arranca dentes alheios com as mãos.
Após tamanhas surpresas narrativas e estéticas, Joaquim passa a se dedicar à descrição de procedimentos. É um trecho desenvolvido com calma, na intenção de esclarecer algo que supõe não fazer parte do conhecimento do espectador. Ensina-se como ocorre a busca por ouro, como se organizam as expedições, como os militares ganham novas patentes, como os viajantes atravessam um rio cheio de piranhas. Um militar português (Nuno Lopes), profundamente desajeitado e ignorante, serve de referencial para que Tiradentes tenha que explicar ao colega – e ao público, por extensão – como a história se faz.
Neste trecho, o filme ousa se repetir, se desacelerar. Ao invés de situar a ação nos momentos grandiosos, o diretor Marcelo Gomes se instala nos bastidores, nos períodos inevitáveis de espera, dúvida, cansaço. Enquanto o cinema de estúdios conta a história pelo olhar dos vencedores, este projeto se dedica à trajetória irônica dos perdedores, das pessoas banais que não conquistaram os seus objetivos, além daqueles que jamais vão figurar nos livros didáticos. O filme retira do passado a sua glória, sua mecânica de causa e consequência, para observar a criação do país como um processo contínuo e antiespetacular.
O olhar processual permite ao roteiro efetuar seus questionamentos mais importantes. Na expedição de busca pelo ouro reúnem-se brasileiros, portugueses, negros e índios, somando forças à tarefa única. Isso não impede que cada um tenha sua cultura e interesses próprios: são belíssimas as cenas em que o escravo (Welket Bungué) faz uma jornada solitária, de madrugada, para enterrar o cadáver de outro escravo encontrado pelo caminho, e quando este mesmo personagem canta junto de um índio (Karay Rya Pua), cada um com sua língua, todos igualmente brasileiros, compreendendo-se sem se compreender. Joaquim observa a dupla e compreende enfim que as transformações acontecem pela base da pirâmide social, e não pelo topo.
Assim ocorre o despertar político do protagonista, fundamental aos acontecimentos que lhe trariam o rótulo popular de herói. Gomes interrompe o filme antes de Tiradentes se tornar um mito, afinal, seria redundante a representação do imaginário popular. Que o espectador imagine as suas batalhas, a cena de decapitação, as conclusões da Inconfidência Mineira. Ao invés de criar o Tiradentes-herói, o roteiro investiga os motivos para a conversão de Joaquim em militante. Mesmo assim, não se dedica tanto à transformação interna do personagem num rebelde: novamente, prefere as manifestações externas à psicologia. Por isso, a conversão de Tiradentes pode soar abrupta, assim como os encontros com o Poeta são os únicos realmente artificiais, com diálogos explicativos e entonação solene demais.
Felizmente, Joaquim se conclui de modo tão selvagem quanto começou. Pode ser uma solução frustrante no que diz respeito à fluidez narrativa, mas trata-se de uma escolha potente como simbologia e discurso político, capaz de convocar o espectador à revolta social diante de qualquer opressão, inclusive em tempos contemporâneos. Sacrificando o ritmo e a coesão pela complexidade do discurso, Joaquim ousa ser excessivo, fervoroso, um projeto contrário aos moldes tradicionais e surpreendente em sua revisão da formação do país.
Filme visto no 67º Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2017.
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SÉTIMA VEZ

RIO - O ex-governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), preso desde novembro de 2016 sob acusação de corrupção, tornou-se réu pela sétima vez. O juiz Marcelo Bretas, titular da 7.ª Vara Criminal Federal do Rio de Janeiro, aceitou denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o peemedebista. Ele é acusado de fraude em licitações e recebimento de propinas de 5% sobre o valor das obras de reforma do Maracanã e no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) das Favelas. Além o ex-governador, outras 19 pessoas, entre agentes públicos e empresários, foram denunciadas.
A ação do MPF é resultado de duas operações da Polícia Federal, a Saqueador e a Calicute. Na denúncia,  Cabral é apresentado como “líder de organização criminosa”. Os procuradores afirmam que Cabral e representantes de empreiteiras fraudaram a licitação das obras de reforma e modernização do estádio do Maracanã. A obra havia sido orçada em R$ 700 milhões, mas, com os aditivos, custou aos cofres públicos R$ 1,2 bilhão. Pelo menos R$ 35 milhões teriam sido pagos em propina.
O MPF também afirma que os investigados fraudaram licitações envolvendo o PAC direcionado a favelas do Rio. Há suspeita de superfaturamento em lotes envolvendo obras das favelas de Manguinhos, do Complexo do Alemão e da Rocinha.
Dentre os denunciados estão também o ex-secretário de Obras na gestão de Cabral Hudson Braga e o ex-secretário de Governo Wilson Carlos. Braga já está preso no Complexo de Gericinó, no Rio, e Wilson Carlos em Curitiba. O Estado não conseguiu contato com as defesas, para que se pronunciassem sobre as acusações. 
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

FORTALEZA APAVORADA

Do G1
O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) confirmou que pelo menos 12 ônibus foram atacados nesta quarta-feira (19) em diferentes bairros de Fortaleza e Região Metropolitana. Com estes ataques, subiu para 55 o número de veículos de transporte coletivo incendiados no estado desde 2014, conforme o sindicato das empresas de ônibus. Passageiros relatam que parte dos ônibus deixaram de circular.
Segundo o sindiônibus, um motorista sofreu queimaduras em um incêndio provocado no transporte em que estava.
A Secretaria da Segurança ainda não se pronunciou sobre o que teria motivado a série de ataques. Até o momento, não há confirmação de pessoas presas por envolvimento nos incêndios. Uma carta recolhida pela Polícia Militar na Barra do Ceará, em um dos locais onde um ônibus foi queimado, faz ameaças, e cita mudanças em presídios.
Após os ataques, o Sindiônibus solicitou reforço no policiamento. "Diante desses fatos, estamos envidando esforços junto às autoridades do Estado para que possamos ter segurança para restabelecermos o serviço de transporte de passageiros com a total preservação da vida de trabalhadores, usuários e do patrimônio das empresas", informou em nota o sindicato.
"Os trabalhadores do transporte e empresários do setor estão aterrorizados diante de tanta violência e da real e verdadeira ameaça à integridade física e à própria vida dos trabalhadores e dos usuários do transporte coletivo", acrescentou.
Ataques
Dentre as ocorrências, foram registrados incêndios nos bairros Edson Queiroz, Barra do Ceará e Barroso, na capital, e nos municípios de Eusébio e Horizonte. Devido aos ataques, pelo menos três terminais de ônibus suspenderam as atividades.
Conforme o tenente-coronel Lima, comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar (BPM), criminosos pararam um ônibus na Barra do Ceará e mandaram os ocupantes descerem. Logo em seguida, eles queimaram o veículo e fugiram. A polícia realiza buscas para tentar identificar e prender os suspeitos.
Já a professora Lídia Bandeira contou ao G1 que estava em casa no Bairro Edson Queiroz com uma amiga quando ouviu um barulho alto, achou que fosse uma batida, mas quando chegou à frente da casa avistou um ônibus em chamas.
Usuários do transporte público também relaram ao G1 que as conduções passaram por diversos bairros em direção às garagens das empresas, sem parar nos pontos de ônibus.
Cagece e Enel
Carros de empresas distribuidoras de água e energia elétrica também foram alvo de ataques na tarde desta quarta-feira. Em nota, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) confirma que dois veículos da empresa foram incendiados nos Bairros Vila União e Conjunto Palmeiras, em Fortaleza. A empresa, diz a nota, acionou os órgãos de segurança pública para que sejam tomadas providências.
Já a Enel Distribuição Ceará, companhia de energia elétrica do estado, informa que durante os ataques aos ônibus, um carro da companhia foi incendiado e o outro atingido por disparos de arma de fogo no bairro Cidade dos Funcionários. A companhia afirma que repudia atos de violência e acrescenta que os colaboradores da empresa não foram feridos.
Ataques na Região Metropolitana
Dois ônibus foram incendiados simultaneamente nas cidades de Eusébio e Horizonte. O Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar foram acionados ao local da ocorrência no intuíto de debelar as chamas e tentar identificar os suspeitos do crime.
Uma moradora de Horizonte disse ao G1 que viu o ataque na cidade. "Chegaram três homens, não estavam encapuzados, no distrito de Dourado, nunca ocorreu isso em Horizonte, principalmente, neste distrito, que fica afastado do centro, pediram para os passageiros descer, jogaram gasolina e queimaram o ônibus'', relatou.
Equipes do Corpo de Bombeiros do Estado do Ceará foram acionadas para os locais onde os ônibus foram atacados. A capitã dos Bombeiros Juliane Freire informou que o trabalho das equipes segue em andamento para atender aos chamados e debelar os incêndios já confirmados.
O Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado do Ceará (Sintro) disse que teve conhecimento dos ataques e não recebeu informações de que haja feridos.
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FRAUDE EM FINANCIAMENTO

O Ministério Público Federal no Ceará (MPF-CE) denunciou o ex-governador do Estado, Cid Ferreira Gomes, em processo judicial por prática de Crime Contra o Sistema Financeiro Nacional, além de concurso de pessoas.  Cid é acusado de obter fraudulentamente junto ao Banco do Nordeste do Brasil um financiamento no valor de R$ 1,3 milhão para a construção de um galpão para locações em sua terra natal, a cidade de Sobral (a 224Km de Fortaleza). A pena máxima somada dos dois crimes pode ultrapassar 12 anos de prisão.
A denúncia formulada pela procuradora federal Lívia Maria de Sousa consta no processo de número 000283-98.2017.4.05.8100 e inclui ainda como réus pela prática dos mesmos crimes o sócio de Cid Gomes no empreendimento, Ricardo Sérgio Farias Nogueira, além de nove funcionários do alto e médio escalões do Banco do Nordeste, que teriam aprovado a operação financeira violando as normas de segurança de crédito da instituição tão somente para favorecer o então governador do Estado.
Conforme o processo, em 27 de agosto de 2014, Cid Gomes e seu sócio na empresa Corte Oito Gestão e Empreendimentos Ltda, entraram com o pedido de financiamento junto ao Banco do Nordeste, através da Agência  Sobral Domingos Olímpio,  no valor mínimo de R$ 1.335.700,00, com 100 por cento financiado.
Mesmo sem nenhuma garantia de faturamento suficiente da empresa para a quitação do débito, o empréstimo foi concedido através do programa Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). Para a procuradora do MPF-CE, os representantes legais da empresa proponente (Cid Gomes e Ricardo Nogueira), “teriam participado da articulação e consumação da infração penal”.
Funcionários
Além de Cid Gomes e Ricardo Nogueira, foram denunciados os seguintes funcionários do Banco do Nordeste: Leonardo Bruno Torres Braga, Eliene Silveira Mendes e Aurileda dos Santos Oliveira, respectivamente gerente geral, gerente executiva e analista da Central de Crédito de Varejo da agência do BNB em Sobral.
Também denunciados, Acy Milhomen, Micael Gomes e José Wellington Tomás, respectivamente, gerente geral, gerente de negócios e gerente executivo do Comitê de Financiamentos do BNB Sobral.
Por fim, a procuradora incluiu na denúncia, André Bernardo Ponte Lima, Richardson Nunes de Menezes e João Robério Pereira de Messias, membros do Comitê Estadual do Banco do Nordeste, que deram a aprovação final para a falcatrua.
O processo começou a tramitar junto à 32ª Vara da Justiça Federal em Fortaleza, presidida pelo juiz federal Francisco Luís Rios Alves. No entanto, o magistrado alegou que a unidade sob sua presidência não teria competência territorial para julgar o processo, e o transferiu  para  a 18ª Vara  da Justiça Federal, em Sobral.
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terça-feira, 18 de abril de 2017

O PRESIDENTE NEGRO

Hoje se comemora o Dia do Livro, homenagem ao nascimento do grande escritor brasileiro, Monteiro Lobato.

Dentre tantas obras inesquecíveis de Lobato, o blog Sou Chocolate e Não Desisto indica a leitura do livro O Presidente Negro, único romance adulto de Monteiro Lobato.
O Presidente Negro foi lançado em forma de folhetim no jornal carioca "A Manhã", de setembro a outubro de 1926, antes de ter o formato de livro.
A história se passa nos Estados Unidos e aborda temas como a segregação racial, aculturação, feminismo e ainda profetiza o surgimento de uma rede pela qual as pessoas se comunicariam e trabalhariam à distância, semelhante à internet.
Através das lentes do "porviroscópio", aparelho capaz de prever o futuro, Lobato leva os leitores para 2228, ano em que o personagem norte-americano Jim Roy, negro, concorre à presidência.
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DEMISSÃO CONSTRANGEDORA

Conhecido pelo uso recorrente das redes sociais para propagar suas ações, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), divulgou um vídeo em seu canal no Youtube para anunciar a demissão da secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, Soninha Francine (PPS). Na gravação, Doria aparece sorridente ao lado de Soninha, que mantém a expressão fechada durante todo o tempo e demonstra constrangimento com a situação, sem dar qualquer declaração.
Ele afirma que precisa dar uma “força maior” à pasta e que Soninha não tem o perfil adequado para o cargo e, por isso, será substituída pelo seu adjunto, Filipe Sabará. O tucano diz que pretende dar ritmo mais intenso, com a execução de obras, às ações da secretaria. “Tudo isso exige uma demanda que não está dentro do espírito da Soninha”, declara. “Não tive nenhuma decepção, ela continua a mesma Soninha que eu sempre gostei”, acrescenta.
De acordo com o prefeito, a ex-secretária fará parte do Conselho de Gestão da Secretaria e voltará à Câmara Municipal. No início do ano, Doria constrangeu a auxiliar ao batizar jocosamente de “Lei Soninha Francine” sua determinação de multar secretários que se atrasassem para compromissos oficiais. O apelido foi dado depois que Soninha chegou 40 minutos depois do horário combinado para um ato com o prefeito. A multa era de R$ 400 mil para quem ultrapassar 15 minutos de atraso, e de R$ 200 para quem se atrasar menos. O recurso arrecadado é distribuído a instituições de caridade.
Vereadora pelo PT entre 2005 e 2007, Soninha se filiou ao PPS em 2007. Desde então, participou de governos de Gilberto Kassab (PSD) e Geraldo Alckmin (PSDB) e editou o site oficial do então candidato à Presidência José Serra (PSDB) em 2010.
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segunda-feira, 17 de abril de 2017

ROBERTO CAMPOS, 100 ANOS

Se vivo estivesse, Roberto Campos, completaria 100 anos. Roberto Campos nasceu em 17 de abril de 1917, em Cuiabá (MT). Campos faleceu em 9 de outubro de 2001, no Rio de Janeiro.
Economista por formação, Roberto Campos foi diplomata, ocupou os cargos de deputado federal, senador e ministro do Planejamento no governo Castello Branco.
Biografia
Filho de um professor e de uma costureira, ficou órfão de pai aos dois anos de idade. Seguindo o desejo da mãe, mudou-se para Minas Gerais, na cidade de Guaxupé, onde foi estudar Filosofia e Teologia num seminário católico. Deixou o seminário em 1937, às vésperas de sua ordenação.
Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde, inicialmente, prestou concurso para escriturário do serviço público, neste concurso foi reprovado por não saber datilografar. Também tentou o concurso para inspetor de ensino, mas novamente teve de desistir - desta vez porque os diplomas do seminário não foram reconhecidos.
Ingressou no serviço diplomático em 1939, trabalhando como diplomata nos EUA. Fez pós-graduação em Economia pela Universidade George Washington, e iniciou uma tese de doutorado (Ph.D) na Universidade de Columbia de Nova York, a qual não chegou a concluir.
Participou, com o decano dos economistas brasileiros Eugênio Gudin, da Conferência de Bretton Woods, responsável pela criação do Banco Mundial e do FMI.
Trabalhou no segundo governo de Getúlio Vargas quando foi um dos criadores do atual Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do qual foi posteriormente presidente, de agosto de 1958 a julho de 1959 e participou da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, que estudou os problemas econômicos brasileiros. Rompeu com Getúlio Vargas e foi designado para trabalhar no consulado brasileiro em Los Angeles, onde aproveitou para conhecer profundamente o cinema de Hollywood.
No governo de Juscelino Kubitschek, teve participação importante no Plano de Metas, sendo um dos coordenadores dos grupos de trabalhos desse plano. Roberto Campos havia sugerido que se chamasse "Programa de Metas", sugestão que Juscelino não acatou. Roberto Campos sugeriu também que se fizesse um plano mais amplo visando combater o déficit público e equilibrar as contas externas através de uma reforma cambial.
Exerceu os cargos de Embaixador do Brasil em Washington no governo João Goulart e Londres no governo Ernesto Geisel. Quando embaixador em Londres, Roberto Campos participou da banca de doutoramento em York do futuro presidente de Portugal, o professor Aníbal Cavaco Silva.
Apoiou, em 1964, o golpe militar no Brasil, e tornou-se ministro do Planejamento no governo Castelo Branco. Como ministro, juntamente com o colega Octávio Gouveia de Bulhões do Ministério da Fazenda, modernizou a economia e o estado brasileiro através de diversas reformas e controlou a inflação.
No Governo Castelo Branco, Roberto Campos participou do grupo que criou: o Banco Nacional da Habitação (BNH), o salário-educação, o cruzeiro novo, a indexação de preços na economia brasileira através da correção monetária pelas ORTNs, Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional. Elaborou e executou uma reforma fiscal através do novo Código Tributário Nacional, Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966. Liberalizou a lei de remessas de lucros, Lei nº 4.390, de 29 de agosto de 1964.
Criou, em conjunto com outros, o Banco Central do Brasil, o FGTS e o Estatuto da Terra. Foi o autor dos artigos econômicos da Constituição de 1967, a qual foi, nas palavras dele, "a constituição menos inflacionista do mundo", a qual, entre outros dispositivos anti-inflacionários, não permitia que o Congresso Nacional fizesse emendas ao orçamento que aumentassem os gastos públicos da união.
O gosto pelo cinema, desenvolvido no período diplomático passado na Califórnia, fez com que garantisse as condições para a criação do Instituto Nacional do Cinema (INC), em 1966. Seu cunhado, o cineasta Flávio Tambellini, foi o primeiro presidente do INC.
Como ministro foi combatido por governadores, entre eles Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, que eram contra o corte de gastos públicos que Roberto Campos determinou para combater a inflação.
Roberto Campos teve grande influência na formulação da política externa do Brasil do governo Castelo Branco através da sua teoria dos círculos concêntricos.
Posteriormente, Campos tornou-se crítico dos rumos tomados por duas de suas criações: a correção monetária e o Banco Central do Brasil.
Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões, e mais Eugênio Gudin em 1954, foram os únicos economistas liberais a chegarem aos cargos de ministros da área econômica desde Joaquim Murtinho que foi ministro da fazenda de Campos Salles.
Foi senador, por Mato Grosso, pelo PDS, por oito anos (1983-1991), e deputado federal pelo Rio de Janeiro por duas legislaturas (1991-1999). Fez um discurso antológico na sua estreia no Senado Federal, que foi respondido pelo senador Severo Gomes, surgindo, então, uma rivalidade que marcaria época no Senado Federal.
Votou em Paulo Maluf na eleição indireta para presidente da República em 15 de janeiro de 1985, argumentando ser adepto da fidelidade partidária ao candidato do PDS e alegando que o referido candidato adotaria uma política econômica alinhada aos princípios liberais e privatizantes que defendia, linha programática que, em sua visão, não corresponderia à administração do candidato da oposição, Tancredo de Almeida Neves (PMDB), o vencedor do pleito.
No auge do Plano Cruzado durante o Governo José Sarney, Roberto Campos foi uma das poucas vozes a criticá-lo.
Sentia-se como sendo o único parlamentar na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 a defender a economia de mercado. Não teve nenhuma de suas ideias aprovadas quando deputado e senador. Apresentou 15 projetos de leis no Senado, todos rejeitados, entre os quais, estão projetos propondo:
Livre negociação salarial no setor privado e estabelece medidas de flexibilização do mercado de trabalho para evitar o desemprego.
Extinguir, como empresas estatais, as que forem deficitárias, privatizando-as ou liquidando-as.
Estabelecer a livre negociação salarial.
Criar contratos de trabalho simplificados para facilitar novos empregos.
Terminou o mandato de senador constituinte reclamando da solidão do liberal no Brasil.
Ao lado de José Guilherme Merquior foi um dos ideólogos do Governo Collor, chegando a ser fortemente cogitado para ocupar o cargo de Ministro das Relações Exteriores no início de 1992, acerto que não se concretizou devido a desacertos políticos entre o PDS e o governo federal. Porém votou pela sua cassação, quando deixou o hospital onde estava internado com septicemia e compareceu de cadeira de rodas no Congresso Nacional, seu voto foi muito aplaudido.
Candidatou-se, à reeleição ao Senado Federal, pelo Rio de Janeiro, em 1998, perdendo por uma diferença de 5%, para Roberto Saturnino Braga.
Foi criticado por dar mais importância à Macroeconomia do que à Microeconomia.
Criou o Banco União Comercial, o qual presidiu e que foi à falência, em 1974. Este fato teria causado grande prejuízo ao Brasil, pois o governo federal assumiu o passivo do Banco União Comercial, o qual era estimado em milhões de dólares, provenientes de empréstimos contraídos, pelo banco, no exterior. O Banco Central do Brasil ficou com a dívida do banco, junto aos credores internos.
No governo federal chegou a Ministro do Planejamento. Seus críticos afirmam que seu papel na criação do BNDES, Banco Central e do BNH, foi apenas de coadjuvante. Estes afirmam que o Banco Central do Brasil teve origem em um projeto de lei, apresentado em 1954, pelo deputado federal Ulysses Guimarães, e que o BNH foi idealizado, exclusivamente, por Sandra Cavalcanti, seu primeiro presidente.
Seus críticos dizem que foi ausente nas suas atribuições no cargo de embaixador do governo João Goulart nos Estados Unidos.
Os opositores do liberalismo o criticam por ter sido um dos maiores defensores do liberalismo econômico no Brasil.
Durante o início de sua carreira, Roberto Campos defendeu a intervenção estatal na economia desde que ligada ao desenvolvimento conjunto do setor privado capitalista e sem preconceito contra o capital estrangeiro, o que lhe rendeu a reputação de entreguista e a apelido (codinome) "Bobby Fields" dado por adversários que o viam como um americanista.
Fez este tipo de intervenção na economia, quando ministro do planejamento e no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, onde não se criaram muitas empresas estatais.
Roberto Campos cunhou as expressões monetarismo e estruturalismo na década de 1950 para identificar as duas principais visões que os economistas tinham sobre inflação. Foi crítico da Cepal e dos economistas da Unicamp. Era crítico também da Reforma Agrária.
Após o governo Castelo Branco, com o progresso do gigantismo estatal e da burocratização no Brasil durante os governos subsequentes da ditadura militar, muito especialmente nos governos de Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, intensificou sua posição aberta de doutrinário liberal defendendo a tese de que um país só pode ter liberdade política com liberdade econômica. Criticou fortemente as estatizações de empresas e a criação de novas empresas estatais pelos seus sucessores no Ministério do Planejamento.
Convenceu-se de que o estatismo é trágico e empobrecedor quando foi embaixador em Londres, nas décadas de 1970 e 1980, quando acompanhou de perto o programa de privatização da economia inglesa feito pela primeira ministra da Grã-Bretanha Margaret Thatcher. Nesse período participou da banca de doutoramento em economia na Universidade de York do atual presidente de Portugal Dr. Aníbal Cavaco Silva.
O triunfo do neoliberalismo, termo que ele dizia ser inexato, na década de 1990, deu-lhe a oportunidade de dizer, no seu livro de memórias:
Ao morrer, com 84 anos, deixou a fama, entre seus admiradores, de sempre ter razão de remar contra a maré e ser um liberal solitário no Brasil.
Combateu, sem o menor apoio e êxito, o monopólio da Petrobras, que Roberto Campos chamava de Pretrossauro, repetindo a frase do Presidente Castelo Branco que dizia: "Se é eficiente não precisa do monopólio, se precisa, não o merece". Sobre Petróleo, Roberto Campos dizia que "Petróleo é apenas um hidrocarboneto e não ideologia".
Previu em 1982, que a Lei de informática aprovada naquele ano pelo Congresso Nacional e que era de iniciativa do governo João Figueiredo, iria condenar o Brasil ao atraso na área de informática, forçando o país a importar hardwares de países asiáticos.
Ex-keynesiano, mais tarde discípulo do economista austríaco Friedrich August von Hayek, e lamentava ter perdido tempo com outros autores. Roberto Campos postulava como Hayek que o Estado deveria ter o tamanho mínimo possível para o cidadão não se tornar servo dele. Schumpeter também foi um economista que Roberto Campos admirou já na juventude. Sua tese não concluída de doutorado teria Schumpeter como "tutor").
Em 1994 diria que sua defesa do dirigismo estatal havia sido um erro de juventude, "como a gonorreia" - um exemplo da ironia corrosiva pela qual se tornou conhecido. Sua inteligência nunca deixou de ser reconhecida até pelos inimigos políticos.
Seus adversários jamais cessaram de dizer que o seu apoio entusiástico, no início, ao Golpe de 1964, não era consistente com suas defesas da liberdade política, a não ser que por "liberdade" se entendesse a liberdade econômica e o fato do país não cair nas mãos do comunismo. Seus defensores, por outro lado, dizem que Roberto Campos fazia parte do "grupo castelista" e que, portanto, apoiou só o Governos Castelo Branco e Geisel, que, segundo seus defensores, foram governos mais liberais. Porém Roberto Campos foi contra as estatizações e criações de empresas feitas por Geisel, do qual ele mesmo foi o seu embaixador em Londres.
Sobre o socialismo e capitalismo, ele acreditava que:
" - O princípio axiológico do capitalismo é que o homem é dono de seu corpo e do produto de suas faculdades e só pode ser privado do produto dessas faculdades por consenso, contrato, ou pela aceitação de tributos sujeitos ao crivo da representação democrática. Já o socialismo parte do princípio de que o homem é proprietário de seu corpo, mas não é proprietário do uso de suas faculdades. Esse produto pode — e deve — ser redistribuído segundo determinados critérios ideológicos e políticos para alcançar algo definido como justiça social… O resultado é que não se otimiza o esforço produtivo. Toda a tragédia do socialismo é, no fundo, a sub-otimização do esforço produtivo". (trecho retirado do livro "Conversas com Economistas Brasileiros").
Com informações da Wikipédia
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domingo, 16 de abril de 2017

A FACE MAIS CRUEL

Artigo de Fernando Gabeira
Apesar de ofuscada pela divulgação da lista da Odebrecht, a prisão do ex-secretário de Saúde de Cabral não me surpreendeu. Desde 2010, quando imaginei poder competir com essa gigantesca e sedutora máquina de corrupção, apontei, diretamente, para os desvios na Saúde. Minha ideia era simples. Havia corrupção em toda a parte, mas era preciso priorizar as denúncias. Na Saúde, a corrupção mata. É mais fácil passar a mensagem, embora em outros setores ela também produza grandes estragos.
A variedade de escândalos, desde aluguéis de carros que valiam mais do que os próprios carros, ao superfaturamento da compra de material elementar, como gaze, até equipamentos complexos, não deixava dúvida: roubava-se em tudo. No fundo, todas as pessoas informadas estavam alertas como a vizinha de Sérgio Côrtes, na Lagoa. Ela pediu ao porteiro que a acordasse, a que hora fosse, quando a Polícia Federal viesse prender o assecla de Cabral. O interessante nas gravações reveladas pela Lava-Jato é constatar como a equipe de Cabral pensa, agora que foi descoberta. Sérgio Côrtes queria combinar uma delação premiada com o cúmplice, tomando o cuidado de omitir as cifras roubadas, senão teria que devolver o dinheiro. A condenação pública e a própria cadeia não são os fatores que preocupam Côrtes, mas, sim, uma fórmula de reter o dinheiro acumulado. Tudo de valor que poderia ter sido apreendido em sua casa foi vendido, inclusive obras de arte. Para que servem as obras de arte, senão para serem convertidas em dinheiro? Por isso são compradas pelos corruptos brasileiros. Na verdade, a prisão de Côrtes não surpreendeu a ninguém, nem mesmo a ele. A demora serviu apenas para que se preparasse e salvasse um pouco da grana, uma vez que sempre contam com cadeia curta.
A lista da Odebrecht saiu num momento difícil para mim. Meu avião partia às 6h para Roraima. A opção era dormir ou pesquisar todos os detalhes dos pedidos de inquérito. Matérias tão amplas e vazadas parcialmente acabam trazendo um pouco de confusão. É o ônus do mundo on-line. Lula e Dilma não estavam na lista. Não têm foro privilegiado. Mas alguns admiradores que, no passado, defendiam-nos com o argumento de que todos recebiam dinheiro foram um pouco mais longe: insinuaram, agora, que todos, menos o Lula e a Dilma, receberam. São um espanto.
O tempo vai mostrar que o sistema político brasileiro sofreu um grande baque, e só sua renovação interessa. A esquerda sonha com a vitória de Lula porque acha que vitória na eleição absolve. Nesse quadro mental, a aplicação das leis passa pela contagem de votos. É um caminho para a instabilidade, porque processos legais seguem seu ritmo. Urnas não lavam um passado de crimes. Da mesma maneira, o PSDB terá que reduzir seu leque de candidatos. Os que foram denunciados pela Odebrecht estariam sujeitos também à mesma instabilidade no poder. A diferença entre os dois partidos é o fato de a esquerda se apoiar apenas no nome de Lula. Como é um líder carismático, milhares acreditam nele, mesmo com tantas evidências contrárias. A estratégia é vencer as eleições para escapar da prisão. No caso do PSDB, sem líderes messiânicos, os eleitores tendem a se comportar de uma forma mais severa. Uma candidatura, apenas para se salvar da polícia, seria tão desastrosa que morreria ao nascer. Não foi apenas o quadro da eleição presidencial que se abalou com as delações da Odebrecht. Foi todo o sistema partidário, o modo de fazer eleições — esses temas que já estavam no ar antes da aparição da lista.
Os jornalistas pediram tempo de análise, diante de tantos nomes e fatos surgidos na delação da Odebrecht. Apesar da rapidez que a tecnologia impõe, faria bem a todos que discorrem sobre o tema ler com cuidado toda a massa de informações. Por isso, divido a prisão de Côrtes com a lista. Esta última ainda merece reflexão e debate, algo difícil para mim agora, trabalhando na fronteira com a Venezuela. O caso de Côrtes e da quadrilha de Cabral, no entanto, é um terreno mais seguro. Algumas pessoas costumam dizer que não se alegram com a prisão do outro. Compreendo que sejam assim, mas seria falso admitir esse sentimento em mim. Certas prisões me alegram. Pessoas que roubam na Saúde, superfaturam remédios e próteses, inventam desnecessárias cirurgias e ficam podres de ricas com isso, merecem cadeia. Muitos anos de cadeia.
A sofrida população do Rio, por exemplo, os milhares de rostos anônimos, de corpos doloridos jogados em macas nos corredores dos hospitais, todos estão incluídos no conceito de ser humano. E às vezes escapam dos radares dos autointitulados progressistas que votaram em Cabral, com a bênção de Lula. Vivemos um momento pantanoso, o país precisa de tolerância e alguma unidade para enfrentar seus problemas. Mas existe uma linha divisória incontornável. Os brasileiros precisam responder qual é o seu lado: o de quem roubou ou de quem foi roubado.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 16/04/2017
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sábado, 15 de abril de 2017

O FIM DE LULA

Da ISTOÉ

Sob os escombros das delações da Odebrecht, o personagem regente de nossas transformações políticas por quase 40 anos submerge ferido de morte. Luiz Inácio Lula da Silva nunca mais será o mesmo. Talvez, um Silva. Ou um Luiz Inácio. Nunca mais um Lula. Aquele Lula, nunca mais. Acabou. É como o Edson sem o Pelé. Para o petista, as delações dos executivos da Odebrecht foram acachapantes. Restaram claro que a autoproclamada “alma mais honesta”, a quem um dia milhares de brasileiros confiaram a missão de mudar radicalmente a maneira de fazer política no País, se beneficiou pessoalmente dos ilícitos – e estendeu as benesses aos seus familiares. Sem sequer corar a face, o petista abandonou ao léu sua principal bandeira, a da ética – se é que um dia foi verdade.
Os fatos –, e eles são teimosos, deles não há como escapar, – nos conduzem à crença na impostura lulopetista como uma espécie de dogma de ação. Senão vejamos: segundo Marcelo Odebrecht, Lula chegou a registrar um saldo de R$ 40 milhões de reais em sua conta-propina, administrada pelo ex-ministro Antonio Palocci. Desse total, Lula sacou, no mínimo, 30 milhões de reais. Em dinheiro vivo, conforme antecipou ISTOÉ com exclusividade em reportagem de capa de novembro de 2016. Gravíssimo. Como explicar tanto dinheiro na conta ante o povo sofrido do Nordeste? “Nós contra eles”? “Nós” quem, cara pálida? Também teve mesada em espécie para o irmão, o Frei Chico, pixuleco para o sobrinho, Taiguara Rodrigues, e pedido de apoio aos negócios do filho caçula, Luís Cláudio, em troca de azeitar a relação da Odebrecht com o governo de sua pupila, Dilma Rousseff. Sem falar no pagamento de despesas estritamente pessoais, como a reforma do sítio de Atibaia, no interior de São Paulo, a aquisição de imóveis para uso particular e do dinheiro para a instalação do Instituto batizado com o seu nome. Nem mesmo as palestras ministradas pelo petista sobrevivem incólume ao escrutínio da Justiça. Tido como homem de Lula na Odebrecht, Alexandrino Alencar contou aos procuradores que as palestras de US$ 200 mil – padrão Bill Clinton – a Lula foram uma maneira de compensar a ajuda do petista à Odebrecht durante seus dois mandatos. E que ajuda!
Atuando com se fosse um embaixador da Odebrecht, o petista chegou a impedir que a Petrobras adquirisse ativos da Ipiranga para garantir que o grupo permanecesse com a hegemonia do setor, em detrimento dos interesses da estatal. “Compreendo que nossa presteza e o nosso volume de pagamentos feitos a pretexto de contribuição para a campanha contribuíram nas decisões que tanto o ex-presidente Lula quanto integrantes do PT tomaram durante sua gestão, coincidentes com nossos interesses”, sapecou o patriarca da família, Emílio Odebrecht. A promiscuidade era tanta que Emílio pediu a Lula que segurasse sua turma: “Eles têm a goela muito grande”, afirmou.
Os negócios pessoais do ex-presidente se confundiam tanto com as decisões de governo que nem o próprio petista conseguia distingui-los mais. Hoje, há quase um consenso entre procuradores e agentes federais de que quase todo dinheiro amealhado pelo petista, nos últimos 13 anos, foi produto de crime. Para a imagem do ex-presidente, a constatação é nitroglicerina pura.
Pá de cal
Nos bastidores da Lava Jato, a condenação de Lula em primeira instância é tida como questão de tempo. Conforme apurou ISTOÉ, na quinta-feira 20, em depoimento ao juiz Sergio Moro, o ex-sócio da OAS, Leo Pinheiro, irá jogar a pá de cal sobre o processo do tríplex, no Guarujá, no qual Lula é réu por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. O empreiteiro confirmará que o imóvel foi, sim, um regalo ao petista em troca de benefícios fraqueados por Lula à construtora. O ex-presidente insiste na cada vez mais inverossímil versão de que não é o dono do apartamento – um argumento incapaz de se equilibrar em pé. O depoimento de Pinheiro somado às mais recentes revelações do ex-zelador do tríplex, publicadas com exclusividade por ISTOÉ, sacramenta a tempestade perfeita em torno do ex-presidente. De acordo com José Afonso, ele viu, numa das visitas ao tríplex, dona Marisa pedir aos funcionários da OAS para que instalassem o elevador privativo no imóvel. “Quem pediria para construir um elevador num apartamento que não é seu?”, questiona o arguto zelador. O aparelho ascensor constituiu apenas um item da reforma empreendida pela OAS no imóvel. A pedido do petista, o quarto de empregada e uma área da sala viraram um escritório, o piso foi revestido de porcelanato e uma generosa área gourmet foi erguida no último andar, onde há um deck e uma pequena piscina. O acerto envolveu ainda a compra, junto à Kitchens, dos eletrodomésticos que equiparam a cozinha, com instalações pré-fabricadas, geladeira e microondas, avaliadas em mais de R$ 200 mil. Tudo isso aconteceu no ano de 2014, sob a coordenação de Leo Pinheiro, sócio-presidente da OAS. Ou seja, enquanto se dizia vítima das elites, em palanques País afora, Lula tinha um apartamento reformado pelas mãos da quintessência dessa mesma elite. Quem, nesse País, desfruta do privilégio de ter um imóvel remodelado por um presidente de empreiteira e, ainda por cima, de graça? Nós? Ou ele?
Três fases de Lula
Da glória no movimento sindical à ameaça de prisão por corrupção
A derradeira fase do processo do tríplex será o depoimento de Lula a Sergio Moro no dia 3 de maio, quando os dois ficarão tête-à-tête pela primeira vez. O interrogatório tem tudo para virar um espetáculo. Militantes da CUT, UNE e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, pretendem se revezar em discursos inflamados do lado de fora. Há mais de um mês, Lula depôs na 10ª Vara Federal de Brasília, no processo que investiga a tentativa de compra do silêncio de Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobras. Como tudo o que envolve Lula, a audiência virou um comício. Como dizia Marx, guru ao qual o petismo nutre fidelidade quase canina, a história se repetirá. Como farsa. Sergio Moro, que já foi criticado e agora é adulado por Lula, não parece exibir um perfil de quem cairá nessa.
Nem todas as ações penais dependem de Moro. Além de responder pelo apartamento de três decks, Lula é réu em mais quatro processos: por obstrução de Justiça, por tráfico de influência e corrupção passiva, acusado de usar sua influência em órgãos do governo e no BNDES para beneficiar a empreiteira Odebrecht em contratos de obras em Angola, organização criminosa, por integrar um esquema de venda de vantagens no governo em benefícios de empresas, e por lavagem de dinheiro, pelo fato de ter recebido propina da empreiteira Odebrecht na forma da compra de um terreno (avaliado em 12,5 milhões de reais) para a construção do Instituto Lula. Diante das revelações dos delatores, não há muita escapatória. A briga da defesa de Lula residirá no ringue da segunda instância, onde os processos desaguarão em 2018. Condenado, terá como destino a cadeia e se tornará automaticamente um político ficha-suja, razão pela qual ficará impedido de concorrer a qualquer cargo eletivo. Por isso, estrategicamente, Lula antecipa sua candidatura ao Planalto. Trabalha para transformar uma decisão eminentemente jurídica numa contenda político-ideológica. A ideia é constranger o Judiciário sob o pretenso argumento de que ele está sendo vítima de táticas de lawfare (guerra jurídica) e, por isso, “quem deve julgá-lo é o povo”. Nem uma nem outra. Mais uma vez, o petista quer colocar-se acima das leis. A era dos privilégios, no entanto, parece ter acabado. Assim como o encanto da população, em quem um dia depositou as mais sinceras esperanças, se quebrou.
Se as eleições fossem hoje, o petista poderia até alcançar o segundo turno, a julgar pelas recentes pesquisas, mas com uma rejeição acima de 50% estaria impossibilitado de regressar à Presidência. E a repulsa tende a aumentar, com o acréscimo dos fatos novos. O ex-presidente da Câmara dos Deputados e conhecido político mineiro José Bonifácio de Andrada, tetraneto do Patriarca da Independência, costumava repetir pelos corredores do Congresso: “Em política, todos os compromissos e determinações devem ser cumpridos, menos quando surgem o fato novo e o fato consumado.” Os dois fatores, combinados ou não, justificaram as mais importantes reviravoltas políticas ao longo da história. Aqui, o fato novo, representado pelas delações dos executivos da Odebrecht, encontra-se associado ao fato consumado, a morte política de Lula.
Não foi sempre assim. Nas últimas quatro décadas, a expectativa do poder pessoal de Lula serviu como uma bússola da política nacional. Guindou-o, aos olhos do regime militar, ainda em meio às greves do ABC, a um adversário mais empedernido do que muitos dos inimigos tradicionais da ditadura como Miguel Arraes e Ulysses Guimarães. Fundador de um PT que ainda engatinhava, soube alimentar, durante a campanha das Diretas-Já e o governo José Sarney, uma dicotomia em que era tratado, pelo resto da oposição, ora como potencial aliado, ora como virtual adversário. Saiu da primeira eleição direta, em 1989, como uma grande força política, sofreu duas duras derrotas eleitorais, mas ressurgiu como uma fênix para dois mandatos consecutivos e a ascensão a mito. Em 2010, elegeu a sucessora e o resto já é história.
A farsa do caixa 2
A reputação ilibada do petista começou a ruir no longínquo ano de 2005. Ainda está bem viva na memória da maioria a célebre entrevista em Paris em que Lula, cândida e calmamente, diante das câmeras, tentou justificar o mensalão, reduzindo-o a mero caixa dois: “O que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o que é feito no Brasil sistematicamente. Se o partido cometeu erros, tem de explicar para a sociedade onde errou, porque errou e o que vai fazer para consertar o erro. Mas não é por causa do erro de um dirigente ou de outro que você pode dizer que o PT está envolvido em corrupção”. Ali, brasileiros concederam a ele e ao PT o benefício da dúvida. A presunção da inocência. Anos depois, descobriu-se que tudo não passava de uma tentativa de dourar mais uma narrativa. Concomitante ao mensalão, veio o aparelhamento da máquina do Estado a serviço de um projeto de perpetuação no poder. O Petrolão representou a sofisticação do escândalo anterior. A ele, foi embutido, além do projeto de poder, o benefício pessoal e o enriquecimento próprio, por meio de uma corrupção institucionalizada responsável por sangrar estatais. A farsa se materializou. “A corrupção deveria ser considerada crime hediondo. E, quem saqueia o Estado, merece ir direto para a cadeia”. A frase é da lavra de um autor conhecido: o ex-presidente Lula, em entrevista concedida a um jornal operário ainda na década de 80. Aquele Lula acabou.
Delação de Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht
“Remuneramos Lula pelo que ele fez para o nosso grupo”
“ Nosso objetivo inicial foi conseguir um projeto que pudesse remunerar o ex-presidente Lula, face o que ele fez durante muitos anos para o grupo. E que fosse de uma maneira lícita, transparente.
Buscamos, então, algo que é uma prática comum com ex-mandatários, de vários países, inclusive do Brasil.
Usaram como referência (para pagar US$ 200 mil para palestras de Lula) os valores pagos para o presidente americano Bill Clinton. Aliás, subiram um pouco a régua. Até porque era um novo player no mercado”
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