Cidades são ecossistemas complexos, repletos de diversidade, seja nos aspectos geográficos, seja nos aspectos humanos. Por isso, uma gestão urbana eficiente exige, bom diagnóstico, planejamento participativo, indicadores adequados e abordagem integrada, sempre com foco na eliminação da desigualdade.
Uma boa medida do nível de bem-estar geral dos habitantes de uma cidade é o seu Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, adotado pela ONU para agregar parte dessa diversidade ao estudo do seu desenvolvimento, incorporando à aferição da renda outros indicadores relativos à educação e à longevidade da população.
O IDH é constituído de três componentes: Longevidade, Educação e Renda. O uso do IDH adiciona precisão às avaliações de crescimento econômico baseadas no PIB e outros, melhorando a leitura do nível de qualidade de vida geral.
É importante, contudo, cruzar a interpretação do IDH com outras medições da realidade social e econômica, por exemplo, montando mapas de desigualdade e de insegurança da cidade.
Quando trabalhei, no ano de 2014, como assessor parlamentar na Câmara de Vereadores da Cidade do Recife, chamou-me a atenção um fenômeno curioso que ilustra como podemos incorrer em uma miopia estatística ao analisarmos indicadores urbanos.
O IDH do Recife até então havia crescido durante os 20 anos anteriores, atingindo o status de IDH Alto com valor 0,772. Apesar disso, a cidade permanecia na 210ª posição, no ranking de IDH municipal no Brasil.
Ocorre que o IDH de uma cidade é a média dos IDHs de seus bairros. A má posição nacional do Recife, sugeria a existência de bolsões de “subdesenvolvimento” encobertos pelo próprio método de cálculo das médias que compunham o IDH da cidade como um todo.
A renda per capita no Recife também aumentara durante aqueles 20 anos e o PIB da cidade havia dobrado. Porém, ao cruzarmos os números do IDH com informações do Índice de Gini (que mede o grau de desigualdade de uma localidade), percebia-se que o Recife permanecia como a mais desigual entre as maiores cidades do país. Perdia para Salvador, Fortaleza, Florianópolis, Porto Alegre, Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo, Rio e outras.
Ao abrirmos o IDH dos bairros do Recife, encontramos áreas de classes média e alta com Índice de Desenvolvimento Humano equivalente ao de países desenvolvidos. Mas também havia bairros com IDH classificado como médio que tinham componentes de renda e de educação baixos. Ou seja, bairros que apareciam como desenvolvidos e a rigor continham comunidades subdesenvolvidas.
Mais surpreendente ainda era a ocorrência até mesmo de bairros com IDH Alto (equivalente a países ricos) dentro dos quais havia áreas com renda e educação baixos (equiparáveis a países pobres).
Seguindo com o exemplo recifense, naquela mesma época o Relatório Cidades Empreendedoras 2014, produzido pela Endeavor Brasil, trazia o Recife na 12ª posição, entre 14 capitais. A pesquisa revelava uma cidade estagnada em itens como burocracia, impostos, infraestrutura, acesso à internet, mão de obra qualificada, energia elétrica, preço do metro quadrado e mobilidade urbana.
Esse quadro era o mesmo na maioria das cidades brasileiras em 2014, e a situação não mudou até este ano de 2021. O Brasil prossegue com o IDH nacional em crescimento, apesar de perder posições para outras nações. Permanece, no entanto, entre os 10 países mais desiguais e inseguros do mundo.
Ao desdobrarmos os indicadores até o nível das cidades e de seus bairros, podemos constatar que a situação piorou em grande parte dos municípios brasileiros.
Dito de outra forma, mesmo nas cidades mais ricas do país, ainda é possível encontrar bairros com qualidade de vida equivalente à Bélgica convivendo com comunidades que se parecem com o Haiti.
Felipe Sampaio é co-fundador e colaborador do Centro Soberania e Clima (CSC)

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