Em vez de só explorar óleo e gás nas últimas áreas disponíveis, Petrobras deveria investir em capturar carbono
Não só a Petrobras é alvo de críticas por querer extrair petróleo numa região ambientalmente sensível como a foz do Amazonas. Há reclamações idênticas em várias partes do mundo, onde a atuação de petrolíferas cria risco de vazamentos e desastres ambientais. Como revelou reportagem do GLOBO, existem 2.095 atividades de produção de petróleo e gás em 835 áreas de proteção, espalhadas por 91 países.
Ambientalistas argumentam que áreas protegidas têm sido rebaixadas ou retiradas da relação de regiões de risco ambiental na atual fase de transição energética, em que as empresas de petróleo buscam repor suas reservas. “À medida que a indústria fica sem óleo fácil, as petroleiras ampliam para ambientes vulneráveis, incluindo patrimônios mundiais declarados pela Unesco, hábitat de tigres ou territórios com povos indígenas sem contato”, diz Kjell Kuehne, diretor da ONG alemã Lingo.
Na Namíbia, a canadense Reconnaissance Energy atua na bacia hidrográfica do delta do Okavango desde 2021, sob críticas da população e de ambientalistas. Como no Brasil, há conflitos dentro do próprio governo. Os ministérios da Energia e do Meio Ambiente estão em choque, e o caso está na Justiça, por causa da denúncia de contaminação de rios.
Nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden é criticado por ter aprovado a exploração de petróleo no Alasca, apesar de ter prometido na campanha que reduziria o consumo de combustíveis fósseis. Mas, com o mundo no início da transição para energia limpa, o petróleo ainda mantém papel preponderante nas matrizes energéticas.
Em tal cenário, petrolíferas têm investido na captura de carbono da atmosfera para estocá-lo no subsolo. Na Europa, um consórcio formado por Shell, Equinor e Total planeja armazenar carbono abaixo do Mar do Norte, em antigas áreas de exploração. A americana Occidental Petroleum, por meio da subsidiária 1PointFive e da startup Carbon Engineering, desenvolve a primeira unidade em escala comercial para capturar carbono no ar.
Ela simula o funcionamento das árvores, concentrando o gás. O objetivo inicial é injetá-lo em poços para aumentar a produção de petróleo. O gás pode ainda ser usado em bebidas ou para ajudar no crescimento de plantas em estufas. Quando a unidade industrial conseguir retirar 500 mil toneladas de carbono da atmosfera por ano, em 2025, o gás será retido para ajudar no combate ao aquecimento global. A Occidental Petroleum planeja construir cem usinas de larga escala até 2035.
A maior de todas as petroleiras, a ExxonMobil, já tem uma “divisão de baixo carbono” e também pretende prestar serviços de descarbonização a grandes poluentes, como siderúrgicas ou fábricas de cimento. A empresa prevê que a atividade alcançará receita global de US$ 6 trilhões em 2050.
No Brasil, a Petrobras anunciou que destinará 15% de seus investimentos entre 2024 e 2028 — ou quase R$ 12 bilhões — a “negócios de baixo carbono” e fontes renováveis. É uma boa notícia. Em vez de insistir em explorar petróleo nas poucas áreas que restam, a Petrobras também precisa seguir esse caminho. Para mitigar os danos ambientais dos combustíveis fósseis, não basta produzir energia limpa. Despoluir a atmosfera também promete ser um bom negócio para as empresas que até hoje vivem de petróleo, mas precisam buscar um novo futuro.

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