Planalto avalia que Venezuela pode virar ‘trunfo’ da
campanha de Lula com discurso de soberania
Presidente considera crise no país vizinho preocupante, mas
estratégia prevê recalibrar tom nacionalista que ‘salvou’ o governo após
tarifaço, no ano passado
A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, com a captura
do ditador Nicolás Maduro, virou tema de disputa eleitoral no Brasil. Mas, ao
contrário do que a direita apregoa, no Palácio do Planalto a avaliação é que a
ofensiva do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o país vizinho pode se
tornar um “trunfo” para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva ao quarto
mandato.
O diagnóstico foi feito pelo próprio presidente, em
conversas reservadas com amigos. Para Lula, a crise na Venezuela é preocupante,
sim, mas o tiro dos pré-candidatos à sua cadeira sairá pela culatra.
No momento em que os atos golpistas do 8 de
Janeiro completam três anos, a estratégia do Planalto consiste em recalibrar o
discurso da soberania, que salvou o governo quando houve o tarifaço imposto por
Trump aos produtos brasileiros, em 2025.
À época, Lula enfrentava maus bocados: perdia popularidade
dia a dia e os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro já cantavam vitória
antecipada, apostando na aproximação com Trump. Tudo mudou, porém, quando o
governo investiu nas negociações diplomáticas e ressuscitou o mote “O Brasil é
dos brasileiros”, que havia despontado no Congresso em fevereiro, na esteira do
slogan “Make America Great Again” (Faça a América Grande de Novo), usado por
Trump em sua campanha.
Ao longo do tempo, as articulações feitas nos EUA por
Eduardo Bolsonaro, hoje um deputado cassado, passaram a ser vistas no terreno
doméstico como traição sem precedentes. O Centrão entrou em desespero com a
tática adotada pelo filho de Bolsonaro e o jogo virou para Lula.
Embora os desdobramentos da ofensiva americana sejam hoje
tão imprevisíveis quanto o próprio Trump, todos sabem que aos EUA pouco importa
a restauração da democracia no país de Maduro. O que Trump quer mesmo é o
petróleo da Venezuela, além de retomar a influência sobre a América Latina,
próspera em recursos minerais.
Nesse cenário nebuloso, Lula adotará a retórica da
pacificação, mas sempre condenando atos de força. Os governadores Tarcísio de
Freitas (São Paulo), Ratinho Jr. (Paraná), Romeu Zema (Minas) e Ronaldo Caiado
(Goiás), por sua vez, continuarão a associá-lo a ditaduras e baterão na tecla
de que o Brasil corre o risco de virar uma Venezuela. Na prática, Lula paga o
preço de ter demorado a recolher o tapete vermelho para Maduro.
O governo torce para que o senador Flávio Bolsonaro vá até o
fim da disputa. Tarcísio é visto como um adversário mais difícil. Mas tanto um
quanto outro foram alertados por marqueteiros de que os aplausos aos EUA, nesta
temporada, devem ser menos efusivos. Não sem motivo: em se tratando de Trump,
tudo pode acontecer. Inclusive nada.

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