quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

DISCURSO NACIONALISTA

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

Planalto avalia que Venezuela pode virar ‘trunfo’ da campanha de Lula com discurso de soberania

Presidente considera crise no país vizinho preocupante, mas estratégia prevê recalibrar tom nacionalista que ‘salvou’ o governo após tarifaço, no ano passado

A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, com a captura do ditador Nicolás Maduro, virou tema de disputa eleitoral no Brasil. Mas, ao contrário do que a direita apregoa, no Palácio do Planalto a avaliação é que a ofensiva do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o país vizinho pode se tornar um “trunfo” para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva ao quarto mandato.

O diagnóstico foi feito pelo próprio presidente, em conversas reservadas com amigos. Para Lula, a crise na Venezuela é preocupante, sim, mas o tiro dos pré-candidatos à sua cadeira sairá pela culatra.

No momento em que os atos golpistas do 8 de Janeiro completam três anos, a estratégia do Planalto consiste em recalibrar o discurso da soberania, que salvou o governo quando houve o tarifaço imposto por Trump aos produtos brasileiros, em 2025.

À época, Lula enfrentava maus bocados: perdia popularidade dia a dia e os aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro já cantavam vitória antecipada, apostando na aproximação com Trump. Tudo mudou, porém, quando o governo investiu nas negociações diplomáticas e ressuscitou o mote “O Brasil é dos brasileiros”, que havia despontado no Congresso em fevereiro, na esteira do slogan “Make America Great Again” (Faça a América Grande de Novo), usado por Trump em sua campanha.

Ao longo do tempo, as articulações feitas nos EUA por Eduardo Bolsonaro, hoje um deputado cassado, passaram a ser vistas no terreno doméstico como traição sem precedentes. O Centrão entrou em desespero com a tática adotada pelo filho de Bolsonaro e o jogo virou para Lula.

Embora os desdobramentos da ofensiva americana sejam hoje tão imprevisíveis quanto o próprio Trump, todos sabem que aos EUA pouco importa a restauração da democracia no país de Maduro. O que Trump quer mesmo é o petróleo da Venezuela, além de retomar a influência sobre a América Latina, próspera em recursos minerais.

Nesse cenário nebuloso, Lula adotará a retórica da pacificação, mas sempre condenando atos de força. Os governadores Tarcísio de Freitas (São Paulo), Ratinho Jr. (Paraná), Romeu Zema (Minas) e Ronaldo Caiado (Goiás), por sua vez, continuarão a associá-lo a ditaduras e baterão na tecla de que o Brasil corre o risco de virar uma Venezuela. Na prática, Lula paga o preço de ter demorado a recolher o tapete vermelho para Maduro.

O governo torce para que o senador Flávio Bolsonaro vá até o fim da disputa. Tarcísio é visto como um adversário mais difícil. Mas tanto um quanto outro foram alertados por marqueteiros de que os aplausos aos EUA, nesta temporada, devem ser menos efusivos. Não sem motivo: em se tratando de Trump, tudo pode acontecer. Inclusive nada.

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