Chineses assumiriam o controle do negócio da IA no mundo
Se a China invadir Taiwan, terá nas mãos o controle quase
absoluto da produção internacional de microprocessadores de ponta. Chips de
computador. O cérebro digital por trás da inteligência artificial. A Nvidia, empresa
americana que se alterna com Apple e Microsoft no
posto de companhia mais valiosa do mundo, estaria de joelhos. Ela desenha os
chips usados por OpenAI, Anthropic e outras. Mas são empresas de Taiwan que
manufaturam esses chips. Para passar do projeto ao objeto, é preciso aquilo que
apenas Taiwan tem. Mesmo o Google, que cria os próprios chips, depende da
manufatura da ilha. A China assumiria o controle do negócio da IA no mundo. E
não só da IA. Tudo depende de microchips. Carros modernos não abrem sequer a
porta sem microchips. Geladeiras, micro-ondas. A geopolítica mundial seria
redesenhada por completo. Mas por que a China invadiria Taiwan?
Quando a Rússia invadiu
a Ucrânia,
em fevereiro de 2022, muitos na esquerda brasileira abraçaram as ideias do
cientista político John Mearsheimer, da Universidade de Chicago. Mearsheimer é
o principal nome da escola realista em ciências internacionais. É o sucessor
intelectual de Henry Kissinger, secretário de Estado de Richard Nixon e um dos
responsáveis pela estratégia de espalhar ditaduras militares de direita pela
América Latina. É irônico. Mas um bom pedaço da esquerda latino-americana
defendeu a ação russa contra a Ucrânia abraçando o argumento de que, ora, “a
Ucrânia está na zona de influência russa”. Portanto é da natureza do
comportamento das nações que a Rússia não tolerará a ideia de um país vizinho
ter plena autonomia.
Os realistas — eles próprios se autobatizaram assim —
enxergam países como caixas-pretas que sempre reagem da mesma forma. Se um país
é mais forte que o vizinho, imporá suas vontades. Nem que seja à força. Na
essência, realistas não acreditam que democracias liberais realmente funcionem.
Não acreditam que sociedades sejam capazes de se comprometer com regras comuns,
arbítrio independente. Que um mundo multilateral seja viável.
A ofensiva que levou ao sequestro do ex-presidente Nicolás
Maduro, na Venezuela,
parte do mesmo princípio. O governo americano, com Donald Trump,
considera que o Hemisfério Ocidental é sua zona de influência. Certos
comportamentos de líderes das Américas não serão tolerados. Alguns tentam
comparar a ação ao sequestro seguido de prisão de Manuel Noriega, ditador
panamenho, durante o governo de Ronald Reagan. É muito pior. Noriega havia sido
agente da CIA, e o governo Reagan não assumiu o controle do Canal do Panamá depois
da prisão. Empresas americanas não ganharam contratos melhores com o ataque.
Desde a Guerra Hispano-Americana, nos primeiros anos do século XX, os Estados
Unidos não faziam uma ação tão ostensivamente imperialista. Trump foi claro: o
objetivo é garantir um governo venezuelano que entregue aos americanos o melhor
contrato possível de petróleo.
Um dos principais críticos de Mearsheimer é Michael McFaul,
que serviu como embaixador em Moscou nos
anos Obama. Para ele, cientista político da Universidade Stanford, os realistas
partem do princípio segundo o qual o tipo de regime não faz diferença no
comportamento de nações. Mas faz. Democracias não entram em guerra com
democracias. Negociam. Quando potências econômicas incentivam a aceitação de
regras comuns por todos, há mais comércio, mais crescimento, mais paz. Foi o
que vivemos entre os anos 1990 e 2000. Quando regredimos à política do século
XIX e à economia do século XVII, entramos no buraco.
Colega de McFaul em Stanford, Francis Fukuyama segue correto
na ideia que teve no momento em que se desmontava o Muro de Berlim. O encontro
entre democracia liberal e economia de mercado é o melhor caminho que já
descobrimos. E estamos nos afastando dele por divisões internas das sociedades.
Porque nos recolhemos a bolhas e não toleramos mais diferenças. Gente como
Putin e Trump cresce nessa regressão civilizatória. Se a China olhar torto para
Taiwan, o mundo muda.

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