Apesar de rebaixado à segunda colocação no ranking de
escândalos do país, o caso da varejista ainda promete algumas emoções
No meio do furacão do Banco Master, que veio redefinir a
extensão e a profundidade do lodaçal que avança sobre o país, a Americanas
(alguém se lembra?) ensaiou uma volta ao noticiário no mês passado, quando a
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) elencou 31 réus, entre eles a rede
varejista, que teriam sido responsáveis pela “maior fraude corporativa da
história do mercado de capitais brasileiro”.
Não tão rápido, regulador. No fim da semana passada, a
autarquia aprovou a criação de um grupo de trabalho para “análise técnica de
informações relacionadas ao Grupo Master, à Reag e a outras entidades conexas”.
Nem é preciso dar alerta de spoiler. Todo mundo sabe que o título já mudou de
mãos.
Exatamente três anos depois que a revelação
das “inconsistências contábeis” da varejista de Jorge Paulo Lemann, Marcel
Telles e Carlos Alberto Sicupira atingiu em cheio o mercado, a CVM apresentou
sua peça de acusação de um dos inquéritos instaurados para dar conta da peça de
ficção contábil de R$ 20 bilhões encenada por anos a fio sem que ninguém
conseguisse desvendar a farsa.
São duas histórias muito diferentes, com enredos que passam
por temas comuns em dramas que viraram livros e chegaram ao cinema como “Enron:
Os Mais Espertos da Sala” (2005) e “A Grande Aposta” (2015): cobiça,
manipulação e vigias que não impediram o crime.
O script do Master está praticamente escrito, com suas
reuniões secretas em mansões frequentadas por poderosos e até um resort no
estilo “Ilha da Fantasia” - “O avião! O avião!”, gritava na abertura o ator
Hervé Villechaize, no papel de Tatoo - que fica num bairro chamado Laranjal.
Não, não é piada.
A trama da Americanas é comparativamente mais modesta. Seus
atores primaram pela discrição e pela resiliência - ela foi muito mais
duradoura, pelo menos desde 2013 há indícios de manipulação, segundo a
investigação da CVM, que ocorreu simultaneamente à feita pelos especialistas
contratados pela empresa, o chamado comitê independente, cujas conclusões foram
reveladas pelo Valor em 2024.
As 264 páginas produzidas pela Superintendência de Processos
Sancionadores da CVM confirmam o ambiente de um “The Office” turbinado e sem
graça, no qual um esforço descomunal é feito para montar e manter de pé uma
realidade paralela numa fábrica de números e de documentos falsos, cujo
objetivo era enganar acionistas e investidores com um pastelão de quinta
categoria.
Nada extravagante, nada de festas, modelos e
influenciadores. Nenhum ministro ou político. Apenas um elenco entrosado que
fazia o que fosse necessário para entregar o resultado que os analistas
queriam. Uma assinatura forjada aqui, mais três zeros ali. “Tô tentando aqui
aumentar o LL [lucro líquido] mas tá F”, diz uma das mensagens que constam do
relatório da CVM.
“Os números a serem atingidos com a fraude tinham por base o
orçamento previamente aprovado e não alcançado, ou seja, já partiam de números
fraudados”, escrevem os técnicos da autarquia. “Não é complexo, portanto,
entender como, no decorrer do tempo, tal situação tornou-se incremental,
retroalimentando-se.” Como não imaginar o que não teria sido feito com ajuda da
inteligência artificial?
Os auditores, cuja atuação voltou a ser criticada no caso
Master, aparecem numa luz ligeiramente positiva nas páginas do relato da CVM.
“Durante os processos de auditoria surgia a necessidade de fraudes adicionais,
como a confecção de documentos falsos e a adulteração de relatórios a serem
entregues aos auditores”, diz um trecho. “Conforme aumentavam as exigências das
empresas de auditoria, aumentava também o número de pessoas envolvidas [na
fraude]”, de áreas como tecnologia da informação, comercial, jurídico e
financeiro.
Os relatos parecem apontar para o que se convencionou
caracterizar como um “sequestro” pela administração dos controles internos, o
que impediria os “gatekeepers” de desempenhar suas tarefas. Essa teoria, que
ganhou força na esteira dos grandes escândalos do início do século, diz que os
gestores usam as brechas e fragilidades do sistema de governança para enganar
auditores, conselheiros e reguladores. Esse conluio de funcionários, de
diferentes níveis da empresa, especialmente na instância decisória, tornaria
difícil a detecção das fraudes.
Isso não significa que as auditorias que passaram pela
Americanas estão livres de uma possível punição, já que há investigações
separadas em curso na CVM sobre a atuação delas, todas do grupo das “quatro
grandes” do setor no mundo. A novidade desta vez é que a autarquia resolveu
colocar mais gente no barco. Dois inquéritos foram abertos no fim de janeiro
para apurar a atuação dos bancos em operações comerciais e nas emissões de
valores mobiliários da Americanas, como ofertas públicas de ações. Membros dos
conselhos de administração e fiscal e de comitês de assessoramento também serão
investigados para se saber se cumpriram suas funções com diligência.
Apesar de já ter sido rebaixado para a segunda colocação no
ranking do país pródigo em escândalos, o caso Americanas ainda promete algumas
emoções.

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