sábado, 5 de outubro de 2013

DE VOLTA À CENA POLÍTICA

Por José Fucs, de Fortaleza, da revista Época
Depois de três anos de reclusão, o ex-governador e ex-senador cearense Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB e uma das principais lideranças nacionais do partido, decidiu romper o silêncio. Na semana passada, ele recebeu ÉPOCA no seu escritório em Fortaleza, num edifício comercial junto ao Shopping Iguatemi, de sua propriedade. O empresário de 64 anos falou sobre política e as perspectivas eleitorais de Aécio Neves. Embora tenha afirmado em 2010, depois de perder a reeleição para o Senado, que aquela seria sua última disputa, Jereissati não descartou a possibilidade de atender a um pedido de Aécio e disputar novamente uma vaga no Congresso Nacional no ano que vem.
ÉPOCA – Em 2010, quando perdeu a reeleição para o Senado, o senhor disse que seria sua última disputa. Recentemente, o senador Aécio Neves, pré-candidato do PSDB à Presidência em 2014, afirmou que gostaria de vê-lo como candidato ao Senado ou ao governo do Estado, para puxar votos no Ceará. Sua hibernação política acabou?
Tasso Jeireissati – Com certeza, um pedido do Aécio vale muito. Tenho muita vontade de ajudá-lo e de ver uma grande mudança acontecer no país. Em política – aliás, na vida de forma geral –, aprendi uma coisa: é muito arriscado dizer que dessa água não beberei. Agora, a probabilidade de isso acontecer é muito pequena. Prefiro que surjam novos nomes. Estou convencido de que boa parte dessa geração de políticos está vencida. A política do jeito como é feita hoje no Brasil está vencida. Há um cansaço generalizado com a política tradicional, o desprezo pela opinião pública, a falta de compromisso com as ideias. Hoje, há espaço para gente nova, não necessariamente nova de idade, mas com ideias novas, que não tenha os vícios da política atual e represente uma ruptura com o que se vê por aí. A população não suporta mais o que é feito em termos de gestão pública e política no país. A grande maioria dos políticos, com honrosas exceções, é viciada em politicagem.
ÉPOCA – De certa forma, não foi isso que Lula fez quando indicou Dilma Rousseff, que nunca participara de uma eleição?
Jereissati – Só que ela não usou isso para melhorar sua administração, uma das mais equivocadas que o país já teve. Num primeiro momento, parecia que Dilma faria uma ruptura, ao menos em relação à política tradicional. No primeiro ano de governo, demitiu um ministro corrupto por mês. Só que ela fez uma espécie de carrossel. Demitiu e foi readmitindo todo mundo de volta. Acabou desempenhando o pior dos papéis, porque não tem a habilidade política do Lula. Fazer política com alguém completamente inábil é um desastre.
ÉPOCA – Em que medida Aécio é diferente desses políticos que o senhor critica?
Jereissati – O Aécio tem algumas características importantes para o futuro. Primeiro, é um homem de posições firmes, apesar de sua visão conciliadora. Nisso, ele lembra muito o Tancredo Neves, seu avô. Outra coisa que Aécio tem é indispensável no Brasil de hoje para quem quer ser presidente da República: é um senso de administração pública que dá a pessoas competentes a responsabilidade pela gestão das políticas públicas, arrasadas pelo aparelhamento e pela politicagem. Isso é fundamental para mudar o Brasil.
ÉPOCA – O PSDB não consegue vender bem suas ideias para a população. Nas últimas eleições, evitou até defender a privatização, uma bandeira do partido. O que acontece?
Jereisssati – Fizemos um erro brutal quando, equivocadamente, nos entregamos ao marqueteiro da campanha. O marqueteiro olha as pesquisas e diz: a população é contra a privatização, contra a elite, contra isso, contra aquilo e diz que temos de ser contra também. Deixamos de defender aquilo em que acreditávamos para seguir a orientação pura e simples do marqueteiro, negando nossa própria obra, nossos trunfos. A privatização do Brasil foi um marco na luta contra a corrupção. Fernando Henrique representava essa grande revolução no Brasil, a reforma do Estado. Ficamos com vergonha disso e, infelizmente, não nos demos conta na eleição seguinte. Resultado: acabamos perdendo a classe média. Agora, há um processo inverso. Ao contrário do que aconteceu quando fomos influenciados pela marquetagem, há no PSDB um orgulho do que fizemos no passado. Hoje, há uma repulsa ao que é feito, e as ruas estão aí para mostrar isso. Com certeza, há um fato novo. Se não recuperamos ainda a classe média, o certo é que o PT a perdeu.
ÉPOCA – Como anda sua relação com o ex-governador de São Paulo José Serra?
Jereissati – Em alguns momentos, tivemos divergências pontuais, principalmente quando da primeira candidatura dele à Presidência da República. Em determinado momento, o (Mário) Covas, então governador de São Paulo, me lançou como candidato a presidente. Aí nasceu, naturalmente, uma rivalidade, e o Serra, quando tem um rival, não brinca em serviço. Mas nunca lhe neguei o valor de homem público, a inteligência, a capacidade. Pegue o ministério da Dilma todinho e você não vê ninguém com capacidade e espírito público que cheguem aos pés do Serra.
ÉPOCA – Com o Bolsa Família, o Mais Médicos e o Minha Casa, Minha Vida, não fica difícil para o PSDB apresentar um projeto alternativo com apelo de massa?
Jereisssati – Existe uma percepção de que o Brasil melhorou, e tinha de melhorar. A política do Bolsa Família trouxe ganhos inegáveis. Agora, a população tem também a percepção de que a politicagem e a corrupção nunca foram tão grandes. Existe cada vez mais a consciência de que a corrupção rouba dinheiro não só do cidadão, mas corrói as bases morais do Brasil. O país hoje está mal moralmente.
ÉPOCA – Parece existir uma percepção de que o Brasil melhorou no governo do PT.
Jereisssati – A primeira parte do governo Lula foi boa. Vivemos a fase Palocci (do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci), em que o governo do PT foi surpreendentemente bom. Eu mesmo fiz vários discursos no Senado de apoio ao que acontecia. Com todas as restrições que eu fazia, Lula teve a humildade de ouvir e ser receptivo ao que era correto – e o fez muito bem. Com a crise de 2008, no entanto, houve o convencimento ideológico. Eles acreditaram que o Brasil era uma ilha de prosperidade e que essa prosperidade se devia à intervenção do Estado na Petrobras, no Banco do Brasil... A arrogância passou a compor com a visão ideológica. Houve um erro brutal de política econômica e de políticas públicas que levou o Brasil a perder uma credibilidade construída ao longo de 15 anos. Tudo isso foi por água abaixo em um ano ou dois.
ÉPOCA – A que erro de política econômica o senhor se refere?
Jereissati – Dilma é diferente de Lula. Lula tinha uma arrogância política, mas sabia que não entendia de economia e procurava ouvir. Ele tinha uma adaptabilidade muito grande, e poucos se importavam com as coisas que ele dizia e depois desdizia. Ele mesmo disse ser uma metamorfose ambulante. Dilma não. É mais ideológica, acha que sabe mais que todo mundo. Ela impôs seus pontos de vista em relação ao papel do Estado, ao intervencionismo do governo, à comunidade financeira, à livre-iniciativa, à política internacional. Só que ela não tem noção das consequências que determinados gestos podem trazer. Foi abrindo brechas que criaram feridas enormes num aspecto essencial da economia de mercado: a confiança. Os investidores querem investir onde há segurança de médio e longo prazo. Ela quebrou essa confiança. O primeiro gesto dela foi desafiar os bancos e baixar os juros na marra. Estamos voltando aos juros altos. Depois, vieram o marco regulatório do setor petrolífero, a mudança nas regras do setor energético e a mudança nas regras das concessões. No momento, ela parece ter percebido o estrago que causava na economia. A alta da inflação e as manifestações de junho mostraram que as coisas não iam bem. A maior sinalização veio da vaia no jogo do Brasil, que evidentemente ela não esperava. Ela estava com um excesso de confiança, dava bronca em todo mundo, e aquilo foi um choque para ela.
ÉPOCA – Como o senhor analisa as manifestações recentes?
Jereisssati – Elas passaram uma mensagem clara de repúdio não só ao governo, mas aos políticos e às instituições como um todo. Entendi aquilo como um alerta. Infelizmente, parece que não foi algo bem compreendido pelos políticos, porque, de lá para cá, as coisas não evoluíram muito. Ao contrário, até pioraram. É só ver o que acontece no Congresso, no governo e até na Justiça: deputado preso com mandato preservado pelos parlamentares, ministros demitidos sob acusação de corrupção pela presidente, depois renomeados por ela mesma, e até escândalos num ministério se repetindo. Os partidos viraram legendas de aluguel, hotéis de alta rotatividade. Isso sempre existiu no Brasil, mas hoje se generalizou e se institucionalizou.
ÉPOCA – Nas últimas pesquisas para a eleição de 2014, o ex-governador mineiro Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência da República, tem aparecido em terceiro lugar, bem atrás da presidente Dilma e de Marina Silva, do Rede Solidariedade, e à frente apenas do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB. A que o senhor atribui o resultado negativo de Aécio nas pesquisas?
Tasso Jereisssati – Todos os que não foram candidatos à presidência antes aparecem mal nas primeiras pesquisas. O Lula foi candidato em todas as disputas eleitorais depois da redemocratização do país. Só não foi candidato na última eleição, em 2010, porque ele não podia concorrer. Aí, ele saía sempre na frente. A não ser no caso de alguém muito conhecido, como o Sílvio Santos, só quem já foi candidato a presidente e apareceu em cadeia nacional de televisão durante dois meses tem uma posição de destaque nas pesquisas no início da campanha. No momento, quem está aparecendo na ponta é a Dilma e a Marina, que eu gosto e admiro. Mas a Dilma é a presidente da República e a Marina já foi candidata no último pleito. O Aécio, não. O Eduardo Campos, também não. Se você incluir o nome do José Serra na pesquisa, ele vai aparecer na frente. O Ciro (Gomes), também. O (Geraldo) Alckmin, idem. Em 1994, o Fernando Henrique começou lá embaixo, com 3% ou 4%, e acabou ganhando. O Lula saiu na frente, com o Brizola logo atrás, porque eles já haviam participado da eleição anterior e eram nomes nacionais. Então, largar atrás é algo natural e esperado. O nome do Aécio é muito conhecido em Minas. Por isso, ter um governador de Minas ou de São Paulo como candidato é muito importante. Ele já sai de uma base relativamente alta.
ÉPOCA – Apesar de o ex-governador de São Paulo, José Serra, ter decidido permanecer no PSDB, o partido parece atravessar um dos piores momentos de sua história. A impressão é que o PSDB passa por um crise de identidade, talvez a maior da sua história, depois de três eleições perdidas, com disputas internas pelo controle da máquina partidária. O que teria levado o partido a essa situação?
Jereissati – Não vejo assim. O PSDB é o único partido que ainda é representado fortemente por seus ideais, como (Geraldo) Alckmin, em São Paulo, o maior estado do Brasil, que faz um governo genuinamente social democrata. É um político que nasceu e se desenvolveu dentro do PSDB. O (Antonio) Anastasia, em Minas Gerais, a segundo força eleitoral do país, é a mesma coisa. Outro governo importante: Alagoas. É um estado pequeno, mas governado por um peessedebista tradicional, o Teotônio Vilela Filho. O Pará, também, é governado por outro peessedebista tradicional, o Almir Gabriel, que foi fundador do partido quando era senador e sempre foi social democrata. Na essência do PSDB hoje, você não vê essa turma do troca troca. São PSDB originais. O partido tem poder em estados importantes. No Nordeste, especialmente, existe, sim, uma crise. Essa crise é diretamente proporcional à força do PT hoje na região. O PT hoje está se tornando o que a Arena e o PFL foram no passado. Está saindo dos grandes centros e indo para as regiões menos desenvolvidas, mais pobres e que são dependentes – não apenas as autoridades, mas a própria população – do governo federal para sobrevivência. Hoje, a população do interior do Nordeste não sobrevive sem o governo – e isso está se perpetuando, o que é mais grave. No interior dos estados nordestinos, 90% da população vivem de bolsa família, Funrural, aposentadoria e outros benefícios. O que no passado era chamado de coronelismo, clientelismo dos coronéis, que não dava vantagens diretas, mas indiretas, como os cestões básicos de alimentos na época da seca, hoje é um clientelismo no atacado, institucionalizado, que é atribuído a um único chefe, ao Lula. Para mim, ninguém pode negar o que o Bolsa Família, que é até de origem nossa, trouxe vantagem. Mas perpetuar isso é um crime no longo prazo.
ÉPOCA – Sabe-se que o senhor não mantém uma boa relação com o ex-governador de São Paulo, José Serra. O senhor fala de unidade programática no PSDB, mas tem o PSDB do Serra, do Aécio...
Jereissati – É o mesmo PSDB. Isso é muito cobrado do PSDB, mas dos outros partidos, não. O próprio PT não tem lideranças, tem correntes, que são inimigas entre si. O PMDB, então, nem se fala. Tem o PMDB do fulano, do ciclano, do beltrano. Agora, eu gostaria de deixar claro que um dos ministros que mais me ajudaram quando eu era governador do Ceará foi o Serra, que na época estava no ministério do Planejamento. Tive um apoio gigantesco do Serra. Admiro o Serra. É um talento, um homem público como poucos no Brasil. Em alguns momentos nós tivemos divergências pontuais, principalmente quando da primeira candidatura dele à presidência da República. Em determinado momento, o (Mário) Covas, então governador de São Paulo, me lançou como candidato a presidente. Aí nasceu, naturalmente, uma rivalidade, e o Serra, quando tem um rival, não brinca em serviço. Mas nunca lhe neguei o valor de homem público, a inteligência, a capacidade. O Serra sempre foi considerado entre os médicos como um dos melhores ministros da Saúde da história do país. Mais recentemente, ele cometeu o erro de não ter defendido a nossa obra na campanha, de seguir a “marquetagem” e se relançar candidato à presidência em 2010. Agora, a época não é mais dele, como digo em relação a mim mesmo. Agora, chegou a vez de outro. Eu não tenho falado com ele, mas estou muito feliz em ouvir as notícias de que está completamente confirmado que vai continuar no partido. Para mim, isso é uma grande alegria, porque ele é um quadro excepcional.
ÉPOCA – Agora, politicamente o Serra não é um agregador...
Jereissati – Eu acho que o problema do Serra foi apenas a falta de percepção de que os outros no partido têm a vez deles também.
ÉPOCA – O senhor não pensa que, em algum momento, o PSDB perdeu um pouco a identidade em razão da vinculação da imagem do partido com a elite, com o neo liberalismo? Em que momento isso desandou?
Jereissati – O PT teve uma grande infiltração na academia, na área intelectual, e conseguiu demonizar determinados termos e ligar ao PSDB às elites, até hoje. Se o Zé Dirceu (um dos fundadores e ex-presidente do PT) é condenado, é coisa das elites. Se a Rosemary (ex-secretária do escritório da presidência da República em São Paulo) é presa é coisa das elites. Se a amiga do Lula está fazendo clientelismo e politicagem e alguém descobre isso é a elite que é culpada. Acho que a coisa desanda quando o Lula se elege e adota a política do PSDB e ao mesmo tempo em que a exorcizava. As coisas começam a dar certo e a classe média começa a viver muito bem, comprando o segundo ou terceiro carro, casa de campo, essas coisas todas, e vem aquele grande momento do Brasil. Foi a grande oportunidade que tivemos. A partir daí, começamos a ter os grandes erros. O PT conquistou essa classe média e a convenceu que não se vivia tão bem no passado, em função do diabo que o Lula fez do liberalismo e da privatização.
ÉPOCA – O que o PSDB deve fazer para ter um apelo popular, para se transformar numa alternativa efetiva de poder?
Jereissati – Pode parecer um pouco demagógico, mas acho que é falando aquilo que a gente acredita. É muito melhor do que falar daquilo que a gente não tem convicção. Nós racionalizamos demais a política e o PT, principalmente o Lula, tem o grande talento de vender ilusões. Nós não temos esse talento, mas deveríamos ter pelo menos perder o poder de vender sonhos. Só o que temos é aquilo em que acreditamos. Essa é forma de voltar a ocupar o nosso lugar. Nós superestimamos o marketing, em função do sucesso do PT. O PT é um sucesso de marquetagem. Nós não conseguimos, porque estávamos vendendo coisas em que não acreditávamos e não defendendo aquilo em que acreditávamos. E nessa discussão quisemos ser muito racionais, porque é um pouco do nosso estilo. “Nunca antes na história do país”, “estou mudando a geopolítica do mundo”, “vou ensinar o Obama como se salva os bancos”, “vou ensinar a Europa como se retoma o crescimento”. O Brasil começou a acreditar nisso. Agora, com as manifestações e esse movimento todo da classe média, a ficha caiu. Nós não somos isso. Não somos riquíssimos, não temos nível de Europa, não estamos ensinando coisa nenhuma para os Estados Unidos.
ÉPOCA – Qual é a sua visão sobre a Marina?
Jereissati – Espero que a Marina seja candidata. Eu não sou advogado, não entendo muito de Direto, mas não consigo entender como um partido como o Pros, que ninguém sabe de onde saiu, o que defende, para onde vai, o que vai fazer, consegue o registro na Justiça Eleitoral, e o Rede, da Marina, não. Até dá para entender que o Solidariedade, do Paulinho, da Força Sindical, consiga, porque ele tem a máquina dos sindicatos por trás. Mas não consigo entender como um Pros consegue e a Marina, não. A Marina representa uma parte do pensamento do país, o Partido Verde, as bandeiras ecológicas. Tem um grande apoio, até entre os religiosos. O Pros ninguém sabe o suporte social que tem. Para o bem do país, espero que ela seja candidata. É bom que haja alguém como ela, que representa uma parte importante da sociedade, na disputa.
ÉPOCA – Sobre o Eduardo Campos, o que o senhor pensa?
Jereissati - Gosto muito dele. O Eduardo é uma liderança importante, tem seu valor. Está na hora de o Nordeste ter um candidato a presidente. Está na hora de gente nova, dessa nova turma entrar na disputa.
ÉPOCA – Como está encaminhada a questão do vice do Aécio?
Jereissati – Isso ainda não está encaminhado, não. Ainda tem muito chão pela frente. Vai depender muito da situação nos próximos meses. Uma coligação é importante. O DEM é um aliado natural, já no primeiro turno. O PPS era uma aliança natural, mas parece que pode se aliar com o PSB. O Solidariedade, do Paulinho, da Força, também pode se aliar conosco.
ÉPOCA – O senhor acredita que é possível fazer uma frente de oposição no segundo turno, qualquer que seja o nome – Aécio, Marina ou Eduardo?
Jereissati – Acredito que sim. O Eduardo foi maltratado demais pelo PT e pela Dilma para haver qualquer possibilidade de compor com eles no segundo turno. De novo, tudo pode acontecer na política, mas ele tem muito mais identidade conosco. Temos muita coisa em comum. Com Eduardo é muito provável, por causa disso. Com a Marina, é bem possível. Isso se a gente não for para o segundo turno contra ela, se é que ela será mesmo candidata.
ÉPOCA – Nas últimas semanas, a Dilma voltou a crescer nas pesquisas. Será que, em 2014, a oposição vai morrer na praia novamente?
Jereissati – Em política, em eleições, a gente não pode dizer nada com certeza, mas , hoje, acho quase impossível que não haja segundo turno em 2014. Primeiro, porque a economia não é mais a mesma. O nível de confiança não é mais o mesmo. A popularidade da presidente na classe média não é mais a mesma. E o desgaste do governo em função da somatória de escândalos e erros é muito grande. Não acho nem um pouco estranho que ela tenha voltado a crescer nas pesquisas. Se você der a exposição de vinte dias que a Dilma teve nos últimos na televisão para o Aécio ou mesmo para a Marina e para o Eduardo, em circunstâncias inteiramente favoráveis a ela, qualquer um deles vai lá para cima. Bote o Aécio declarando guerra aos Estados Unidos na ONU e defendendo uma política chamada de Mais Médicos, com ampla campanha nacional, expondo-o mais do que todas as empresas que fazem anúncios em televisão juntas, que vai acontecer a mesma coisa. Era até para a Dilma ter subido muito mais do que isso. O Lula no auge, com a economia bombando, foi para o segundo turno com o Alckmin. Agora, a economia está mal, o país está mal, está difícil para todo mundo, para as empresas, para a classe média, para quem vive nas grandes cidades. A economia está estagnada, a inflação, num patamar alto e temos uma presidente que, para dizer o mínimo, não tem o carisma do Lula. Então, a probabilidade de haver segundo turno – e acho que é conosco, com o PSDB – é muito grande.
ÉPOCA – Há alguns dias, o Lula disse que vai se engajar de corpo e alma na campanha. Isso não pode atrapalhar os planos da oposição?
Jereissati – Apesar de ele aparecer bem em todas as pesquisas – e é inegável que ele é muito forte e muito popular, principalmente no Nordeste –, acho que esta disputa por protagonismo do Lula faz mal à Dilma. Quanto mais ele quiser ser protagonista – e o Lula não consegue desgrudar do protagonismo totalmente – pior será para ela.
ÉPOCA – Como senhor avalia a saída dos irmãos Gomes do PSB? Qual o impacto que isso pode ter no PSB e na política local?
Jereissati – No plano nacional, não sei, mas na política local, estadual, terá muito impacto, porque é um exemplo do arrasamento dos partidos, da coroação da política de troca de partidos, de cargos, de vantagens. Cada um que se salve e o último que sair que apague a luz. A meu ver, isso consolida um cenário que se manifestou em caráter nacional, e também aqui. Ao mesmo tempo sela uma aliança da família Gomes com o PT e o governo Dilma e isola o PSDB e PMDB, que era o grande aliado do PT aqui, neste quadro aqui. Isso foi rachado no meio, porque existe um candidato derrotado ao governo do Estado e fica claro que o candidato do PMDB não vai ser o candidato do governo federal.
ÉPOCA – Como a saída dos irmãos Gomes para o Pros afeta o PSDB no Ceará?
Jereissati – Depois de ouvir o que vou dizer agora, você vai falar que eu sou o pior político que conheceu na sua vida. Nos últimos cinco dias, houve uma romaria de deputados, de candidatos a deputado, estaduais e federais, ao meu escritório, para me dizer que estão de saída do PSDB, porque foram convidados por A ou por B. Vieram me comunicar ou para ver se eu tinha possibilidade de compensar essas oportunidades, ficar dono do partido, que é o grande sonho hoje em dia. Todo mundo quer ser dono de partido, que dá direito a minutos de televisão e ao fundo partidário. Não é tão desprezível assim. A minha conclusão é que prefiro começar o partido do zero, porque na verdade eles já não são do partido, não têm nada a ver com o partido. Não estamos no poder para fazer concessões, muito menos financeiras, nem para oferecer cargos. Ninguém vai ser dono do partido também. Então é melhor começar do zero e quem sabe não aparece gente nova por aí. Por coincidência, apareceu um grupo de jovens médicos, dispostos a formar uma nova visão política e a ser candidatos.
ÉPOCA – Hoje, no campo econômico, o governo está voltando atrás em muitas coisas que fez e defendia até pouco tempo atrás. A questão da privatização é o maior exemplo. Ao longo das três últimas eleições, o PSDB foi demonizado pelo PT por defender a privatização. Agora, a Dilma quer implementar um amplo e ambicioso programa de “concessões”, uma palavra que o governo está usando para não falar em privatização. Como o senhor vê essa reviravolta?
Jereisssati – Primeiro, a Dilma insistiu, por razões ideológicas e por orgulho, em negar o que era evidente: a necessidade de investimento privado em infraestrutura, que está completamente estrangulada no país. Ela era a mãe do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. Agora, cadê o PAC? Ninguém fala mais de PAC, que era centrado nos investimentos estatais. Não tem mais PAC 1, PAC 2, nem prestação de contas do PAC. O PAC era para ser a grande alavanca do crescimento. Só que nós tivemos um crescimento do PIB de 0,9% em 2012 e neste ano vamos ficar um pouco acima de 2% e talvez menos de 2% no ano que vem. Agora, o governo só fala em “concessões”, que na verdade é uma privatização de serviços públicos. E, mesmo nas “concessões”, é um vai e vem danado, porque a Dilma quis fixar a taxa de retorno dos investidores abaixo do que o mercado desejava. Se você determina uma taxa de retorno abaixo do que o investidor tem no mercado, ele não vai investir. É uma falta de conhecimento absoluta do que acontece na vida real. O que desmorona a confiança também é anunciar bilhões e bilhões de investimento que a gente sabe que não existem. Ele vem ao Ceará e anuncia R$ 9 bilhões de investimento. Em Alagoas, anuncia mais R$ 15 bilhões. Em Pernambuco, outros R$ 35bilhões. Esse dinheiro não existe. Isso destrói a confiança. O investidor pensa que, se ela realmente for gastar esses bilhões, a política fiscal vai para o vinagre.
ÉPOCA – A Dilma e o Lula perpetuaram aqueles instrumentos anticíclicos de estimulo à economia, que faziam sentido no auge da crise e depois não tiraram mais...
Jereissati – O (Guido) Mantega (ministro da Fazenda) dia que era uma uma política keynesiana. Mas, em vez de ver aquelas medidas como instrumentos anticíclicos, enxergaram mais como uma política contra o capitalismo, as empresas privadas e o mundo financeiro, como uma comprovação de que a intervenção do Estado na economia era verdade absoluta em política econômica. O resultado é que ela desgraçou todo um processo de confiança no Brasil, que foi construído tão duramente, ao longo das últimas décadas. Nós vamos pagar muito caro, muito tempo, por tudo isso que está aí. Não vai ser da noite para o dia que vamos resolver.
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