sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

DO BRASIL E SEUS HERÓIS

Na mesma edição de jornal , 21 caixões e vários corpos ”encontrados” dividem as chamadas com a privada polonesa de 500 dólares da ex-Primeira Dama do Rio, Adriana Anselmo, e os 20 ternos Ermenegildo Zegna do marido e então governador do Rio de Janeiro ,Sérgio Cabral, o filho.  Na mesma matéria , a renúncia do ex-Ministro da Cultura, Marcelo Calero , acusando “pressão ” de Geddel Vieira Lima pedindo para interferir no IPHAN na liberação de um apartamento de R$ 2 .5 milhões comprado em Salvador pelo ministro baiano. Pela explicação do ministro, foram apenas “ponderações” , “mal entendidos” .
Enquanto um via suborno e aviltamento  ,  o outro  ironizava sobre a ” doçura” do diplomata Calero que não entendeu o espírito de como se faz política em Brasília. Calero negou-se a aceitar o projeto estapafúrdio da vaquejada como cultura e da maracutaia como forma de fazer política. Na suíte do caso, Temer teria enquadrado Calero, o caso acabou respingando no presidente, mas Calero saiu, Geddel ficou — só não aguentou a pressão, agora da população inteira, e uma semana depois pediu “exoneração do honroso cargo”.Tarde. Na mesma denúncia de propina nas páginas que destrincham a falência do Rio, vem a explicação de uma simples “oxigenação “.
Na mesma revolta da população inteira que inclui canto de servidores revoltados com trechos de Carmina Burana de Carl Orff e Carmen de Bizet diante da Assembléia Legislativa do Rio, a declaração de Sergio Cabral , “estou com a consciência limpa, indignado com acusações “.Neste Brasil grande cabe tudo , Caixa Dois por um lado e pressa para descriminalizar o que é crime.
Esta semana Temer montou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social alegando que assumiu um Brasil com déficits de verdade e muito ilusionismo contábil. Garantiu “entramos na era da lucidez”. Na mesma edição , Temer qualificava então o escândalo Calero-Geddel de “um acidente” menor.
O mesmo ex-governador do Rio, Antônio Garotinho, que ía levar ” um bombom Garoto” para Sérgio Cabral quando o desafeto fosse preso, acabou em  Bangu, junto com Cabral. Antes , tentou oferecer R$ 5 milhões para não ser preso e apresentou um diploma universitário duvidoso para escapar do xilindró.
A era do esquecimento
Um bombom, um acarajé, um kibe, bacalhau, propina não. ” Fumar um charuto”, “tomar um vinho”, assim o ex-diretor  de Serviços da Petrobrás ,Renato Duque , marcava encontros com os operadores para receber contratos malocados. O ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto cunhou como ” pixuleco” aquilo que Carlinhos Cachoeira preferia denominar ” assistência social”. Luis Rogério Gonçalves Magalhães em conversa com Wagner Garcia , preso em Bangu, preferiu noticiar três dias antes a prisão de Cabral assim, “entregou a rapadura com raspas de limão”.  Já Cabral preferia negociar propinas com a Andrade Gutierrez utilizando nome de mulher, Nelma de Sá Saraca, em alusão à histórica secretária d’O Pasquim,  tabloide fundado entre outros pelo Sergio Cabral pai, criador do musical Sassaricando.
A era é a do esquecimento, Sergio Cabral não sabe como pagou as joias da mulher em dinheiro vivo, algumas no valor de R$100 mil. Sua mulher não sabe como R$ 10 milhões foram parar na sua conta. A era é a do deslumbramento, da ostentação, do triplex em Guarujá que é de ninguém, de mais uma delação premiada do senador cassado Delcídio Amaral dizendo que o ex-presidente Lula, que não sabia de nada , tinha ” conhecimento absoluto “. E todo Congresso,  que diz não temer nada, tremendo diante do acordo de delação dos 80 executivos da Odebrecht, empreiteira que mantinha um departamento de propina para suprir as demandas e agora pode atingir 130 políticos.
A era é a da pos-verdade, do virtual que não é real, da anti-humanidade de Donald Trump respingando temores nos ilegais brasileiros. A era é a do nacionalismo , da ultradireita antissemita, racista, xenófoba, homofóbica, neonazista ganhando espaço no mundo. A era é a da pós Petrobrás, empresa das mais poderosas do mundo , transformada na mais endividada do planeta com 132 bilhões de dólares. E é ainda o pré-sal, os royalties do pré sal que vão saldar parte do endividamento dos estados.
Na era da “lucidez ” que é a dos reality shows, devem se suceder as operações Calicut, My Way, Nessum Dorma, Caça-Fantasma, Resta Um e uma nação que segue atônita com verdades partidas, em busca de seus heróis– ou pelo menos de políticos éticos –, e de um espelho que não reflita a face de uma pós-verdade tão mentirosa.
Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa
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