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terça-feira, 2 de maio de 2017

RECORDANDO PAULO FREIRE

Ana Cristina Tavares, O Globo
''No quadro negro a nossa luta continua/a minha escola dá um salto pro futuro/e vem pra guerra de caneta na mão/vermelho e branco pede educação/sem preconceito e discriminação...'' Os versos do samba-enredo da Escola de Samba Leandro de Itaquera, de São Paulo, foi uma homenagem em 1999 a Paulo Freire, dentro do enredo ''Educação, um salto para a liberdade'', captando a essência do pensamento de um dos maiores educadores brasileiros, criador do método de alfabetização que trouxe para a realidade dos alunos adultos a abstração do ensino. Incompreendido, foi perseguido pela ditadura, que considerou subversiva a metodologia que fazia o estudante pensar.
Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 19 de dezembro de 1921 no Recife e sofreu com a pobreza e a fome na crise econômica de 1929. Em 1931, mudou-se com a família para a pernambucana Jaboatão dos Guararapes. Anos mais tarde, retornou ao Recife para estudar, começando a lecionar Língua Portuguesa aos 18 anos. Quatro anos depois, ingressou na Faculdade de Direito, montando um escritório após receber o diploma, mas logo abandonou a profissão para dar aulas. Em 1944, Freire casou-se com a professora primária Elza Maria Costa de Oliveira, com quem teve cinco filhos: Maria Madalena, Maria Cristina, Maria de Fátima, Joaquim e Ludgards.
Em 1947, o professor assumiu a Divisão de Educação e Cultura do recém-criado Serviço Social da Indústria (Sesi), com a missão de alfabetizar adultos no estado. Nessa época, sentiu o quanto era necessário que o país enfrentasse a questão do analfabetismo. Firmou-se como educador progressista em 1958, durante o 2º Congresso Nacional de Educação de Adultos, realizado no Rio, então capital federal. Nos anos 60, se engajou nos movimentos de educação popular e, em 1961, foi um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular (MCP), no Recife, o primeiro do gênero, durante a prefeitura de Miguel Arraes. Escreveu seu primeiro artigo sobre alfabetização dois anos depois, ''Conscientização e alfabetização, uma nova visão do processo'', no qual diz, explicitamente, que primeiro o homem se conscientiza para depois se alfabetizar, um elemento importante naquilo que o educador chamava de leitura do mundo.
Nesse período, começou a pesquisar e a desenvolver um método de alfabetização para adultos. O sistema foi aplicado pela primeira vez em 1963, em Angicos, no Rio Grande do Norte, alfabetizando 300 trabalhadores em 40 horas. A edição do GLOBO de 11 de maio de 1997 afirma que metade dos alunos teria concluído o curso. A última aula foi ministrada pelo presidente João Goulart em 2 de abril de 1963, um ano antes do golpe militar, que esmagaria o sonho de Paulo Freire. No mesmo ano, a convite do então ministro Paulo de Tarso, coordenou o Plano Nacional de Educação.
Com o golpe militar em 1964, Jango Goulart foi deposto e Paulo Freire, preso. Acusado de subversão, conforme inquérito aberto pelos militares e arquivado por falta de provas, ele ficou detido por 75 dias e foi forçado ao exílio. Conseguiu asilo político na Bolívia, indo em seguida para o Chile. Lá, trabalhou em programas de educação e lançou, em 1967, ''A educação e a atualidade brasileira'', tese apresentada em 1959 para concorrer a uma vaga como professor de História e Filosofia da Educação na Universidade do Recife.
Ainda na época do exílio chileno, escreveu sua maior obra, ''Pedagogia do oprimido'' (1968), lançado somente em 1974. Traduzido em mais de 20 idiomas, inclusive em hebraico, o livro fala do ''Método Paulo Freire'', proposta pedagógica mais importante e pensada para o Terceiro Mundo e adotada por diversos países para erradicar o analfabetismo. Paulo Freire trabalhou em universidades de prestígio, como Harvard, nos Estados Unidos, e de Genebra, na Suíça, além de ter corrido o mundo estudando culturas, principalmente no continente africano.
De volta ao Brasil em 1979, Paulo Freire passou a lecionar na PUC de São Paulo e ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. Após a morte de Elza Maria, em 1986, Paulo casou-se com uma ex-aluna, Ana Maria Araújo, a Nita. Quando o PT assumiu a Prefeitura de São Paulo, tornou-se secretário de Educação na gestão da prefeita Luiza Erundina, de 1989 a 1993. No período, criou o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova). Lançou mais dois livros: "Pedagogia da esperança’’ (1992) e ‘'À sombra desta mangueira’’ (1995).
Em 12 de abril de 1991, a prefeitura de São Paulo fundou o Instituto Paulo Freire, com o objetivo de dar continuidade ao trabalho do educador e organizar seus arquivos. O nome de Paulo Freire está espalhado por todo o mundo, em escolas, centros de pesquisas, espaços culturais e bibliotecas. Doutor Honoris Causa com mais de 40 títulos em instituições espalhadas por todo o mundo, Paulo Freire foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1993, tendo em 1986 recebido da Unesco o Prêmio Educação da Paz, além do título de Professor Emérito e Presidente Honorário. Em 13 de abril de 2012, pela lei 12.612, foi declarado patrono da educação brasileira. Em uma praça em Estocolmo, na Suécia, um monumento em forma de banco homenageia sete personalidades mundiais, entre eles, Paulo Freire, Pablo Neruda e Mao Tsé-Tung.
Paulo Freire morreu no dia 2 de maio de 1997, aos 75 anos, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, vítima de infarto. Deixou para o mundo um legado de ideias e um extenso currículo dedicado à liberdade e à justiça social. 
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