terça-feira, 31 de março de 2026

TAL PAI, TAL FILHO

Editorial O Estado de S.Paulo

Em conferência da extrema direita nos EUA, Flávio Bolsonaro sugere que eleição presidencial só será ‘livre e justa’ se ele vencer, mostrando que é um orgulhoso herdeiro do golpismo do pai

A natureza é algo implacável. O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, vem tentando se apresentar como uma versão “moderada” do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não tem jeito: o golpismo bolsonarista parece ser mesmo genético.

Ao discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), convescote de extremistas de direita realizado nos Estados Unidos, Flávio defendeu o “monitoramento” das eleições brasileiras e sugeriu “pressão diplomática” externa para garantir um pleito “livre e justo”. Arrematou dizendo que, “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”, numa sugestão nada sutil de que ele só não será eleito se houver fraude ou manipulação.

É isto o que Jair Bolsonaro passou anos fazendo e que foi um dos motivos de sua condenação por tentativa de golpe de Estado: colocou sistematicamente em dúvida a lisura das eleições brasileiras e chegou a mobilizar embaixadores estrangeiros às vésperas da votação de 2022 para disseminar essa farsa golpista. Flávio homenageia o pai ao incitar os americanos a pressionar as instituições brasileiras caso ele perca a eleição.

Nesse sentido, também fiel ao manual bolsonarista, Flávio deu ares de verdade à fábula segundo a qual o governo americano, então presidido pelo democrata Joe Biden, financiou, por intermédio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de 2022 contra Bolsonaro. “As mesmas pessoas que prenderam meu pai tiraram esse homem – o ex-presidente socialista Lula da Silva, condenado múltiplas vezes por corrupção – da prisão e o colocaram de volta na Presidência. Tudo isso sob uma enxurrada de dinheiro da USAID e com massiva interferência da administração Biden”. Como de hábito, nenhuma prova disso foi apresentada – mas, afinal, um bolsonarista de verdade não precisa de provas para acreditar em teorias da conspiração como essa.

De todo modo, só engoliu a moderação de Flávio Bolsonaro quem quis. No ano passado, em reveladora entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o senador traçou o perfil adequado do candidato a presidente que quisesse representar bem o bolsonarismo: segundo Flávio, teria de ser alguém que articulasse a anistia ao pai no Congresso Nacional e que tivesse “disposição” de impedir que o Supremo Tribunal Federal interferisse nessa decisão, isto é, “fazer com que o Supremo Tribunal Federal respeite os demais Poderes”. E acrescentou, sem circunlóquios: “É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força”.

Está aí, com todas as letras, o discurso politicamente liberticida do bolsonarismo. É digna de nota a facilidade com que o senador Flávio Bolsonaro usou a expressão “uso da força”, com a clara intenção de intimidar os adversários do pai e as instituições democráticas que lidaram com o seu golpismo. E agora, não menos indecorosa, é a tentativa de mobilizar o governo dos Estados Unidos e de outros países governados pela direita simpatizante do presidente americano, Donald Trump, para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro e, por fim, não reconhecer uma eventual derrota do bolsonarismo na eleição presidencial.

Na tal convenção de extremistas de direita nos Estados Unidos, Flávio disse que a eleição brasileira deve respeitar “os valores de origem americana”. A esta altura, não se sabe bem o que isso significa. Não faz muito tempo, esses “valores de origem americana” incluíam respeitar o resultado das urnas. Considerando que Donald Trump – ídolo de Flávio Bolsonaro e do pai dele – jamais aceitou sua derrota para Joe Biden em 2020 nem provavelmente aceitará qualquer outro revés eleitoral, atribuindo-o sempre a fraudes inexistentes, os “valores de origem americana” aos quais o senador se refere certamente não são os mesmos que o mundo livre aprendeu a admirar.

Bookmark and Share

GOLPISMO DA DIREITA PERMANECE NO CENTRO DA DISPUTA ELEITORAL

Míriam Leitão, O Globo

Flávio Bolsonaro deu novas demonstrações de fazer o mesmo caminho do pai. Caiado promete anistia a Bolsonaro e o defendeu em palanque

O golpismo da direita continua sendo o problema da eleição. Da mesma forma que foi nas duas disputas presidenciais anteriores. O senador Flávio Bolsonaro, como seu pai, não tem credencial democrática, e já demonstrou desrespeito institucional. Infelizmente, outras forças da direita não quiseram condenar o golpismo. O PSD, de Gilberto Kassab, teve uma chance com o governador Eduardo Leite, que demonstrou ter entendido o ponto central. Neste fim de semana, Flávio Bolsonaro repetiu o pai e pôs em dúvida, diante de uma plateia estrangeira, a lisura do processo eleitoral brasileiro. Hoje, 62 anos depois do golpe militar, estamos de volta à quadra um.

Dia 31 de março precisa ser tempo de reflexão no Brasil. O país viveu uma dor política que atravessou 21 anos. Dos escombros, os constituintes escreveram um novo pacto democrático baseado no repúdio à ditadura. Na economia, o autoritarismo deixou hiperinflação e superendividamento externo. Este novo pacto deveria ter sido para sempre, mas Jair Bolsonaro chegou ao poder desprezando a democracia e, no governo, bombardeou as instituições. Uma das armas usadas foi dizer que a eleição pelo voto eletrônico era fraudada.

Para surpresa de ninguém, Flávio Bolsonaro começa a mesma ladainha. No Texas, na Conferência de Ação Política Conservadora, o senador pediu “pressão diplomática para que nossas instituições funcionem corretamente”. Quer acompanhamento externo para as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral sempre convidou observadores. Mas não é disso que ele está falando. Afirmou que é para “assegurar que a vontade do povo será preservada”. E concluiu: “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”. Na versão que ele apresentou no encontro da ultradireita internacional, seu pai está preso “por defender nossos valores conservadores” e não por ter sido condenado por uma tentativa de golpe de Estado.

O pré-candidato do PL já exibiu várias vezes os mesmos maus propósitos institucionais do pai. Em junho do ano passado defendeu à Folha de S. Paulo, a eleição de alguém que enquadre o Supremo Tribunal Federal. E foi explícito: “a gente está falando da possibilidade do uso da força”.

No 8 de janeiro e no julgamento dos golpistas ficaram explícitas as provas da conspiração contra a democracia por parte de Bolsonaro e seus asseclas militares e civis. Diante disso, o natural seria as forças políticas, de direita, de centro-direita, demarcarem o terreno que as separa da extrema-direita bolsonarista. Não foi o que aconteceu. A ambiguidade, o apoio disfarçado ou explícito continuou imperando.

O governador Ronaldo Caiado teve pelo menos duas chances de se diferenciar. Durante a pandemia, quando por ser médico defendeu a vacina, e na eleição municipal em que enfrentou o candidato do ex-presidente e venceu. Apesar disso, esteve em palanques bolsonaristas, e nunca condenou o golpismo.

O governador Eduardo Leite foi direto e contundente ao se apresentar. No programa de Júlia Duailibi, da GloboNews, na semana passada, Leite disse que o que está faltando nesta eleição é o centro. “Com todo o respeito ao governador Caiado, o que ele busca representar já tem representante.” Criticou o governo Lula, mas acrescentou: “presidente da República que articula movimento golpista, que busca uma ruptura institucional como o presidente Bolsonaro, na investigação ficou demonstrado que fez, tem que ser julgado e preso”.

Caiado repetiu ontem que “o meu primeiro ato será a anistia ampla, geral e irrestrita”. Em discurso este ano, ele elogiou Bolsonaro. “Esse homem que conseguiu levantar o Brasil e dizer em alto e bom som: vamos caminhar pela liberdade e democracia plena”. Em entrevista ao Roda Viva no ano passado, questionado se houve ditadura, respondeu que houve um “tempo de restrição por atos institucionais” mas relativizou: “os dois lados cometerem excessos”. Ontem, ele disse que “democracia no Brasil é uma falácia”. Falava do necessário combate ao crime organizado, mas não valoriza o que o país construiu.

Dois dos três pré-candidatos da eleição de 2026 não mostram apreço pela democracia. Flávio Bolsonaro é de uma família que sempre defendeu a ditadura, e quer sua repetição. Caiado nunca condenou a de 1964, nem o último golpe. Por isso, a questão democrática permanece no centro da política brasileira.

Bookmark and Share

KASSAB RIFA EDUARDO LEITE

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Kassab rifa Eduardo Leite e indica Caiado candidato do PSD à Presidência

Ao escolher Caiado, Kassab também abandona o projeto de um centro autônomo e aposta em uma candidatura mais palatável aos eleitores do governador de São Paulo

A decisão do PSD de lançar Ronaldo Caiado à Presidência, rifando Eduardo Leite, é a afirmação de uma candidatura de centro-direita, com ambição de unir liberais e conservadores, em reconhecimento pragmático dos limites que as pesquisas vêm impondo ao centro político brasileiro. Embora Gilberto Kassab tenha procurado vender a escolha como um “privilégio” diante de três nomes competitivos, a verdade é que os levantamentos recentes — especialmente Genial/Quaest, Datafolha e Atlas — indicam um cenário de crescente cristalização da disputa entre Lula e o campo bolsonarista, hoje representado por Flávio Bolsonaro. Nesse contexto, a margem para uma candidatura alternativa não apenas é estreita; na sua avaliação, exige um perfil com maior capacidade de polarização, ainda que sob o discurso de superá-la.

Eduardo Leite, nesse tabuleiro, encarnava a tentativa de construção de um centro liberal moderado e moderno, com discurso de gestão, responsabilidade fiscal e distanciamento dos extremos. Sua migração para o PSD, em 2025, foi um movimento calculado para viabilizar essa alternativa fora do esvaziado PSDB. No entanto, os dados das pesquisas não acompanharam essa estratégia. Leite permaneceu com baixa densidade eleitoral nacional, sem conseguir romper a barreira de um dígito nas simulações de primeiro turno. Resta-lhe, ainda, até o dia 4, a possibilidade de uma meia-volta, volver, para vir a ser candidato pela federação PSDB-Cidadania. Caso permaneça no PSD, porém, deve disputar uma vaga ao Senado.

Lula mantém um piso robusto próximo de 30% e o bolsonarismo demonstra capacidade de transferência de votos suficientes para colocar Flávio na casa dos 40% no segundo turno. Diante disso, a escolha por Caiado revela uma inflexão do PSD, sob forte influência de veteranos caciques do antigo PFL, como Jorge Bornhausen e Heráclito Fortes, maior do que aquela representada pela ala oriunda do PSDB, como Paulo Hartung e Márcio Fortes, que articulavam a candidatura de Leite. Em vez de apostar em um nome capaz de “despolarizar”, dialoga diretamente com o eleitorado conservador e com a agenda da direita. Sua defesa de anistia ampla, geral e irrestrita – que beneficiaria Jair Bolsonaro e os envolvidos nos atos de 8 de janeiro – é emblemática. Trata-se de uma bandeira com forte apelo nesse campo político, mas que o afasta do centro moderado e o aproxima do núcleo duro da oposição ao governo Lula.

As pesquisas ajudam a explicar esse movimento. Elas mostram que o eleitorado está menos disposto a experimentar alternativas e mais inclinado a escolher entre pólos já conhecidos. A tentativa de construir uma candidatura “pura” de centro esbarrou na percepção da irrelevância eleitoral, que Kassab já havia internalizado ao concluir, anteriormente, que “quem tem três candidatos não tem nenhum”. Ao unificar o partido em torno de Caiado, o PSD busca evitar a dispersão interna e ganhar densidade eleitoral a partir de um nome que já demonstrou capacidade de mobilização em seu estado e que tem discurso mais duro e propositivo, além de uma relação mais orgânica com a direita tradicional. Caiado se coloca como mais experiente, competente e confiável do que Flávio Bolsonaro.

Direita, volver

Caiado aposta que pode ocupar um espaço intermediário entre Lula e o bolsonarismo, capturando parte do eleitorado conservador sem carregar integralmente o desgaste do ex-presidente. Ao propor anistia e enfatizar segurança pública, livre mercado e combate ao crime organizado, se posiciona como uma alternativa “mais palatável” para setores conservadores que rejeitam o PT, mas têm dúvidas quanto à viabilidade eleitoral de uma candidatura diretamente ligada à família Bolsonaro. É uma aposta arriscada, porque depende da fragmentação do campo da direita.

A reação de Eduardo Leite, ao afirmar estar “desencantado” e criticar a manutenção da lógica polarizada, reforça essa leitura. Sua frustração não é apenas pessoal, mas política: o projeto de reconstrução de um centro democrático competitivo esbarra, mais uma vez, na dinâmica de um sistema político que recompensa discursos mais contundentes e identidades mais agressivas e nítidas.

Sem confrontar abertamente a decisão do partido, Leite preserva capital político, mas também sinaliza que sua estratégia dependerá de novos arranjos – possivelmente fora do PSD ou em uma composição futura. As propostas de Caiado buscam mais densidade para sua candidatura não ficar apenas no discurso: exploração de terras raras com agregação de valor, integração das forças de segurança, revisão do marco regulatório da inteligência artificial e foco em “emancipação” social (ou seja, desidratar o bolsa-família).

No entanto, a deriva aos eleitores de direita com a promessa de pacificação via anistia e o enfrentamento direto ao PT, reforça a percepção de que sua candidatura está mais inserida na lógica da polarização do que voltada para superá-la. Ao escolher Caiado, Kassab também abandona o projeto de um centro autônomo e aposta em uma candidatura mais palatável aos eleitores do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), que disputa a reeleição.

Bookmark and Share

STF PREPARA ELEIÇÃO-TAMPÃO DIRETA NO RIO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

 Convocado a decidir politicamente, STF prepara eleição-tampão direta no Rio

Corte vai usar legislação xandônica que terá como grande beneficiado Eduardo Paes, após abondono a Cláudio Castro

Largaram a mão do “Cláudio” – o patrocinador, para quem entregavam cabeças. Descobriram de repente o assalto milionário à fundação Ceperj, por meio do qual – com abuso de poderes político e econômico – Castro e seus bacellares desequilibraram a disputa eleitoral de 2022; e em função do qual foram correta e tardiamente condenados pela Justiça Eleitoral.

O ex-governador – que sempre foi o que é, e sobre cuja administração escrevi, neste jornal, em 25 de outubro de 2024, o artigo O governo de Cláudio Castro acabou sem ter começado – já era. Rei morto (“Cláudio” tem todo o direito de se sentir traído), rei posto. Ou rei projetado: Eduardo Paes, aquele a ser beneficiado pela eleição direta a governadortampão. Governador-tampão em junho – a se reeleger em outubro. Essa é a conta de chegada. Porque será direta a eleição-tampão – comunica a blitz editorial combinada à legislação de Alexandre de Moraes. Para limpar o Rio do comando criminoso. Uma chance única – é desse modo explícito que se convoca o STF a decidir politicamente. (Uma chance única – não que seja mentira.)

A isso – a oportunismos, a soluções jurídicas para fins partidários – ficou reduzido o debate sobre como deverá ser a votação para o mandato suplementar. Seria indireta, conforme encaminhava o Supremo, a Alerj – infiltrada pelo CV – por colégio eleitoral, a Alerj que reelegera Rodrigo Bacellar por unanimidade, donde favorito qualquer que fosse o candidato da direita bolsonarista “tipo Cláudio”. O candidato: Douglas Ruas, ex-secretário de Castro.

Todo mundo quer governar o Rio até outubro, sentado na cadeira e operando a máquina – para que sobretudo o outro não a opere. Cada lado trabalhando pela modalidade que o faria favorito. O STF instado a nos salvar. Diante dessa oportunidade, provocado a agir – a criar a forma da intervenção regeneradora – para nos livrar daqueles que pilharam longamente (e, vê-se, despercebidamente) o Estado.

Esta é a equação redentora – e eleitora de Paes: porque Castro renunciou para fugir à cassação, o que seria golpe, convoca-se o Supremo a justiçar o golpista e formalizá-lo cassado; o que não fez o TSE. Está decidido, dependendo de legalização, que Ruas – o candidato da direita bolsonarista “tipo Cláudio” – não se sentará na cadeira até outubro; nem até a eleição suplementar, caso eleito presidente da Alerj, o que o poria na linha sucessória. Essa é a meta a que se ajusta o Direito. Haverá briga. A Corte constitucional implorada a formular para que um grupo não permaneça no poder.

Será direta a eleição – ou ao menos dessa maneira decidirá o Supremo. Porque então estaremos diante da talvez impossibilidade logística e econômica de organizar um pleito direto, excepcional, sem que se embolasse com aquele regular, de outubro. Xandão já deu a senha também para o apaziguamento desse impasse – e saberá inventar o fundamento jurídico para o puxadinho. Não descarte esta hipótese: o presidente do Tribunal de Justiça, governador em exercício, ficando na cadeira até 1.º de janeiro. Não lhe seria sacrifício. •

Bookmark and Share

CAIADO APROFUNDA DIVISÃO

César Felício, Valor Econômico

Terceira via de governador goiano aprofunda divisão

Caiado se apresenta como mais eficaz que Flávio para derrotar Lula

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, agora pré-candidato exclusivo do PSD à Presidência, definiu na segunda-feira (30) no evento do partido em São Paulo qual a linha divisória que pretende traçar na campanha para se diferenciar do senador Flavio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL: a experiência. Todo o discurso de Caiado centrou-se neste raciocínio: é ele, com seus 77 anos a serem completados em setembro, seus cinco mandatos de deputado federal, oito anos como senador e oito anos com governador, que dará ao Brasil governabilidade pela direita.

Caiado começou sua exposição contando um diálogo que teria tido com o pai, Edenval Caiado, em 1989, quando decidiu concorrer à Presidência na primeira eleição direta no Brasil depois da redemocratização. O governador disse que ouviu um apelo para desistir da aventura. O pai teria frisado que o filho, se eleito, não poderia aprender administração no cargo mais alto da República. Precisaria subir a escada degrau por degrau. Caiado não deu ouvidos ao pai, concorreu e ficou em décimo lugar. O vencedor, Fernando Collor, tinha a mesma idade que ele e fez um mal governo. “Deu no que deu”, comentou Caiado, dando razão retrospectiva ao pai. Flávio Bolsonaro tem 44 anos e só administrou uma franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro, suspeita de lavagem de dinheiro, acusação que o senador nega.

 

Prosseguindo no raciocínio, Caiado disse ainda que ganhar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva “é fácil”, em uma eleição de dois turnos. Difícil é construir governabilidade sem experiência administrativa, de forma a que Lula “nunca mais volte”. Sobre o fato de existirem no momento dez eleitores de Flávio para cada eleitor de Caiado, segundo as pesquisas, o governador goiano comentou que “bolhas existem para serem furadas”.

Caiado ao longo de sua trajetória política é uma linha reta: é um direitista sem nuances, sem concessões ao centro, um conservador na acepção do termo. Foi assim quando fundou a União Democrática Ruralista (UDR) para frear a reforma agrária no governo de José Sarney, quando ficou ao lado de Collor até o instante final no processo de impeachment em 1992, quando trabalhou pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e quando apoiou Jair Bolsonaro em 2018. O governador goiano não tem como se deslocar para o centro, sem trair a própria história: resta a ele tentar construir a terceira via como uma alternativa dentro da direita.

Caiado se apresenta como mais eficaz que Flávio para derrotar Lula

O governador goiano, neste primeiro momento, fala aos bolsonaristas, e só a eles. Garante que apoiará a anistia aos golpistas de 8 de janeiro e diz que ele milita no mesmo campo com a experiência política e administrativa que Flávio não tem. Ele e o filho de Bolsonaro são remédios para a mesma doença. Caiado diz que a sua dose é mais segura e eficaz. Não representa mais moderação, tenta representar mais eficiência. A terceira via que Caiado quer construir não rompe a polarização. Ao contrário, a reforça.

Quanto ao PSD, o cálculo da opção por Caiado não parece propriamente eleitoral, mas sim político. A sigla é uma das quatro forças que disputarão o controle da Câmara dos Deputados no próximo ano. Duas dessas forças, o PT e o PL, são mais frágeis, porque jamais poderão combinar entre si. As outras duas - Federação União Progressista e PSD - concorrem em posição de vantagem porque podem fazer todas as combinações possíveis. Tanto com os partidos da polarização nacional quanto entre si, ou com legendas menores.

Situações regionais afastam o PSD e o PL. Em todo Brasil, apenas em São Paulo deve ocorrer uma convergência de interesses entre as duas siglas, em torno da reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A candidatura de Caiado, por ser de direita, abre uma porta para uma aproximação entre o PSD e o PL, caso Flávio Bolsonaro confirme o favoritismo que se desenha nas pesquisas e vença o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em outubro. Essa aproximação com certeza aconteceria no segundo turno, mas pode se dar ainda no primeiro turno, desde que seja nos próximos três meses. A história brasileira tem muitos precedentes de candidaturas retiradas durante o processo eleitoral. Uma vez passado o prazo das convenções nacionais, não há registro de recuos.

 

Bookmark and Share

PIB, PRODUTIVIDADE E JORNADA DE TRABALHO

João Saboia*, Valor Econômico

Reduções na jornada de trabalho poderiam ser mais facilmente assimiladas se a economia voltasse a crescer a taxas mais elevadas

Discuti em artigos anteriores aqui no Valor Econômico o comportamento da produtividade do trabalho no Brasil nos últimos anos. Os dados são bastante desfavoráveis. Excetuando-se os casos da agropecuária, da indústria extrativa mineral, dos serviços industriais de utilidade pública e da intermediação financeira, a regra geral foi a estagnação ou queda da produtividade nos últimos trinta anos.

O período mais favorável para a evolução da produtividade agregada na economia brasileira ocorreu entre 2003 e 2013. Nesse período, a produtividade por pessoal ocupado cresceu 20,9% e a produtividade por horas trabalhadas aumentou 25,2%. Tal diferença se deve à redução das horas trabalhadas por pessoa ocupada no período.

Analisando-se a evolução da economia como um todo, observa-se que esses anos coincidem com um crescimento excepcional do PIB, totalizando 48,3% na referida década. Em outras palavras, dependendo da medida de produtividade do trabalho utilizada, pode-se afirmar que cerca de metade do crescimento da economia foi transferido para a produtividade.

Tal associação entre crescimento do PIB e da produtividade nos remete à Lei de Kaldor-Verdoorn (LKV). Trata-se de um resultado originalmente formulado por Petrus Verdoorn e desenvolvido por Nicholas Kaldor, onde, no longo prazo, o aumento da produtividade seria induzido pelo crescimento da produção, impulsionado pelos retornos crescentes de escala. Tal resultado destaca o papel central da indústria como setor dinâmico da economia, que ao aumentar a produção geraria ganhos de eficiência. Embora originalmente a LKV tenha sido pensada para a indústria de transformação, vários estudos têm sido desenvolvidos para outros setores da economia com resultados satisfatórios.

O gráfico abaixo mostra a experiência brasileira desde o início dos anos 1980 com os dados de crescimento econômico e evolução da produtividade do trabalho por pessoal ocupado. Ele mostra uma nítida associação positiva entre as duas variáveis. Destacamos alguns anos de alto crescimento econômico (1985, 1986 e 2010). Nos três casos, a produtividade cresceu, especialmente em 2010, quando houve um aumento de 7,5% no PIB e de pouco menos de 6% na produtividade do trabalho. Os destaques negativos em termos de crescimento econômico (1983, 2015, 2016 e 2020) representam anos de queda da produtividade, exceto 2020, por conta da covid, que retirou importante parcela do setor informal da economia, acarretando crescimento de cerca de 5% na produtividade

A discussão da produtividade do trabalho torna-se ainda mais importante nesse período em que estamos discutindo o final da escala 6 x 1 e a redução da jornada de trabalho no país. Em nosso artigo “Produtividade, investimento e escolaridade” publicado no Valor em 30/11/2023, discutimos a importância dos investimentos e da escolaridade dos trabalhadores na evolução do nível de produtividade do trabalho no Brasil. A falta de crescimento econômico, entretanto, dificulta que tais efeitos sejam integralmente repassados à produtividade.

Entre 2003-13, a produtividade por pessoal ocupado cresceu 20,9% e a por horas trabalhadas, 25,2%

A atual proposta de redução da jornada máxima de trabalho e a eliminação da escala 6 x 1, traz ao centro da discussão a questão da estagnação da produtividade do trabalho nos últimos anos. Até que ponto tal proposta seria compatível com o que se passa em termos de produtividade no país?

Há vários argumentos favoráveis à redução da jornada de trabalho no Brasil, que vão da melhoria das condições de trabalho, ao crescimento do tempo dedicado ao lazer e à família, à busca de aproximação ao padrão internacional dos países mais desenvolvidos e aos efeitos indiretos sobre o aumento da produtividade no futuro. As críticas estão mais voltadas para a elevação do custo do trabalho, os reflexos sobre a inflação e o risco de aumento do desemprego.

Como é usual, não há consenso entre os economistas. Em artigo publicado no Valor em 22/02/2026, por exemplo, o economista Naércio Menezes Filho mencionou a experiência da redução de 48 para 44 horas semanais determinada pela Constituição de 1988, mostrando que os custos para as empresas foram relativamente pequenos e não houve aumento do desemprego. Já Fernando de Holanda Barbosa Filho, no Valor em 26/02/2026, chama a atenção para os riscos de substituição de trabalhadores, aumento do desemprego e da informalidade com a aprovação da atual proposta. Argumenta que “devemos buscar ganhos de produtividade para alcançar os reais avanços de bem-estar que a sociedade brasileira tanto almeja e merece”.

Concordamos com os argumentos favoráveis à redução da jornada de trabalho para o máximo de 40 horas semanais, mas simultaneamente é preciso tirar o país do atual atoleiro em que se encontra a produtividade do trabalho. Segundo o IBGE, a jornada média de trabalho no país em 2024 era de 38,4 horas semanais. Portanto, importante parcela dos trabalhadores não seria atingida com a redução para 40 horas. Mas alguns setores com jornadas mais elevadas certamente seriam afetados. Já a redução para 36 horas semanais poderia permanecer como uma ambição para o futuro, quando a produtividade voltar a crescer como em 2003/2013.

Conforme os resultados sugeridos pela LKV e confirmados pela experiência brasileira das últimas décadas, o fim da escala 6 x 1 e a redução da jornada para o máximo de 40 horas semanais poderiam ser absorvidos com mais facilidade se a economia voltasse a crescer a taxas mais elevadas. Tal crescimento, especialmente se associado à recuperação dos investimentos e à melhoria do ensino e da escolaridade dos trabalhadores, deveria contribuir para o aumento da produtividade do trabalho, que teima em permanecer estagnada há vários anos.

*João Saboia é professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ.

Bookmark and Share

O QUE FAZER QUANDO O 'BEM PÚBLICO' DA INFORMAÇÃO SE TORNA NOCIVO

Martin Wolf, Financial Times / Folha de S.Paulo

Criação e disseminação de informação confiável está em desvantagem econômica

Espalhar mentiras e fraudes pode ser um bom negócio, e a IA parece propensa a piorar a situação

A criação, comunicação e exploração do conhecimento são as habilidades que definem os seres humanos como animais sociais. Essas capacidades, mais do que qualquer outra coisa, tornaram os seres humanos senhores do planeta. Isso faz com que nossas ferramentas de comunicação —da linguagem à escrita, impressão, telecomunicações, rádio, televisão e agora a internet— sejam as tecnologias definidoras de suas épocas. Sua invenção e uso moldaram não apenas o que podemos fazer em cada momento, mas quem somos.

Novas tecnologias de comunicação transformam a sociedade. Como argumentou Jürgen Habermas, a democracia liberal, hoje em perigo, foi filha do livro, do panfleto e do jornal. As tecnologias digitais de nosso tempo são igualmente transformadoras. Infelizmente, junto com muitos ganhos, elas trazem enormes danos potenciais que hoje ameaçam a saúde de nossas sociedades. Esses danos não são teóricos; são visíveis demais.

O conhecimento é, na linguagem da economia, um "bem público". Isso significa que, se estiver publicamente disponível, será potencialmente acessível a todos e que todos podem tê-lo sem que ninguém seja privado dele: tecnicamente, é "não excludente" e "não rival". O conhecimento, como às vezes se diz, "quer ser livre". De fato, dada a tecnologia atual, o custo marginal de disseminar informação é essencialmente zero.

No entanto, criar informação verdadeira não é nada gratuito. Isso gera uma enorme falha de mercado: a criação e disseminação de informação confiável está em desvantagem econômica em relação à criação e disseminação de informações falsas. O bem público do conhecimento pode facilmente se transformar no mal público da ignorância confiante ou, pior, do preconceito furioso.

Assim, tal como os rios ou o ar, o conhecimento que a sociedade compartilha e usa pode ficar poluído. Pior ainda, esse processo pode ser um negócio muito lucrativo. Não é difícil pensar em exemplos contemporâneos. Acima de tudo, se há uma falha de mercado, a competição sozinha não a curará. A liberdade de expressão é um atributo importante de uma sociedade livre. Mas, por si só, não garante verdade confiável. Rios de mentiras baratas podem facilmente afogar a verdade custosa.

As tecnologias atuais pioram o problema de maneiras fundamentais. Enquanto a criação de informação confiável permanece cara e bastante difícil de monetizar, o motor dos negócios de redes sociais —os editores dominantes de nossa era— é a atenção que as postagens ganham. Disseminar mentiras e fraudes pode ser um bom negócio. Pior, disseminar postagens que tornam a vida das pessoas insuportável pode ser um bom negócio. Não consigo pensar em nenhuma teoria que considere isso uma atividade de mercado legítima. A IA (inteligência artificial) parece propensa a piorar nossa situação coletiva ao criar fraudes "perfeitas" de todos os tipos.

Então, o que deve ser feito? Há três opções amplas e complementares: subsídio à criação e disseminação de informação confiável; proteção da propriedade intelectual; e mudança de incentivos.

Os governos já subsidiam a pesquisa científica, como deveriam. Outra área é a mídia. No caso do Reino Unido, duas grandes questões foram levantadas recentemente. Uma, como observou o ex-editor do FT Lionel Barber, é o futuro da BBC. Na minha opinião, todas as grandes empresas de mídia deveriam ter obrigações de serviço público, porque isso as forçaria a fornecer o bem público da informação de alta qualidade.

Se isso for impossível, temos que proteger a emissora de serviço público que temos. Ela é imperfeita: todas as organizações são. Mas o papel que desempenha continua vital. Eu acrescentaria que, na área de noticiários de TV, também é vital evitar uma versão britânica da Fox News. Mas isso, como argumenta Alan Rusbridger, é o que a GB News está se tornando: uma propagandista autorizada pelo Estado para o partido Reform.

Sobre a criação de propriedade intelectual, é importante que as fontes da criatividade humana sejam nutridas. Isso significa que os agentes de IA que "raspam" dados devem ser obrigados a compensar os detentores dos direitos autorais do conteúdo que utilizam. Eu iria mais longe. Um imposto sobre grandes empresas de IA deveria ser dedicado a apoiar os bens comuns criativos, criados por humanos, dos quais o setor e as sociedades livres dependem, como as artes, ciências e, sim, até o jornalismo.

Por fim, devemos ficar satisfeitos que um júri na Califórnia concluiu que Meta e Google são culpados de "negligência" e de causar danos aos usuários. Tais empresas são negligentes e têm sido protegidas das consequências dos danos que sua indiferença inflige, especialmente às crianças.

A expressão nunca foi completamente livre: difamação, calúnia e incitação à violência são corretamente ilegais. A expressão precisa de limites. O mesmo deveria valer para empresas que disseminam material prejudicial ou propaganda de Estados hostis. Tentamos conter a inundação de poluentes em nossas águas. Deveríamos tentar conter também as inundações de mentiras nos mares do conhecimento.

*Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics

Bookmark and Share

RODA VIVA

Bookmark and Share

FLÁVIO BOLSONARO ATUOU NA DEFESA DE PM ACUSADO DE MATAR MENINA DE 5 ANOS

Alice Maciel, ICL NOTÍCIAS

Senador também atuou na defesa de policiais militares do RJ acusados de matar quatro pessoas

O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL/RJ), atuou como advogado de defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar Ana Clara Machado, de 5 anos, durante patrulhamento de rotina na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

A menina brincava com o irmão de 2 anos na porta de casa quando foi atingida pelo disparo de fuzil efetuado pelo PM, segundo denúncia do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). O assassinato, ocorrido na manhã de 2 de fevereiro de 2021, teve ampla repercussão nos principais jornais do país à época.

Delaroli, que era cabo no 12º BPM de Niterói, chegou a ser preso preventivamente, mas a medida foi revogada em novembro de 2021, quando a Justiça determinou sua substituição por medidas cautelares.

O senador Flávio Bolsonaro integrou a banca de defesa do militar. O parlamentar assina o recurso apresentado em 2024 ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para  reverter a decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro que submeteu o caso a júri popular. O recurso foi negado pela Corte. O caso não cabe mais recurso e Delaroli aguarda julgamento.

A peça também é assinada por advogados dos escritórios Paulo Klein Advogados e Giusto e Klein Advocacia, entre eles, Paulo Márcio Ennes Klein, que já atuou na defesa de Fabrício Queiroz — ex-assessor de Flávio Bolsonaro investigado no esquema das chamadas “rachadinhas” no período em que trabalhou no gabinete do político na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Procurado, o escritório Paulo Klein Advogados informou que não vai se pronunciar. O escritório Giusto e Klein Advocacia e o senador Flávio Bolsonaro não retornaram aos contatos do ICL Notícias.

O que diz a denúncia contra o PM

De acordo com a denúncia da promotoria, Delaroli atirou em direção à área residencial e de lazer onde Ana Clara brincava, “com vontade livre e consciente, assumindo o risco de matar”.

Ao escutarem os disparos de arma de fogo, pessoas que passavam pelo local gritaram “é morador, é morador”, em tentativa de fazer com que os disparos cessassem. “Mesmo após a advertência, o policial militar seguiu com os disparos, não se importando com o risco assumido de produzir o resultado morte”, ressaltou a acusação.

Ainda de acordo com os autos, após a criança ser baleada, um colega de farda de Delaroli, “muito nervoso” repetia para o cabo: “olha a merda que você fez”. Testemunhas relataram que os policiais demoraram para prestar socorro à Ana Clara, “apenas o fazendo diante da clemência dos moradores e parentes da vítima fatal”.

Em sua defesa, o policial militar afirmou ter reagido a uma suposta agressão de traficantes armados. O MPRJ, no entanto, sustentou que não havia indícios de confronto prévio, com base em depoimentos de testemunhas que negaram a ocorrência de troca de tiros e afirmaram que não havia atividade de tráfico de drogas no local.

A promotoria destacou ainda que a viatura dos policiais não tinha “qualquer sinal de confronto” e que a perícia arrecadou na cena do crime estojos de munição iguais aos usados por Delaroli.

Senador defendeu PMs acusados de emboscada

O senador Flávio Bolsonaro também assinou, ao lado da banca do escritório Paulo Klein Advogados, um recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) em defesa de quatro policiais militares  acusados de matar quatro homens durante uma emboscada no Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio, em 16 de janeiro de 2020.

Nesse caso, a defesa também tentou reverter, no ano passado, a decisão que determinou que os réus fossem julgados pelo tribunal do júri. Os cabos Pedro Jeremias Lemos Pinheiro, Victor Barcelleiro Batista e Rafael Nascimento Rosa e o sargento Ricardo de Moraes Mattos eram lotados à época no Grupamento de Intervenção Tática (GIT) da Coordenadoria de Polícia Pacificadora.

De acordo com o MPRJ, os assassinatos “foram cometidos mediante emboscada, tendo em vista que os denunciados [os PMs] ficaram escondidos no interior de um imóvel posicionando-se em um plano superior ao que se encontravam as vítimas, para subitamente atacá-las, com disparos de cima para baixo”.

A investigação apontou que os policiais teriam invadido uma residência pela manhã e aguardado até a tarde para realizar os disparos, feitos de cima para baixo, surpreendendo as vítimas sem chance de defesa.

Os policiais  alegaram em sua defesa que foram para a comunidade pela manhã, para uma operação de combate ao tráfico. Após a prisão de um traficante e um policial ser baleado, os agentes afirmaram que deixaram o local.

O escritório de Flávio Bolsonaro em Brasília

Flávio Bolsonaro atuou nos dois casos com inscrição suplementar da Ordem dos Advogados do Brasil do Distrito Federal (OAB-DF). Seu registro de origem é no Rio de Janeiro. O senador tirou o registro no DF em abril de 2021, mesmo mês em que abriu um escritório de advocacia na capital federal, com endereço na mansão onde mora no Lago Sul, bairro nobre de Brasília.

Ele não é impedido de trabalhar como advogado por ocupar o cargo de senador. Pelo Estatuto da Advocacia, parlamentares não podem advogar contra ou a favor de órgãos e entidades ligados à administração pública.

Conforme mostrou reportagem da Agência Pública publicada em junho de 2022, Flávio Bolsonaro registrou como administradora do seu escritório de advocacia Letícia Caetano dos Reis. Ela contou em entrevista à Pública ter sido indicada à vaga pelo advogado Willer Tomaz, amigo do senador – que negou conhecê-la. “Eu fui convidada por um conhecido [do Flávio Bolsonaro] que também me conhecia. Eles me ofereceram para entrar em sociedade para administrar a empresa dele e aí eu aceitei para fazer essa administração”, contou Letícia Reis.

Mais recentemente, investigação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS revelou que Letícia Reis é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o lobista conhecido como Careca do INSS.

Relatório alternativo da CPMI apresentado na última sexta-feira por parlamentares governistas pede o indiciamento de Flávio Bolsonaro pela ligação com Reis.

Flávio Bolsonaro e a milícia

A relação de Flávio Bolsonaro com policiais militares associados ao crime no Rio de Janeiro é antiga. Quando era deputado estadual, o político empregou em seu gabinete na Alerj a mãe e a mulher do miliciano Adriano da Nóbrega. Morto em 2020, Adriano foi acusado pelo MPRJ de liderar o grupo de matadores de aluguel conhecido como Escritório do Crime.

O podcast do Uol Investiga, “Polícia Bandida e o clã Bolsonaro”, sobre a relação da família Bolsonaro com agentes de segurança, mostrou que Flávio Bolsonaro e seu irmão, o vereador Carlos Bolsonaro, condecoraram pelo menos 16 PMs denunciados em organizações criminosas.

Bookmark and Share

CUBA É O PRÓXIMO ALVO DE TRUMP

Artigo de Fernando Gabeira

Se você acorda com a sensação de que este mundo é maluco, tem razão. Uma das causas: o homem mais poderoso é um estúpido. Trump declarou guerra ao Irã usando o falso pretexto de que havia ameaça à segurança americana. A capacidade nuclear dos iranianos já tinha retrocedido décadas com os bombardeios de junho.

Trump achou que o bombardeio levaria multidões às ruas para derrubar a ditadura sangrenta dos aiatolás. Tremendo erro de avaliação. Ninguém sairia às ruas para ser morto pela Guarda Revolucionária, quase ninguém se sentiria à vontade para lutar ao lado dos Estados Unidos e de Israel, horrorizados com a destruição de uma escola em que morreram mais de 150 crianças.

Trump diz que a guerra acabará logo porque devastou o Irã. Os iranianos fecham o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial. Isso significa inflação e queda no crescimento em quase todo o planeta.

Trump passa parte do tempo ora anunciando acordo, ora proclamando vitória, numa tentativa de deter o aumento do barril de petróleo. O pior é que já anunciou seu próximo objetivo: Cuba. Sua nova aventura será na América Latina. Ele considerou um sucesso a incursão na Venezuela. Sucesso pelo petróleo, fracasso pela democracia. Ficou evidente que, para ele, não importam princípios. Qualquer ditadura favorável é melhor que uma democracia independente.

Trump diz que, desde menino, se interessou por Cuba. Agora quer conquistá-la e entregá-la para Marco Rubio. Filho de imigrantes cubanos, Rubio fala fluentemente espanhol. Mas isso não o torna cubano.

A ilha não é um lugar qualquer. Apesar de haver uma ditadura que oprime os dissidentes impiedosamente, tem experiência militar, um exército aguerrido e uma grande parte da população ao lado do governo. Uma bomba numa escola cubana terá uma repercussão sem precedentes.

Quando Trump se move na América Latina, o Brasil precisa se posicionar. É difícil aceitar o bloqueio que impede a chegada de petróleo à ilha. Os apagões atingem o povo cubano, e não seus dirigentes. No mês passado, uma caravana de apoiadores internacionais de esquerda estava num hotel de luxo iluminado enquanto os cubanos amargavam mais um apagão.

Artigo publicado no jornal O Globo em 31 / 03 / 2026

Bookmark and Share

DIRETAS JÁ NO RIO VIRA LABORATÓRIO DA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Pleito popular por mandato-tampão repete disputa entre lulistas e bolsonaristas

Vácuo no poder está ligado à infiltração de organizações criminosas

Eduardo Paes pegou o túnel do tempo, deu um rolé (carioca não dá rolê) em 1984 e voltou sonhando com multidões. Postou nas redes fotos da campanha das Diretas Já, um dos maiores movimentos políticos da história brasileira, que acabou frustrado no Congresso, mas enfraqueceu a ditadura militar. Com o voto popular, o ex-prefeito e candidato a governador do Rio de Janeiro espera conter a infiltração de organizações criminosas nas instituições, sobretudo na Assembleia Legislativa.

Respondendo a um pedido do PSD, partido de Paes, o ministro Cristiano Zanin, do STF, suspendeu a realização de eleições indiretas para escolha do substituto do ex-governador Cláudio Castro, que renunciou para evitar sua cassação. Zanin manteve no exercício do cargo o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto de Castro. Este teria a responsabilidade de organizar, em maio, junto com o TRE, o pleito para eleger o nome de quem concluirá o mandato até dezembro de 2026. O entendimento tem o respaldo de Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino.

A situação de inconsistência jurídica ficou escancarada depois da eleição-relâmpago, com características de golpe parlamentar, que levou o deputado Douglas Ruas –candidato do PL ao governo do estado– a presidir a Alerj por poucas horas. A desembargadora Suely Lopes Magalhães, presidente em exercício do TJ, anulou a votação, classificando-a como "manobra", "desvio de finalidade" e "interferência" nos ritos previstos em lei.

Nunca um mandato-tampão teve tanta relevância. Se ocorrer, o comparecimento às urnas do terceiro maior colégio eleitoral do país será um termômetro da campanha presidencial. De um lado, o experiente Eduardo Paes, com apoio de Lula; do outro, o novato Douglas Ruas, ex-policial que representa o bolsonarismo.

Nos últimos 30 anos, o Palácio Guanabara foi ocupado por nulidades envolvidas em escândalos de corrupção, prisões e impeachment. Com as diretas, a população, mais uma vez, poderá avaliar o custo de escolhas descuidadas.

Bookmark and Share

MISÉRIA ELEITORAL

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Real empenho do PSD na candidatura de Caiado será medido pelas verbas que irão para a campanha

Critérios do financiamento público fazem com que partidos se concentrem em eleger deputados federais

As bases do PSD, isto é, Gilberto Kassab, decidiram que o candidato presidencial do partido será mesmo Ronaldo Caiado. Mas, a menos que Caiado consiga o milagre de subir rapidamente nas pesquisas, eu me pergunto se as bases do PSD estarão dispostas a financiar muito seriamente sua candidatura. Se há algo que mudou na política nos últimos anos, é a estrutura de incentivos à participação em pleitos presidenciais.

Em 1989, a primeira eleição da redemocratização, 22 candidatos concorreram. Não eram obviamente todos competitivos, mas quatro deles saíram do primeiro turno com mais de 10% dos votos válidos e oito marcaram mais de 1%. No pleito de 2022, o total de participantes caiu para 11, dos quais dois ultrapassaram os 10% e só quatro superaram o 1%. Está deixando de ser interessante para partidos políticos lançar candidatos a presidente se não tiverem chance clara de vitória.

A razão principal para isso é o financiamento público de campanha. Depois que o STF proibiu doações empresariais em 2015, os legisladores criaram o generoso Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). Para as eleições deste ano, serão destinados R$ 4,9 bilhões, que são divididos entre os partidos levando em conta principalmente o seu desempenho na eleição para a Câmara dos Deputados. Definida a verba, cada legenda a distribui mais ou menos livremente entre os cargos que disputará.

É um sistema bem concentrador. Quanto mais deputados federais a sigla faz, mais rica ela fica. E, se ela "economizar" nas disputas para presidente, governadores e deputados estaduais, terá mais recursos para eleger mais deputados federais e ficar mais rica. Cadeiras no Senado também contam na definição do FEFC, mas pouco (15% contra 83%). A obsessão de partidos pela Câmara tem bases racionais.

Neste ano, a ideia de promover o impeachment de ministros do STF acalentada pelo bolsonarismo faz aumentar o interesse das legendas pelo Senado, mas os outros cargos deverão continuar a amargar uma espécie de miséria eleitoral.

Bookmark and Share

segunda-feira, 30 de março de 2026

POLÍTICOS PRECISAM ENTENDER O BRASIL EMERGENTE

Preto Zezé, O Globo

Polarização, embora ainda faça barulho, já não explica tudo. Um grupo crescente de brasileiros começa a escapar dessa lógica

O Brasil chega a 2026 com uma sensação estranha. Os indicadores mostram alguma melhora: desemprego mais baixo e certa estabilidade. Mas a vida cotidiana conta outra história. Nas ruas, o que aparece é desânimo, insegurança e medo. Há descolamento entre os números e o sentimento das pessoas.

Li as últimas pesquisas e as levei para o cotidiano. Cruzei a mais recente do Data Favela, sobre os sonhos das favelas, com outros levantamentos que ajudam a entender o humor do país. Mais que isso, escutei. Conversei com trabalhadores de aplicativos, quem está na ponta da precarização, donos de plataformas e também com gestores públicos. É do encontro de dados e experiência que nasce a leitura desse novo ator social e político.

Essa contradição ajuda a entender por que a polarização, embora ainda faça barulho, já não explica tudo. Um grupo crescente de brasileiros começa a escapar dessa lógica. São os independentes: gente que não se vê representada por nenhum dos polos e está menos interessada em narrativas e mais preocupada com resultado concreto.

É nesse terreno que a eleição de 2026 será decidida. Não por identidade ideológica rígida, mas por uma pergunta simples: quem faz a vida funcionar melhor? Esse eleitor não quer guerra permanente. Quer renda, segurança e alguma previsibilidade.

No centro da mudança está uma transformação silenciosa: o avanço do trabalho via plataformas digitais. Hoje, 1,7 milhão de brasileiros vivem dessa lógica. É uma força que sustenta o dia a dia das cidades, mas que opera sem proteção e com renda instável.

A promessa inicial era de autonomia. Ser dono do próprio tempo. Mas o que se consolidou foi um modelo de dependência, com jornadas longas e todos os riscos nas costas do trabalhador. A liberdade vendida virou, muitas vezes, obrigação. Ao mesmo tempo, esse universo é atravessado por outra disputa: a das narrativas. Influenciadores ocupam espaço oferecendo saídas individuais, baseadas na ideia de que esforço e mentalidade bastam. É um discurso sedutor, mas que ignora as condições reais. O resultado é uma combinação perigosa: precarização e promessa constante de ascensão. Quando a conta não fecha, abre-se espaço para frustração e descrença.

O Brasil de hoje já não cabe nas categorias tradicionais. Existe um país novo em formação, movido por trabalhadores informais, empreendedores de sobrevivência e uma juventude que oscila entre o sonho digital e a dureza do cotidiano. São mais de 32 milhões de brasileiros nessa condição. Invisíveis para muitas políticas públicas e mal compreendidos pelo debate político. Ignorar esse grupo é não entender o país real. E mais: se a democracia não contemplar esse contingente, perde utilidade na prática.

O desafio não é escolher entre mais Estado ou mais mercado. É construir uma síntese. Um pacto que reconheça a autonomia sem abrir mão da proteção. Que garanta renda mínima, regras claras nas plataformas e acesso à seguridade. Também é preciso ressignificar o empreendedorismo. Empreender não pode ser apenas sobreviver sozinho. Precisa de crédito, formação e rede. Caso contrário, vira só um nome melhor para a precariedade.

A eleição não será decidida por quem grita mais alto. Vencerá quem entender melhor o Brasil emergente. Um país que rejeita respostas fáceis e exige, antes de tudo, ser levado a sério. Antes de disputar o futuro, é preciso encarar o espelho.

Bookmark and Share

O DILEMA DO PSD

Carlos Pereira, O Estado de S. Paulo

O partido precisa decidir se deve focar no eleitor anti-Lula ou ir além da polarização

A eleição presidencial de 2026 tende a ocorrer em um ambiente marcado por escândalos, investigação e desgaste institucional – um típico “clima de devassa”. Em contextos assim, a indignação se generaliza, a política passa a ser percebida como estruturalmente corrompida e a competição eleitoral se organiza menos em torno de propostas e mais em torno de rejeições.

De um lado, o incumbente paga o custo da crise. De outro, adversários exploram a narrativa de ruptura. Ainda assim, há um elemento novo: a fadiga crescente com os dois polos. A elevada rejeição tanto de Lula quanto do “Bolsonaro da hora” abre espaço para uma candidatura alternativa – desejada por um contingente expressivo do eleitorado, mas ainda sem uma conexão e narrativa clara.

É nesse ponto que emerge o dilema do PSD. O partido precisa decidir entre duas estratégias difíceis de conciliar. A primeira é ser competitivo agora, entrando no jogo polarizado e disputando votos sobretudo no campo da direita. A segunda é mais ambiciosa: construir uma alternativa real, capaz de atrair eleitores cansados da polarização, e interessada em reconstruir um eixo de moderação.

As possíveis candidaturas do partido ilustram essa tensão. Ronaldo Caiado representa uma direita democrática, com trajetória institucional e sem envolvimento em escândalos. Ainda assim, sua identidade política o aproxima mais do campo conservador. Em um ambiente polarizado, seu espaço de crescimento tende a estar entre eleitores que rejeitam Lula e, em menor medida, entre aqueles da direita que hoje orbitam o bolsonarismo sem aderir plenamente a ele. Sua dificuldade está em avançar sobre eleitores de centro-esquerda, o que limita seu potencial de expansão.

Eduardo Leite, por sua vez, apresenta um perfil mais claramente equidistante aos polos. Sua principal vantagem é justamente poder dialogar com segmentos que rejeitam simultaneamente Lula e Bolsonaro — mas também com eleitores que hoje se alinham a um dos polos mais por rejeição ao outro do que por convicção. Isso amplia seu potencial de crescimento.

A escolha entre esses caminhos não é apenas eleitoral, mas estratégica. Um desempenho competitivo de curto prazo pode não se traduzir em construção de futuro. Por outro lado, uma candidatura que consolide uma posição alternativa pode reposicionar o partido para os ciclos seguintes.

No fundo, o desafio do PSD é maior do que escolher um nome. É decidir se quer disputar a próxima eleição ou redefinir seu papel no sistema político. Em um ambiente dominado pela indignação, essa pode ser a escolha mais difícil — e decisiva.

Bookmark and Share

domingo, 29 de março de 2026

A BARATA AMERICANA

José Eduardo Agualusa, O Globo

O atual presidente americano pode ser um inimigo temível, sim, não por causa da sua intuição, mas por sua estupidez. A estupidez é imprevisível

Donald Trump anuncia o completo esmagamento do Irã. Logo a seguir surpreende-se com a resistência. Admite ter proposto um cessar-fogo. Diz que foram os iranianos a iniciar as conversações. Reivindica a vitória total. Na frase seguinte proclama, com a ingenuidade de um anjo recém-saído das mãos de Deus, que ninguém poderia prever o encerramento do Estreito de Ormuz. Escreve que o Irã tem 48 horas para reabrir a passagem, caso contrário, aniquilará várias usinas de energia. Anuncia que suspende por cinco dias os ataques às infraestruturas energéticas. Diz-se disposto a abandonar o cenário de guerra. Os europeus que resolvam o problema. Irrita-se com o alheamento dos europeus. Implora ajuda aos europeus. Grita que não precisa dos europeus. Confessa que os israelenses o forçaram a iniciar o conflito. Volta, ainda na mesma frase, a proclamar vitória. Diz que não se importa que os aiatolás se mantenham no poder desde que lhe entreguem o petróleo. Noticia o levantamento do embargo petrolífero ao inimigo mortal. Acrescenta que nunca os americanos foram tão vitoriosos. É uma vitória a seguir à outra. Tantas vitórias já cansam.

Analistas conservadores se esforçam por dar um véu de coerência aos desencontrados discursos do presidente norte-americano. Suam. Balbuciam. É um esforço formidável, inglório, como tentar dar consistência a uma efêmera nuvem num esplendoroso céu de verão.

“O problema é que Trump partiu para a guerra sem um Plano B”, reconhece um deles.

“Talvez não tivesse nem sequer um Plano A”, arrisca outro, num fio de voz.

Um terceiro elogia a intuição de Donald Trump. O presidente americano, segundo este especialista, e outros da mesma escola, seria uma espécie de poeta da estratégia política e militar. Eu diria mais — um profeta! O próprio Donald confessou ter tomado a decisão de atacar o Irã após escutar os seus ossos. Não disse quais. Podemos imaginá-lo a dialogar, por exemplo, com a tíbia direita. É mais fácil imaginá-lo debruçado sobre a tíbia do que a falar com o estribo, desde logo porque Trump nem deve conhecer a palavra, quanto mais o osso.

Acredito na intuição. Tenho para mim que a intuição é uma manifestação sutil de inteligência. O pensamento se organizando, num súbito clarão, antes da linguagem. Qualquer pedra tem mais intuição do que Donald Trump.

O atual presidente americano pode ser um inimigo temível, sim, não por causa da sua intuição, mas por causa da sua estupidez. A estupidez é imprevisível.

Canalhas, tiranos, pessoas perversas, todos eles traçam estratégias. Obedecem a estratégias. Podemos combatê-los. É muito mais difícil enfrentar um homem tolo, sobretudo um homem tolo com grande poder, porque, como acontece com as baratas americanas, nunca sabemos que rumo irá tomar.

Donald Trump é uma barata americana com uma bomba nuclear atada às costas. Uma barata americana esvoaçando, a toda velocidade, numa sala fechada.

Eu estou encolhido, imóvel, num canto da sala.

Medo. Muito medo.

Bookmark and Share

FLÁVIO BOLSONARO PEDE AJUDA A TRUMP PARA SE ELEGER PRESIDENTE

Do Blog do Noblat, Metrópoles

Um exemplo notável de subserviência

Incitar é um verbo transitivo que significa estimular, instigar, provocar ou encorajar alguém a realizar uma ação. Foi o que fez o senador Flávio Bolsonaro, em sua versão dita moderada, em palestra para o fino da direita americana em Dallas, no Texas.

Diante de milhares de pessoas, ele comparou a trajetória do seu pai com a de Donald Trump, e acusou Lula de fazer lobby em favor de facções criminosas brasileiras e de privilegiar interesses chineses, cubanos e iranianos sobre os dos americanos.

“Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna sua política para a região impossível”, disse Flávio em inglês, lendo um texto.

Empolgado, disse que “o Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.

Segundo Mariana Sanchez, colunista do UOL em Washington, coube a Eduardo Bolsonaro chamar ao palco o irmão, não sem antes mostrar à audiência que estava registrando o evento em um vídeo de celular “para mostrar ao meu pai”.

Flávio disse sobre o pai: “Tentaram assassiná-lo, assim como tentaram fazer com Trump. Não conseguiram. E agora ele está na prisão, assim como Trump estaria se vocês não tivessem lutado com sucesso para salvá-lo. Nós brasileiros ainda lutamos”.

Em seguida, qualificou Lula de “socialista condenado por corrupção” e mostrou uma foto dele abraçado ao líder venezuelano Nicolás Maduro, atualmente preso em Nova York, depois de ter sido removido de Caracas por forças militares americanas.

“Talvez vocês pensem: ‘Por que deveríamos nos importar? Este é um problema do Brasil’. Deixem-me explicar exatamente por que isso importa para a América e para o mundo“, disse Flávio. E citou os minerais críticos e o combate ao narcotráfico.

Foi a deixa para dizer: “Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna sua política para a região simplesmente impossível”.

Adiante: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Ontem, por sinal, Trump a elogiou ao reconhecer a eficiência de seu modelo econômico. Nem Jair Bolsonaro ousou criticar a China à época do seu governo desastroso. Mas Flávio, cópia encardida do pai…

“O presidente do meu país faz lobby nos EUA para proteger organizações terroristas que oprimem meu povo e exportam armas, lavam dinheiro e exportam drogas para os Estados Unidos e o mundo“, disse Flávio, mudando de assunto.

E defendeu que os Estados Unidos classifiquem o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. Terrorista é a organização que atua para derrubar regimes. O crime organizado visa ganhar dinheiro.

“Estas organizações criminosas não têm qualquer viés ideológico, nem viés político, não querem mudar o sistema. Elas praticam infrações penais, lavagem de dinheiro”, afirma Mario Sabburro, ex-secretário nacional de Segurança Pública.

No limite, a classificação delas como organizações terroristas permitiria aos Estados Unidos combatê-las em solo brasileiro via operações militares ou policiais, e a bloquear contas de empresas que se relacionem com elas. A soberania do país iria para o lixo.

Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo não se importam com isso. Flávio com a palavra:

“Eu entendo que o presidente Trump está incrivelmente ocupado ‘Fazendo a América Grande Novamente’ e deve manter relações institucionais com líderes de todos os países (…). Mas estou confiante de que o maior negociador da história pode facilmente ver quem são seus verdadeiros aliados do Brasil”.

Flávio encerrou sua fala dizendo: “Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor, graças à experiência adquirida durante a presidência do meu pai. E os EUA também terão seu aliado de volta”.

Poderia haver exemplo mais notável de subserviência e de pedido de ajuda para se eleger presidente em outubro próximo?

Bookmark and Share

O POWERPOINT CERTO DO BANCO MASTER

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Gráfico precisa mostrar quem é suspeito de roubar com o Master, quem tentou salvar o Master e quem ganhou dinheiro

Powerpoint terá que ser atualizado com o conteúdo dos celulares de Vorcaro

Um programa da GloboNews mostrou um gráfico que colocava Lula e a esquerda no centro do escândalo do Master. Estava errado. A emissora pediu desculpas. Mas como seria o Powerpoint certo?

No centro, coloque Daniel Vorcaro como símbolo do ecossistema Master (que tem também Fictor, Will Bank, Reag, etc.).

Em volta, desenhe um primeiro círculo com o título "suspeitos de roubar com o Master". São os três governadores (todos de direita) e 15 prefeitos (14 de direita) que investiram dinheiro de aposentados no banco. A administração do PT da Bahia é suspeita de coisa diferente, mas pode ser colocada aqui –como um dos 19 casos. Se algum caso merece destaque é Cláudio Castro, do PL, que queimou R$ 1 bilhão dos aposentados do Rio no Master.

Desenhe um segundo círculo com o título "suspeitos de tentar salvar o Master com mutreta". Aqui entram: os partidos PL, PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSB, que assinaram urgência para projeto que lhes permitiria afastar a diretoria do Banco Central que investigava o Master (Req. 3651/2025); Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR), que tentaram mudar a lei para aumentar a cobertura do FGC, dando sobrevida ao esquema (Emenda 11 à PEC 65/2023 e PL 4395/2024); Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, ministro do TCU e ex-deputado do Republicanos, que tentaram melar o trabalho do BC.

Guido Mantega, que atuou como lobista para Vorcaro e conseguiu uma reunião dele com Lula e Galípolo; os dois diretores do Banco Central subornados por Vorcaro; e, com absoluto destaque, Ibaneis Rocha (MDB-DF), que deu um rombo de R$ 15 bi a R$ 20 bilhões no BRB tentando salvar o Master.

Nesse segundo círculo também devem entrar Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques. Não sabemos, ainda, se fizeram ou prometeram fazer algo para salvar o Master. Porém, seus familiares (esposa de Moraes, filho de Nunes Marques) têm contratos de advocacia com o ecossistema Master com valores suspeitos. Eu não incluiria Ricardo Lewandowski no mesmo círculo, porque a Polícia Federal, sob sua responsabilidade, prendeu o ecossistema inteiro; e porque os honorários que o Master lhe pagava eram muito mais compatíveis com os valores de mercado. Mas o leitor pode colocá-lo aqui, se achar melhor.

Desenhe um terceiro círculo com o título "recebeu dinheiro do Master para fazer campanha eleitoral". Aqui estão Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) e, sobretudo, Jair Bolsonaro. Além dos R$ 3 milhões recebidos de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, os passeios de jatinho de Nikolas Ferreira eram para fazer campanha para Jair.

Lula não está no Powerpoint. Até agora, não há sinal de que tenha roubado com o Master, tentado salvá-lo ou recebido dinheiro de seus sócios. Se algo aparecer, colocamos Lula.

Haddad é, pelo que se sabe, o único político que se negou a encontrar Vorcaro. Galípolo liquidou o Master.

Esse tipo de gráfico tem seus defeitos: há gente que fez coisas de gravidade diferente no mesmo círculo. Mais importante: o gráfico precisa ser atualizado com o conteúdo dos celulares de Vorcaro (mais importante que as delações).

Há outros envolvidos, mas todo o núcleo político do caso Master está aí. Agora pinte os envolvidos de direita de azul, os de esquerda de vermelho, os juízes de preto, e observe o padrão.

Bookmark and Share

PRÓXIMOS PASSOS DO CASO MASTER

Míriam Leitão, O Globo

PF e MPF juntos vão impedir delação seletiva. BRB pode ter redução do rombo, mas vive dias decisivos. Caso Master entra em nova fase

Há duas dúvidas cruciais neste momento sobre o caso Master. Na política, a pergunta é se a delação de Daniel Vorcaro será enviesada e seletiva. Na economia, é o que vai acontecer com o BRB. Quem acompanha a investigação acha que existem seguros contra o risco de uma delação parcial. Um deles é o fato de a Polícia Federal e o Ministério Público atuarem em conjunto, outro é a abundância de fatos já revelados. Sobre o BRB, momentos decisivos acontecerão nos próximos dias. O governador Ibaneis Rocha tem atrapalhado a busca de soluções. O prazo para a divulgação do balanço se esgota depois de amanhã.

Ontem completou um ano que o BRB anunciou que iria comprar o Master, hoje ele luta pela vida. A história mostrou, neste um ano, que se a operação tivesse sido permitida pelo Banco Central seria a consumação do crime perfeito de Vorcaro. Ele encobriria seus roubos e levaria todas as fraudes para dentro de um banco público.

O Banco de Brasília continua exposto a riscos, por ter feito negócios com um fraudador. O governador Ibaneis Rocha tem ouvido mais seus advogados do que os gestores que tentam manter o banco vivo. Uma das saídas, se sabe, é um empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos. Mas, para isso, o acionista controlador, no caso o governo do Distrito Federal, teria que escrever uma carta admitindo que a instituição está numa situação patrimonial grave e precisa de socorro. Orientado por seus advogados, Ibaneis reluta em colocar isso no papel. Enviou ao FGC apenas um “aviso de pedido”, um pontapé. Isso é pouco e tarde.

Para o país, o maior risco seria ter uma delação seletiva que mire uns alvos e poupe outros por razões políticas. O fato de haver muita gente na sala reduz esse risco, avaliam pessoas envolvidas nas apurações. Os criminosos estarão sendo ouvidos por integrantes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. “Se um lado tentar manipular, o outro levantará da mesa e o país saberá que algo estranho acontece”, diz uma das fontes que eu ouvi. Ademais, muito já foi divulgado nesta investigação que está bem avançada, o que tira margem de manobra dos delatores, caso queiram fazer escolha seletiva de alvos.

Até agora, o Banco Central fez um trabalho autônomo e sem pirotecnia. Resistiu aos ataques e olhou também para os seus próprios erros. Foi o BC que evitou o desastre da compra do Master pelo BRB, identificou indícios de crime e os denunciou ao Ministério Público. A Polícia Federal tem avançado na investigação e resistiu quando houve tentativa de interferência de ministro do STF. A imprensa trouxe para a luz do sol informações preciosas.

A ideia de que Brasília inteira pode ser atingida pelas revelações é enganosa. Há quem tenha recebido Vorcaro, conversado com ele, sem favorecê-lo em coisa alguma. Há os que tiveram vantagem direta e há os que, tendo recebido vantagens, fizeram favores ilícitos a Vorcaro. E aí é que está o crime. Joio e trigo terão que ser separados.

O problema mais agudo e imediato é o destino do BRB. Se ele não divulgar o balanço no dia 31 de março receberá uma multa do Banco Central, mas é pequena. Há punições na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas o mais preocupante é o que pensará o cliente a respeito de uma instituição que está há nove meses sem publicar balanço e sobre o qual se estima um rombo de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões. Existem os depositantes privados, mas existem também os clientes institucionais, os tribunais de Justiça, os fundos de pensão. O BRB tem muito depósito judicial, além da folha salarial da região administrativa com maior renda per capita. Se houver uma crise de confiança que leve a uma corrida, será fatal para o banco.

O pior cenário pode ser evitado. Primeiro, um detalhe contábil: quando um banco tem prejuízo, 40% do negativo viram crédito fiscal que vai para o ativo. Portanto, o rombo diminui. Segundo, quando há credores com “dívida subordinada”, a regra estabelece que se o banco ficar com patrimônio negativo, essa dívida é convertida em capital. Ou seja, o credor vira sócio. E, de novo, o rombo diminui. Dependendo do volume de dívida subordinada que haja no balanço, 70% do total do rombo não precisarão ser capitalizados em dinheiro.

O BRB tem R$ 67 bilhões em ativos e passivos. Não provoca uma crise sistêmica mas, se quebrar, atingirá fortemente o setor público.

Bookmark and Share

A GUERRA SEM RETÓRICA PARA DISFARÇAR O HORROR

Dorrit Harazim, O Globo

É digno de nota o sucesso do governo de Benjamin Netanyahu em sumir do noticiário

Algumas mentes privilegiadas conseguem produzir ensaios imperecíveis sobre o viver humano. George Orwell foi uma delas. Costumeiramente celebrado pela distopia visionária de “1984”, publicada em 1949, é na coletânea de ensaios e correspondência escritos durante e após a Segunda Guerra Mundial que Orwell brilha pela clareza. O quarto volume dessa coletânea (em parte publicada no Brasil pela Pé da Letra e Edições 70) leva o título “In front of your nose: 1946-1950”. São textos críticos de invejável honestidade intelectual e amplo espectro temático. Como denominador comum, a defesa da verdade contra o totalitarismo. Tome-se um trecho do ensaio “Diante do seu nariz”, em que discute a capacidade humana de se iludir:

— Todos nós somos capazes de crer em coisas que sabemos ser falsas e, então, quando enfim comprovadas erradas, torcer despudoradamente os fatos para demonstrar que tínhamos razão. Intelectualmente, é possível prosseguir nesse processo por tempo indefinido. O único freio é que, mais cedo ou mais tarde, uma crença falsa choca-se contra uma realidade sólida, geralmente num campo de batalha.

Ou seja, na guerra. Orwell prossegue:

— Ao contemplar a esquizofrenia onipresente nas sociedades democráticas (as mentiras que precisam ser contadas para fisgar votos, o silêncio sobre questões maiores, as distorções da imprensa), torna-se tentador crer que, nos países totalitários, há menos impostura, mais confronto com os fatos. Lá, ao menos, os grupos no poder não dependem do favor popular e podem proclamar a verdade de modo cru e brutal. Göring podia dizer “Fuzis antes de manteiga”, enquanto seus pares democráticos precisavam embrulhar o mesmo sentimento em centenas de palavras hipócritas.

Tome-se a atual guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, que há semanas parece querer se sustentar em duas vertentes ao mesmo tempo. Uma, a mais visível, feita de mísseis e drones, bombardeios ferozes, navios detonados, lençóis de petróleo em chamas, perigo, mortes em expansão. A outra, escondida atrás da retórica e musculatura maximalista dos combatentes, a malquerença de arcar com as consequências dos respectivos atos.

O regime de Teerã sob comando oficial do novo líder Supremo, Mojtaba Khamenei, que permanece invisível e cuja autoridade ninguém garante estar consolidada, mantém o poder de aterrorizar por meio de ameaças.

— De agora em diante — avisou o general iraniano Abolfazl Shekarchi, dirigindo-se às hordas de viajantes americanos às vésperas da pausa escolar de primavera que se inicia nesta semana — , vocês não estarão seguros em nenhum parque, local de recreação ou destino turístico do mundo.

Só não informou que locais específicos foram efetiva e exaustivamente mapeados.

Mas é em seu escurinho que toda guerra proporciona oportunidades paralelas de brutalidade. O regime dos aiatolás — dado como claudicante após sua liderança ter sido dizimada no primeiríssimo dia da operação Fúria Épica — encontrou tempo, fôlego e poder para executar na forca três jovens manifestantes de oposição. Um deles, o atleta Saleh Mohammadi, de 19 anos, era a estrela ascendente do país em mundiais de luta livre. Fora preso durante os sangrentos protestos de janeiro último, que fizeram mais de 7 mil mortos abatidos a frio pelas forças de segurança.

Como o enforcamento ocorreu na prisão de Qom, e não em praça pública, foi pouco noticiado. Não rendeu a espetaculosa imagem que lhe garantiria destaque. Segundo a Anistia Internacional, os três jovens foram julgados a portas fechadas, sem garantias legais, e suas confissões foram obtidas sob tortura.

Do lado israelense, a brutalidade paralela à guerra principal tem escala de apagamento cultural, limpeza étnica, anexação territorial. Seja em Gaza, Jerusalém Oriental, na Cisjordânia ocupada ou no Líbano, o apagamento da vida palestina tem sido sem freios, como que aproveitando o caos generalizado na região. É digno de nota o sucesso do governo de Benjamin Netanyahu em sumir do noticiário — a ponto de parecer que apenas os Estados Unidos estão envolvidos no ataque ao Irã.

Em relação ao Líbano, começa a tomar corpo o movimento Desperte, ó Norte, liderado pelo professor Hagai Ben-Artzi, cunhado de Netanyahu, a favor da ocupação definitiva da faixa de 30 quilômetros que vai do Rio Litani até a fronteira sul com Israel. A logomarca do movimento consiste de um cedro, árvore símbolo do Líbano, com uma Estrela de Davi acoplada.

Está tudo diante do nosso nariz.

Bookmark and Share