Em conferência da extrema direita nos EUA, Flávio
Bolsonaro sugere que eleição presidencial só será ‘livre e justa’ se ele
vencer, mostrando que é um orgulhoso herdeiro do golpismo do pai
A natureza é algo implacável. O senador Flávio Bolsonaro,
candidato à Presidência da República, vem tentando se apresentar como uma
versão “moderada” do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não tem jeito: o
golpismo bolsonarista parece ser mesmo genético.
Ao discursar na Conferência de Ação Política Conservadora
(CPAC, na sigla em inglês), convescote de extremistas de direita realizado nos
Estados Unidos, Flávio defendeu o “monitoramento” das eleições brasileiras e
sugeriu “pressão diplomática” externa para garantir um pleito “livre e justo”.
Arrematou dizendo que, “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes
sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”, numa
sugestão nada sutil de que ele só não será eleito se houver fraude ou
manipulação.
É isto o que Jair Bolsonaro passou anos fazendo e que foi um
dos motivos de sua condenação por tentativa de golpe de Estado: colocou
sistematicamente em dúvida a lisura das eleições brasileiras e chegou a
mobilizar embaixadores estrangeiros às vésperas da votação de 2022 para
disseminar essa farsa golpista. Flávio homenageia o pai ao incitar os
americanos a pressionar as instituições brasileiras caso ele perca a eleição.
Nesse sentido, também fiel ao manual bolsonarista, Flávio
deu ares de verdade à fábula segundo a qual o governo americano, então
presidido pelo democrata Joe Biden, financiou, por intermédio da Agência dos
Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a vitória de Luiz
Inácio Lula da Silva na eleição de 2022 contra Bolsonaro. “As mesmas pessoas
que prenderam meu pai tiraram esse homem – o ex-presidente socialista Lula da
Silva, condenado múltiplas vezes por corrupção – da prisão e o colocaram de
volta na Presidência. Tudo isso sob uma enxurrada de dinheiro da USAID e com
massiva interferência da administração Biden”. Como de hábito, nenhuma prova
disso foi apresentada – mas, afinal, um bolsonarista de verdade não precisa de
provas para acreditar em teorias da conspiração como essa.
De todo modo, só engoliu a moderação de Flávio Bolsonaro
quem quis. No ano passado, em reveladora entrevista ao jornal Folha de
S.Paulo, o senador traçou o perfil adequado do candidato a presidente que
quisesse representar bem o bolsonarismo: segundo Flávio, teria de ser alguém
que articulasse a anistia ao pai no Congresso Nacional e que tivesse
“disposição” de impedir que o Supremo Tribunal Federal interferisse nessa
decisão, isto é, “fazer com que o Supremo Tribunal Federal respeite os demais
Poderes”. E acrescentou, sem circunlóquios: “É uma hipótese muito ruim, porque
a gente está falando de possibilidade e de uso da força”.
Está aí, com todas as letras, o discurso politicamente
liberticida do bolsonarismo. É digna de nota a facilidade com que o senador
Flávio Bolsonaro usou a expressão “uso da força”, com a clara intenção de
intimidar os adversários do pai e as instituições democráticas que lidaram com
o seu golpismo. E agora, não menos indecorosa, é a tentativa de mobilizar o
governo dos Estados Unidos e de outros países governados pela direita
simpatizante do presidente americano, Donald Trump, para lançar dúvidas sobre o
processo eleitoral brasileiro e, por fim, não reconhecer uma eventual derrota
do bolsonarismo na eleição presidencial.
Na tal convenção de extremistas de direita nos Estados
Unidos, Flávio disse que a eleição brasileira deve respeitar “os valores de
origem americana”. A esta altura, não se sabe bem o que isso significa. Não faz
muito tempo, esses “valores de origem americana” incluíam respeitar o resultado
das urnas. Considerando que Donald Trump – ídolo de Flávio Bolsonaro e do pai
dele – jamais aceitou sua derrota para Joe Biden em 2020 nem provavelmente
aceitará qualquer outro revés eleitoral, atribuindo-o sempre a fraudes
inexistentes, os “valores de origem americana” aos quais o senador se refere
certamente não são os mesmos que o mundo livre aprendeu a admirar.

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