E a mais nova patriotada do empresário e apresentador Silvio
Santos ganha manchetes, rodas de conversa, posts, tuítes, mensagens e opiniões
das mais desbaratadas nos grupos do whatsapp.
O mais famoso, longevo e bem sucedido camelô eletrônico de
que se tem notícia no mundo, predecessor mítico dos atuais influenciadores
digitais, desenterrou o “ame-o ou deixe-o” da ditadura para enaltecer o Brasil
de Bolsonaro.
As peças institucionais produzidas e exibidas pelo SBT
exaltam o ufanismo mais primitivo e nostálgico ao ressuscitar o “Eu te amo meu
Brasil” com slogans dos anos 70 e a própria canção-título que enaltece que o
coração do brasileiro é “verde, amarelo, branco, azul anil”. Não poderia
existir nada mais demodê (como este próprio termo), com tanto cheiro de mofo e
naftalina.
Mas… espera lá! Silvio Santos pode ter mil defeitos, mas
burro ele não é! Quem mais que o “patrão”, às vésperas de seus bem vividos 88
anos, para compreender o que agrada a claque popular? O marketing nacionalista
de Silvio Santos não ressurge à toa. Fora de moda e de sintonia estamos nós,
órfãos da esquerda que foi sequestrada, chacinada e enxovalhada pelo PT. Mais
perdidos que cachorro que caiu do caminhão da mudança (pior até que na época da
queda do muro).
Porque o Brasil de verdade “endireitou” a olhos vistos, no
sentido mais ignóbil que poderia ocorrer: pelo fracasso da geração que
vociferou contra os 21 anos de domínio militar e viu tudo se perder diante da
esbórnia petista. Bateu um vento daqueles que fazem a gente perder a página que
estava lendo no livro (outro velho hábito que parece ter perecido com os
avanços tecnológicos) e recuamos na história aos primórdios das lutas
democráticas no Brasil.
Vamos ter que nos reorganizar e reconstruir todo um campo no
espectro político mais progressista e social-democrata, porque hoje o cenário
está denominado pelo conservadorismo (no comportamento e na retórica) e pelo
liberalismo econômico que tem aversão ao Estado de bem-estar social. O
anti-esquerdismo atinge um patamar inimaginável para quem achava que a direita
mais rude e xucra tinha sido extinta na época das Diretas Já.
Sobem no conceito da maioria dos brasileiros os políticos
que valorizam o nacionalismo; que flertam com um controle absoluto dos direitos
dos cidadãos, seja no contexto político, cultural ou social; que tem obsessão
com a segurança nacional; que subestimam os direitos humanos; que demonstram
desprezo por intelectuais e artistas; que tentam impor controle e censura sobre
a mídia e a imprensa; que usam a religião como forma de manipulação; e que
legitimam a utilização da força e da violência para atingir seus objetivos.
Não por acaso, todas as características acima descrevem o
ambiente do surgimento do fascismo na Europa do século XX, liderada por
políticos nacionalistas e autoritários, com ideias fortemente contrárias ao
marxismo, o que logo classificou o fascismo como um regime de extrema-direita
marcado por um governo ditatorial e militarizado.
Em tom farsesco, a história se repete. Essa “nova” direita
abrange conservadores de diferentes matizes, democratas-cristãos, capitalistas
liberais, nacionalistas, militaristas, indignados e revoltados em geral com o
atual sistema. Basicamente todos que derrotaram juntos, nestas eleições de
2018, a velha esquerda monopolizada pelo PT e coadjuvada por PSOL, PCdoB,
setores do PDT e do PSB, além de siglas nanicas, movimentos e organizações
sociais cooptadas, sindicatos mafiosos e o corporativismo estatal tradicional.
Alheios a essa guerra odiosa, preconceituosa e intolerante,
espremidos num centro cada vez mais diminuto entre os ruidosos campos da nova
direita (crescente) e da velha esquerda (decadente), quase num gueto
ideológico, seguimos os esquerdistas democráticos, social-democratas,
progressistas, socialistas, sustentabilistas, movimentos cívicos moderados e
hackers da nova política.
Por mais que pareça fora da agenda atual, alguém precisa
manter na pauta política a preocupação permanente com a manutenção das
conquistas da cidadania, com a justiça social, a qualidade de vida e o meio
ambiente, o enfrentamento das desigualdades, o respeito às minorias e a
garantia estrita do estado de direito, dos conceitos democráticos e dos preceitos
republicanos.
Cabe ainda a vigilância diária sobre os atos do(s) novo(s)
governo(s), bem como uma postura crítica perante a reação automática das
oposições, para que possamos nos diferenciar positivamente desses dois blocos,
tanto da base de sustentação fisiológica quanto da oposição sistemática e
impeditiva das reformas que se mostram urgentes e necessárias. Esse é o papel
que nos cabe.
Lembrando sempre que iniciaremos um novo ciclo político em
pleno 2019, bem distante dos idos de 60 ou 70, tão importantes para o
aprendizado democrático, inegavelmente, mas cristalizados no Brasil do passado.
Devemos avançar, bicho. Ser “pra frentex”, manja? O Brasil mudou à beça. Hoje
tem gente pra chuchu querendo construir um país melhor, mais supimpa. Esse
espírito de mudança é o maior barato, mas vai dar um trampo danado. Por isso o
brasileiro fica grilado.
Agora, falando sério. Tão ultrapassado como usar essas
gírias dos anos 70, embolorando o parágrafo acima, ou repetir palavras de ordem
da ditadura (a favor ou contra), é seguir nessa disputa obsoleta e insana entre
direita e esquerda como se estivéssemos congelados no tempo. Vivemos outra
década. Outro século. Outro milênio. Precisamos reconfigurar o sistema.
*Mauricio Huertas, jornalista, é secretário de Comunicação
do PPS/SP, diretor executivo da FAP (Fundação Astrojildo Pereira), líder RAPS
(Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), editor do Blog do PPS e
apresentador do #ProgramaDiferente
Mauricio Rudner Huertas
Jornalista, é secretário de Comunicação do PPS/SP e integrante
da diretoria-executiva da FAP (Fundação Astrojildo Pereira). Dirige a TVFAP.net
e edita o Blog do PPS

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