Seu nome — Jair Messias Bolsonaro — soou quase como uma
premonição. Sua atuação nesse momento conturbado do País o converteu em mito.
Suas promessas e críticas ácidas aos descaminhos na política, economia e
costumes lhe elevaram à condição de salvador da pátria. Não é de hoje, os brasileiros
correm em busca de um mandatário que os conduza ao Olimpo político, econômico e
social. Já nos anos de 1930, Getúlio Vargas revestia-se de “pai dos pobres”.
Nos idos de 1960, Jânio Quadros usaria sua vassoura para “varrer do país a
corrupção”. Na década de 80, o povo declarou-se “fiscal do Sarney” na defesa do
Plano Cruzado. Fernando Collor encarnava o protetor dos “descamisados”, o
“caçador de marajás”. Nos anos 90 e 2000, as urnas consagraram o sociólogo FHC
para “salvar” a economia e o ex-metalúrgico Lula, eleito sob a bandeira de
exterminar a desigualdade social e acabar com o fosso profundo existente entre
ricos e pobres no Brasil. Por fim, o País escolheu como mandatária Dilma
Rousseff, embalada na campanha como a “mãe do PAC”. A história determinou de
forma inexorável o destino trágico da maioria dos salvadores anteriores. Vargas
suicidou-se. Jânio Quadros renunciou. Sarney deixou o governo sob a pecha de
presidente mais impopular do País. Collor e Dilma experimentaram o mesmo
infortúnio, o impeachment, enquanto Lula, “o cara”, foi parar atrás das grades,
condenado por corrupção. Segue-se assim a sina — mais que brasileira,
latino-americana — da busca de um salvador da Pátria para resolver nossos
complexos problemas. Sina que, até agora, só fez gerar grandes expectativas que
se frustraram com o tempo.
Agora, como num filme repetido, o País sai em busca não de
um governante, mas de um Messias. Mais do que eleitores, Bolsonaro atraiu
seguidores que multiplicaram sua exposição pelos recantos do Brasil. Para dar a
exata medida desse crescimento exponencial, o presidente eleito possuía, em
2014, 204 seguidores no Facebook. O número pulou para 8 milhões na campanha e
alcançou inacreditáveis 18 milhões no final do pleito. Para o bem da nação,
espera-se que não se frustrem novamente.
Trabalho pela frente
A gestão paternalista de um mandatário que pode tudo e zela
como um pai caridoso pelos seus, como se nota, mora na essência do
presidencialismo nativo. Nestes primeiros dias depois de sua eleição no domingo
28, Bolsonaro já ensaia novamente personificar esse figurino. Com todos os
riscos inerentes a isso. Por exemplo, na semana seguinte à eleição, o País
assistiu apreensivo cabeças se baterem na busca das soluções mágicas que
poderão ser menos simples do que se imaginava. Num dos caminhos sugeridos,
Bolsonaro quis adiantar a reforma da Previdência. Trata-se de uma agenda
inevitável, sobre a qual o País terá que se debruçar em algum momento.
Bolsonaro imaginou que podia adiantá-la, partindo da proposta original do
governo Michel Temer, com modificações. Assim, pensou em tê-la aprovada ainda
este ano, antes de tomar posse no dia 1º de janeiro, o que já deixaria
pavimentada a estrada que pretende trilhar em seu governo. A ideia foi
esvaziada como um balão furado antes que terminasse a primeira semana após a
eleição. Dentro do governo, consolidou-se a sensação de que todos terão muito
trabalho pela frente. “Será realmente um período de muita labuta. Há um grupo
político sem praticamente qualquer outra experiência administrativa disposto a
resolver tudo a partir do zero. Querendo revolucionar a prática política. É
louvável, mas há um risco grande disso provocar certa paralisia no início e
gerar um processo conturbado”, prevê o professor titular de História do Brasil
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carlos Fico.
No próprio eixo bolsonarista existe o temor de que o próximo
governo não consiga tirar do papel pautas relevantes e que ajudaram a eleger o
capitão reformado, gerando uma reversão de expectativas. Aliados de Bolsonaro
admitiram a ISTOÉ, em caráter reservado, que os primeiros cem dias de governo
serão vitais para encaminhar as propostas mais substanciais do novo governo. Em
relação à Previdência, por exemplo, é consenso itens como a idade mínima de 65
anos, por exemplo. Contudo, integrantes do novo governo já admitem que serão
necessárias alterações também no regime de aposentadoria para os militares,
para que o novo presidente não seja acusado de ser “corporativista” na nova
reforma. “O problema é que o Bolsonaro sempre defendeu os militares. E agora
ele fará o contrário? É uma saia justa”, admitiu, em caráter reservado, um
aliado.
Há ainda uma série de outros desafios pela frente capazes de
gerar apreensão. Alimenta-se uma expectativa de que o presidente eleito empenhe
seu prestígio pessoal e capital político na busca pela pacificação do País. E
ele promete reiteradamente que o fará. Mas serenar o ambiente não será tarefa
trivial. Para distencioná-lo, Bolsonaro precisará controlar seus radicais,
muitos dos quais imbuídos de um espírito revanchista nada apropriado ao
momento. Em paralelo, o presidente eleito precisará saber lidar com os radicais
de uma oposição que promete marcação cerrada. E não necessariamente
republicana. Guilherme Boulos, candidato derrotado do PSOL, articula protestos
para as próximas semanas. A ordem é não deixar o governo respirar. O MST também
planeja invasões. Integrantes do governo entendem que será preciso serenidade,
mas sem perder o pulso firme exigido pelos eleitores sedentos por “ordem”.
Resta saber como o presidente irá equilibrar essa balança.
Princípio da impessoalidade
Pululam também temores de que pendores autoritários, não
raro demonstrados ao longo da trajetória política de Bolsonaro, prevaleçam
durante o exercício da Presidência. São consubstanciados no ataque feito pelo
presidente eleito ao jornal Folha de S.Paulo na entrevista ao Jornal Nacional
da TV Globo na segunda-feira 29. Ao reagir às reportagens do jornal, Bolsonaro
insinuou que poderia retaliar o jornal na distribuição de verbas publicitárias.
Como presidente, Bolsonaro pode até reduzir de forma global os valores de sua
verba de publicidade. Mas, se distribuí-la de forma discricionária, usando-a
como instrumento de pressão sobre quem o critique, estará descumprindo o
princípio da impessoalidade na administração, definido pela Constituição.
“Depois de mais de trinta anos de democracia, as instituições brasileiras estão
fortes. E reagirão caso sejam atacadas”, considera Carlos Fico.
O messianismo político na América Latina nasce da cultura
monárquica oriunda de Portugal e Espanha, países que adotavam como políticas
reais uma “descentralização centralizada”. A medida transformava o rei numa
espécie de “salvador da pátria” para evitar que danos maiores acontecessem. Um
exemplo foi a campanha para que D.Pedro II tivesse a sua maioridade antecipada.
O objetivo era debelar o caos gerado pelo governo regencial de Diogo Feijó,
período marcado por insurreições populares, como a Revolução Farroupilha e a
Sabinada.
Valendo-se dessa cultura, políticos populistas transformaram
o continente americano em um laboratório de políticas de cunho estritamente
eleitoreiro, usando sempre a imagem de salvador da nação. Ocorre que a política
fecunda não é construída pelos messias, pelos heróis ou fanfarrões. Bolsonaro
foi eleito com 57 milhões de votos. Mas a maioria dos brasileiros não elegeu
Bolsonaro. Somados os que votaram em Fernando Haddad, do PT, e os que se
abstiveram de fazer uma escolha no segundo turno, são 87 milhões de brasileiros.
Trata-se de um sinal de alerta importante. Os brasileiros estarão vigilantes.
Espera-se que ele salve a pátria. Mas só conseguirá assim fazer caso entenda
que não pode tudo.

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