De messias a traidor
Era irresistível para um presidente acidental como ele.
Distante nos últimos seis meses da proposta de reforma da Previdência, agora
quando parecia que ela caminhava muito bem, o capitão Jair Bolsonaro resolveu
meter-se onde não era mais chamado. Ao fazê-lo, poderá ter contribuído para que
a reforma fique para ser votada no Congresso só a partir de agosto.
A interferência súbita e, como sempre, atabalhoada, se deu
porque o capitão foi vaiado e acusado de traidor por policiais civis e
militares insatisfeitos com o preço a pagar pela reforma. Eles cobram o
tratamento especial que Bolsonaro lhes prometera antes e depois de eleito. E
Bolsonaro, sem consulta ao ministro Paulo Guedes, seu ex-Posto Ipiranga, decidiu
atendê-los.
“Vou resolver o caso de vocês, viu?” – anunciou Bolsonaro a
um grupo de PMs. Bem que tentou. Disparou ligações para o deputado Samuel
Moreira (PSDB-SP), relator da reforma na Câmara, e para líderes de partidos até
concluir que seu desejo não seria satisfeito. Para variar, colheu mais uma
derrota e deu munição aos interessados em torpedear a aprovação da reforma.
Como uma reforma que acabará com os privilégios, a
acreditar-se nos seus patrocinadores, poderia conviver com mais um privilégio a
ser mantido? Por que só os que vestem ou vestiram fardas merecem ser premiados
na hora em que se exigem sacrifícios de todo mundo? Já não basta a desidratação
da reforma que deixará de fora Estados e Municípios? Corre-se o risco de a
montanha parir mais um rato.
Para Bolsonaro, pouco se lhe dá. Seu negócio é tentar
segurar ao seu lado os que o elegeram, não importa o quanto isso possa custar
ao país. O inferno para ele são os outros, os que lhe negaram o voto. Quando
candidato, disse que apresentaria proposta de emenda à Constituição para acabar
com a reeleição de presidente, governadores e prefeitos. Eleito, lançou-se
candidato à reeleição.
Segue o baile, sob o comando do presidente mais desconexo
que o país já conheceu.
Taokey?
Pense bem
Um juiz não pode atuar em parceria com acusação ou defesa.
Os livros de Direito ensinam que não pode. A Constituição diz que não pode.
Juiz deve ser neutro. É assim nos países democráticos.
Agora, releia as conversas do ex-juiz Sérgio Moro com
procuradores da Lava Jato publicadas pelo site The Intercept. Faça de conta que
ele conversava com os advogados de Lula.
E aí? Sinceramente, estaria tudo bem? Nada a reclamar?
Você viu Juan Guaidó por aí?
E a ditadura de Maduro não caiu de podre
Entre janeiro e abril só deu Juan Guaidó. O autoproclamado
presidente da Venezuela ocupou grande parte do noticiário internacional aqui,
na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa como o homem que seria capaz
de pôr a baixo sem disparar um único tiro a ditadura de Nicolás Maduro, o
infeliz herdeiro do coronel Hugo Chávez.
Se fosse preciso atirar, ele também seria capaz de realizar
tal façanha com o apoio dos governos de Donald Trump e de Jair Messias
Bolsonaro. Era o que se dizia. Foi o que o próprio Guaidó admitiu. Dizia-se
ainda que a ditadura de Maduro tinha seus dias contados porque o Exército
venezuelano acabaria por abandoná-la. Quem vivesse haveria de ver.
O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) chegou a anunciar seu
deslocamento para a fronteira do Brasil com a Venezuela porque desejava
assistir de perto o que estava prestes a acontecer. Nem mesmo a patuscada do
envio frustrado de duas camionetes com alimentos para socorrer venezuelanos
famintos demoveu o Zero Três do seu propósito bélico.
Tudo deu em nada como se vê. Trump, agora, acusa seu
assessor especial John Bolson de tê-lo enganado na condução da crise
venezuelana. Bolson é aquele bigodudo que tomou café da manhã com Bolsonaro no
Rio e que se encantou por ele. O governo brasileiro simplesmente esqueceu o
assunto. E os militares tupiniquins, enfim, suspiraram aliviados.
Reconheça-se: eles jamais acreditaram que só faltasse um
sopro para que Maduro desabasse. E jamais defenderam uma intervenção armada na
Venezuela. Sabiam muito bem que nossas Forças Armadas carecem de poderio
suficiente para arriscar-se numa aventura de tamanho porte. O assunto está
vencido, e vencido permanecerá. Até que… E sabe-se lá até quando…
Talvez até quando Trump concluir que mais uma prensa na
ditadura venezuelana reforçará outra vez suas chances de se reeleger. Então
acionará Bolsonaro que o venera só abaixo de Deus e do Brasil. E tudo
recomeçará. Ontem à noite, na embaixada americana, durante a cerimônia de
celebração da independência dos Estados Unidos, Bolsonaro voltou a falar sobre
a Venezuela:
– Temos um problema aqui ao norte do Brasil e não queremos
que outros países enveredem para esse lado.
Trump e Bolsonaro são políticos que só sobrevivem à custa de
conflitos.

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