Nunca me conformei com as traduções dos títulos de filmes
estrangeiros para o português, sobretudo a dos originais em inglês. Suprema foi
o título que encontraram para On the Basis of Sex, filme que narra a luta de
Ruth Bader Ginsburg para reformar o imenso arcabouço de leis norte-americanas
que discriminavam “em razão do sexo”, ou em razão do gênero. Sim, Ginsburg foi
indicada para a Suprema Corte dos EUA no início dos anos 90, mas o filme não é
sobre isso. É sobre muita coisa, em especial sobre a parceria entre a
protagonista e o marido para que ambos pudessem alcançar o ápice de suas
carreiras em meio às demandas familiares e domésticas. Tudo isso se perde no
título boboca que escolheram para dar ao filme no Brasil.
O tema do filme e da atualidade – as disparidades de gênero
e as imensas dificuldades para combatê-las – encontra enorme resistência no
Brasil. A resistência ficou bem visível na Copa do Mundo feminina e no desabafo
da jogadora Marta após o embate entre Brasil e França. Fica evidente toda vez que
alguém ousa levantar nas redes sociais a hostilidade que existe em relação às
mulheres em diversas profissões. Há mulheres de outras gerações que não
percebem essa hostilidade por terem a ela se acostumado. Há mulheres diversas
que lutam bravamente para que as dificuldades sejam reconhecidas. Há muitos
homens que entendem haver diferenças gritantes no tratamento dispensado a
homens e mulheres em ambientes diversos. Há outros que se valem da misoginia,
cujo espaço aumentou na era das redes sociais.
Tudo isso é desculpa para passar ao largo do que a evidência
empírica crescente revela sobre a desigualdade de gêneros: ela prejudica o
crescimento econômico além de provocar aumento da polarização política. Quem
defende a bandeira da igualdade é frequentemente tratado com desprezo, rotulado
de “feminazi” pela direita medieval – que compreende apenas uma parte da
direita – ou simplesmente ignorado. No entanto, a questão no mundo está
evoluindo com muito mais rapidez do que no Brasil, e o País parece que não irá
perder mais uma oportunidade de continuar andando para trás.
Há estudos acadêmicos mostrando como a redução das
disparidades entre homens e mulheres podem melhorar as perspectivas de
crescimento com justiça social. Façam pesquisa rápida no Google sobre “Women in
Public Policy” apenas para ver quantas universidades de ponta no mundo, hoje,
têm iniciativas para estudar o tema. Busquem artigos no site do Banco Mundial e
surpreendam-se com o grau de discriminação ainda existente no mundo em pleno
Século 21. Diz o Banco Mundial: “normas sociais são fator fundamental para
explicar as privações e restrições que mulheres encontram. Normas afetam o
trabalho da mulher ao ditar como ela deve dispor de seu tempo, desvalorizando
seu potencial.
O trabalho doméstico, a responsabilidade pela criação dos
filhos e pelos cuidados com os idosos ainda são consideradas as principais
funções da mulher. Ao menos a metade das pessoas nos países em desenvolvimento
acredita que quando empregos estão escassos, homens têm mais direito ao trabalho
do que mulheres”. Tudo isso sem falar no viés que impera na contratação e na
avaliação de desempenho, como mostram pesquisas. A discriminação legal – tema
de On the Basis of Sex – ainda é barreira para o trabalho feminino. Ela existe
em 128 países analisados pelo Banco Mundial. Pensem nesse número: 128 países
discriminam abertamente contra as mulheres em suas leis.
Outras áreas de pesquisa mostram as diferenças entre
mulheres e homens nas preferências em relação às políticas públicas. Mulheres
exibem mais preferência por políticas igualitárias e redistributivas do que
homens, que tendem a preferir a eficiência. No espectro político simplista de
hoje, isso faz com que mais mulheres sejam mais frequentemente rotuladas de
“esquerda” do que os homens, o que é uma estupidez. Mulheres exibem menor
aversão ao risco do que homens e alguns estudos mostram que preferem trabalhar
de forma colaborativa do que de forma competitiva. Ou seja, em qualquer
ambiente de trabalho, a maior diversidade de gêneros pode trazer
complementariedades importantes: competitividade na dose certa, aversão ao
risco na dose certa.
Em razão do sexo, ainda existe muita coisa errada, muita
discriminação, e muita gente confortável demais com injustiças que já não
encontram a mesma aceitação no resto do mundo. Não tenho ilusões de que o
Brasil acordará para isso tão cedo. Mas, fica mais um alerta para o retrocesso
iminente.
*Economista, pesquisadora do Peterson Institute for
International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

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