No dia da posse do presidente que faz arminha com a mão, eu
estava no auge da ressaca e no fundo do poço. Um amigo me abraçou e disse:
“Pensa pelo lado bom. Este governo vai render os melhores memes”.
Na hora, é claro que eu não achei graça nenhuma. Hoje em
dia, ainda não acho, mas sou obrigada a concordar com ele.
Quando parece impossível suportar o avanço do retrocesso,
sou salva por uma simples notificação
no celular: fui marcada em um meme. O alívio é imediato. Existe vida
inteligente na Terra. Melhor ainda: existe vida boba na Terra, e isso me ajuda
a continuar.
Se eu compartilhar esse meme, ainda ganho um punhado de
curtidas, meu cérebro libera uma rodada de dopamina e outras pessoas poderão,
assim como eu, recuperar a fé na humanidade. É quase uma corrente do bem —bem
diferente das correntes de WhatsApp nos grupos de família.
Aliás, meus grupos de família também foram pacificados pelos
memes sobre o atual governo. Se antes os assuntos variavam entre problemas de
saúde —pelo visto hipocondria é um lance genético —e discussões políticas, hoje
estamos unidos graças aos benefícios da “memeterapia”. Sou uma prova viva
de que o consumo de memes melhora a comunicação com o próximo, descomplica
desabafos e aplaca tensões.
Pelo visto, não sou a única a buscar a cura através do meme.
Nossos representantes também fazem o mesmo. Especialmente no Twitter, seu
playground favorito, em que pautas urgentes são abordadas como uma rixa entre
alunos da quinta série. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
Nesse ciclo de catástrofes “memetizadas” à exaustão, fica
claro que o meme trata os sintomas, e não as causas.
É uma anestesia para o caos que me cerca, como naquele meme
do cachorro tomando café tranquilamente dentro de uma casa em chamas. Merda.
Estou fazendo de novo.
Esse elixir contra as pressões sociais, políticas e
cotidianas talvez se assemelhe mais ao Rivotril do que à terapia. O ansiolítico
é o segundo remédio mais consumido no Brasil. E a obsessão do brasileiro
com memes é tanta, mas tanta, que temos um meme eleito na Presidência.
Um país que sobrevive à base de memes e clonazepam é um
cenário sinistro, digno da série “Black Mirror”.
Mas minha angústia dura pouco —até me marcarem no próximo
meme.
Manuela Cantuaria
Roteirista e escritora, faz parte da equipe do canal Porta
dos Fundos

Nenhum comentário:
Postar um comentário