A Justiça Federal de São Paulo ratificou nesta sexta-feira,
5 a decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que tornou o
deputado federal Aécio
Neves (PSDB-MG) réu pelos crimes de corrupção passiva e obstrução
à Justiça. Além dele, responderão à ação na primeira instância da Justiça
a irmã do tucano Andrea Neves, o primo dele Frederico Pacheco de Medeiros e
Mendherson de Souza Lima, ex-assessor do ex-senador Zezé Perrella.
Em abril de 2018, o colegiado decidiu por 4 votos a 1 aceitar a denúncia da
Procuradoria-Geral da República (PGR) que acusou Aécio e os outros réus do
recebimento de 2 milhões de reais da JBS em 2017. Ele também foi denunciado por
supostas articulações para “embaraçar” e “constranger” as investigações
Lava Jato, por meio de projetos de anistia ao caixa dois e de abuso de
autoridade no Congresso e do direcionamento de delegados para assumir
inquéritos específicos “com a finalidade de beneficiá-lo”.
A decisão de ratificar o entendimento do STF foi tomada pelo
juiz João Batista Gonçalves, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, especializada
em lavagem de dinheiro e crimes financeiros, depois de o processo ter sido
remetido à primeira instância em função do novo entendimento do STF sobre foro
privilegiado. Como o tucano era senador à época dos fatos denunciados pela PGR,
não há relação com o atual mandato dele de deputado federal. Conforme o
Supremo, só há foro privilegiado em supostos crimes cometidos durante e em
função do atual mandato parlamentar.
Ao analisar a questão, o plenário da Corte também decidiu
que o ganho ou a perda de foro privilegiado não alterará o juiz ou o tribunal
responsável por julgar um processo se a ação tiver concluído a fase de colheita
de provas e instrução processual, na qual são ouvidos testemunhas e réus, e for
aberta às partes a fase de alegações finais — o que não ocorreu na ação penal
contra Aécio Neves.
Gonçalves determinou que os réus sejam intimados a prestar
resposta à acusação.
A reportagem tenta contato com o advogado Alberto Zacharias
Toron, que defende Aécio Neves.
A denúncia contra Aécio
A denúncia contra o deputado Aécio Neves foi formulada pelo
ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot no âmbito das delações
premiadas de executivos do Grupo J&F, que controla a JBS, e
da Operação Patmos, deflagrada em maio de 2017. As evidências mais
robustas de que Aécio Neves teria se corrompido e trabalhado para atrapalhar
investigações, conforme a PGR, foram reunidas pela Polícia Federal em ações
controladas, isto é, monitoradas pela PF. Depois que Janot deixou o cargo, a
nova chefe da Procuradoria, Raquel Dodge, reiterou a acusação.
Em março de 2017, o empresário Joesley Batista, um dos
sócios do J&F, gravou o senador tucano pedindo-lhe 2 milhões de reais, que
supostamente seriam empregados no pagamento de sua defesa em inquéritos da
Operação Lava Jato. O encontro, que ocorreu em um hotel em São Paulo, terminou
com Joesley concordando em pagar o valor.
O montante foi entregue em quatro parcelas de 500.000 reais,
em dinheiro vivo, a Frederico Pacheco de Medeiros nos dias 5, 12, 19 de abril e
3 de maio de 2017. Parte dos valores foi repassada a Mendherson Souza Lima, que
levou o dinheiro a Belo Horizonte.
A Polícia Federal filmou os dois recebendo o dinheiro das
mãos do diretor de Relações Institucionais da JBS e também delator, Ricardo
Saud. Segundo a denúncia, a irmã de Aécio Neves Andrea Neves participou dos
crimes ao procurar Joesley Batista, em fevereiro de 2017, para intermediar o
encontro entre o empresário e o então senador, no qual o acerto da propina foi
feito.
Num dado momento da conversa entre Aécio e Joesley no hotel
em São Paulo, o empresário interpelou o tucano sobre a necessidade de paralisar
as investigações, ao que o tucano respondeu: “Duas coisas: primeiro cortar o
para trás de quem doa e de quem recebeu. Acabar com tudo, com todos esses
crimes de falsidade ideológica. O negócio agora não dá mais para ser na
surdina. Todo mundo assinando. PSDB, PT, PMDB vão assinar. A ideia é votar
dentro do pacote das dez medidas”.

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