Lançado no circuito comercial há três semanas, o
documentário Espero Tua (Re)volta parece tratar de um país
distante em época remota. O que o filme de Eliza Capai registra, porém, são as
manifestações dos estudantes secundaristas de São Paulo, entre 2015 e 2018, e a
brutal repressão da Polícia Militar – eventos relativamente próximos e
recentes. Prova, se ainda fosse preciso, da mudança radical ocorrida a partir
da posse no novo presidente da República e que estamos vivendo um outro tempo –
um tempo sem esperança.
Onde andam hoje e o que estão fazendo Marcela Jesus, Nayara
Souza e Lucas “Koka” Penteado, os três jovens protagonistas e narradores
de Espero Tua (Re)volta? É o que me perguntava, enquanto assistia
ao filme sexta-feira passada, com mais duas pessoas, uma moça e um rapaz, em um
cinema de sessenta lugares.
Uma das palavras de ordem dos secundaristas paulistanos que
ocuparam mais de duzentas escolas públicas, em 2015, e a Assembleia Legislativa
de São Paulo, no ano seguinte, era: “O governo pode esperar tudo de nós, menos
silêncio!” Mas, como costuma acontecer, períodos de mobilização intensa podem
ser seguidos de relativa pasmaceira ou apenas de reações esporádicas, como a
deste ano contra os cortes orçamentários do governo federal na área da
educação.
Outro aspecto que Espero Tua (Re)volta vem
confirmar é a incompatibilidade entre, de um lado, espectadores e circuito
exibidor, voltados ambos para o entretenimento, e, de outro lado, filmes
brasileiros, em especial documentários que, mesmo tendo qualidade reconhecida,
não atraem sequer o que se poderia esperar constituísse seu público cativo.
Dados do censo escolar referentes a 2018 indicam que havia
naquele ano mais de 7,7 milhões de matriculados no Ensino Médio. Onde estão
esses estudantes? O que os impede de assistir a Espero Tua (Re)volta?
A frequência aos cinemas que estão exibindo o filme é eloquente a esse
respeito. Nas duas primeiras semanas, em poucos cinemas, com uma sessão diária,
em geral, no Rio, São Paulo, Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Vitória e Belém,
houve 2 282 espectadores, incluindo a gratuidade para estudantes de escolas
públicas, segundo dados da distribuidora, Taturana mobilização social. O dado
do portal Filme B, de 473 ingressos em três semanas, ao que tudo indica é parcial
e se refere apenas ao Rio e a São Paulo.
No caso de Espero Tua (Re)volta, a barreira que
mantém o público afastado não pode ser atribuída ao próprio documentário.
Trata-se de um filme acessível – descontraído, ágil e alegre –, bem narrado,
valioso como registro histórico e que agrega ao olhar da realizadora gravações
feitas por vários documentaristas independentes. Cabe destacar em especial as
contribuições, entre várias outras, das imagens de Caio Castor, gravadas em
2015 e 2016, de Henrique Cartaxo, da rede alternativa Jornalistas Livres,
de 2015, e as do documentário 20 Centavos, de Tiago Tambelli,
de 2013, conforme consta dos créditos.
Não foi à toa que, depois de participar em mais de dez
festivais, Espero Tua (Re)volta recebeu os prêmios de Melhor
Filme, Montagem e Roteiro, além do prêmio da Associação Brasileira de Críticos
de Cinema – Abraccine, na 23ª edição do Cine-PE – Festival do Audiovisual,
realizado no início de agosto, em Recife. Isso depois de ter participado, em
fevereiro, da Mostra Generation 14plus do Festival de Berlim, onde além do
prêmio Peace Film recebeu o da Anistia Internacional.
Ao justificar o prêmio da Anistia Internacional atribuído
a Espero Tua (Re)volta, o júri deu a entender que o filme retrata
fatos atuais, desconsiderando terem ocorrido entre 2015 e 2018, em contexto
político diverso do existente no momento da premiação. À parte essa imprecisão,
o comentário lido por Feo Aladag, diretora e atriz austríaca integrante do
júri, transcrito a seguir na íntegra, faz justiça ao filme:
“Imagine seus filhos marchando pelas ruas porque o
governo quer fechar suas escolas. Imagine seus filhos sendo atingidos por gás
lacrimogêneo e espancados com cassetetes. Isso faz parte da realidade brutal do
Brasil atualmente. Setenta anos após ser promulgada a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, crianças e jovens no Brasil são privados de seus direitos
humanos à educação de qualidade. Centenas de escolas públicas correm o risco de
ser vítimas de políticas governamentais que negligenciam a necessidade e o
direito à educação de todos, independentemente de seu status social. Famílias
pobres e desfavorecidas são particularmente afetadas. Mas a juventude do Brasil
não aceita isso sem resistência intensa, clara e corajosa.
O vencedor deste ano do Prêmio da Anistia Internacional
rompe as estruturas convencionais usando narrativa documental não linear.
Ilumina os jovens em sua luta pela democracia e pela educação. Também mostra
como esses jovens protagonistas vivem relações pautadas por valores solidários
e democráticos. Eles são assim por obrigação e, ao mesmo tempo, de modo
irresistível, nunca deixando que suas vozes sejam silenciadas por aqueles menos
corajosos e menos comprometidos entre eles. Eles lutam por seus objetivos,
expressam seus sonhos, suas esperanças e seus direitos humanos, e é por isso
que estão sempre um passo à frente de todos ao redor. Este filme extraordinário
nos dá esperança e nos inspira, através de todas as gerações e além de todas as
fronteiras, a elevar nossas próprias vozes e a tomar posição em defesa dos
nossos direitos humanos básicos. E um dos direitos humanos mais básicos que nos
cabe defender, e que devemos defender unidos, é a educação para todos.”
Seria de se esperar que um filme descrito nesses termos
fosse acolhido de forma ampla e interessada nas salas de cinema de seu país de
origem, o que não parece estar ocorrendo. É verdade que Espero Tua
(Re)volta está disponível nas plataformas NOW e Tamanduá, mas não há
dados disponíveis que permitam saber o número de acessos.
Esquecemos, por vezes, que o preço do ingresso é um
obstáculo que pode impedir a maior frequência de estudantes secundaristas aos
cinemas. Ciente desse fato, os responsáveis pelo filme oferecem sessões
gratuitas em escolas, cineclubes, casas etc., bastando para isso acessar e
marcar a exibição. Até o momento, foram realizadas 36 sessões em dezenove
estados, e há outras 65 projeções programadas. Ao todo, 549 espectadores
assistiram ao filme em nove dessas sessões com relatório de impacto, segundo
consta do site da Taturana mobilização social.
O que se pode dizer que falta a Espero Tua (Re)volta,
visto hoje, é alguma reflexão sobre a eficácia das ocupações, em especial da
Assembleia Legislativa, como tática de ação política.
Ao agradecer emocionada o prêmio da Anistia Internacional,
em Berlim, Capai foi ao encontro do sentimento existente entre brasileiros que
não votaram no candidato a presidente eleito em outubro de 2018. Mesmo sem a
endossar por completo, essa declaração vai também transcrita a seguir na íntegra
por situar Espero Tua (Re)volta no atual momento político do
Brasil:
“[…] Mesmo nos meus piores pesadelos, eu nunca poderia
imaginar que este filme estrearia no contexto em que o Brasil está vivendo
agora. O Brasil acabou de eleger o primeiro presidente de extrema direita da
história. Jair Bolsonaro foi eleito prometendo armar os ‘bons cidadãos’ do
Brasil, e o Brasil é um país que sempre foi, e a Anistia Internacional sabe
disso muito bem, sempre esteve no topo da violência no mundo. Estamos sempre no
topo da violência contra negros, contra a comunidade LGBT, contra mulheres. E
Jair Bolsonaro foi eleito prometendo acabar com todo tipo de ‘ativismo’ no
Brasil, prometendo proibir a prisão ou exilar todas as pessoas ‘vermelhas’,
como nós. E mesmo nos meus piores pesadelos, eu nunca imaginaria que nosso
ex-presidente, aquele que liderava todas as pesquisas, em 2018, para ser o novo
presidente do Brasil, que ele não poderia concorrer à eleição, por que Luiz
Inácio Lula da Silva foi preso por um juiz chamado Sergio Moro, e esse mesmo
juiz agora é o novo ministro da Justiça desse novo presidente de extrema
direita. E para mim, a imagem de Lula, como a imagem de Marielle Franco, uma
mulher negra das favelas do Rio que foi baleada quase um ano atrás, são os
rostos da injustiça no Brasil. Eles são os rostos desse novo governo que está
tentando dizer: ‘Vocês, pobres, não merecem ser o presidente do Brasil. Vocês,
mulheres negras, calem a boca. Você, LGBT, volte para o armário. Vocês,
mulheres, voltem para a cozinha. Então, aqui, como diretora de um filme, uma
brasileira, estar aqui significa muitas coisas, não só para mim. E estar aqui
com um filme sobre estudantes no Brasil, estudantes pobres, estudantes negros,
que lutam pelas coisas mais básicas, é uma grande honra. Esse prêmio é para
todos que lutam por um mundo melhor, um mundo com justiça e para cada um dos
estudantes, jovens e idosos com mentalidade jovem, lutando por uma educação
mais crítica em todo o mundo. Muito obrigado.”
Em resposta à pergunta que lhe fiz por e-mail, Capai informa
continuar “em contato com os protagonistas. O Koka, que depois das ocupações
participou de Malhação – série da Rede Globo – atualmente atua
em espetáculos teatrais em São Paulo, onde estava circulando pelos CEUs. A
Marcela também é atriz; ela atua na ColetivA, grupo que surgiu a partir das
ocupações e que tem circulado nos Sesc do Brasil, além de apresentações na
Inglaterra e Portugal com o espetáculo Quando Quebra Queima. Ela
foi comigo à estreia em Berlim, e foi um momento bem especial já que foi a
primeira vez que saiu do Brasil. A Nayara continuou na presidência da União
Estadual dos Estudantes de São Paulo até a posse da nova diretoria ocorrida em
9 de agosto; ela pretende seguir carreira ativista e política.”
Coproduzido pela GloboNews e Globo Filmes, Espero
Tua (Re)volta foi realizado com a parceria do Canal Curta!. Contou com
recursos obtidos através da Lei do Audiovisual e do Fundo Setorial do
Audiovisual, geridos pelo BRDE/Ancine.
Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do
Estado Novo 1937-45

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