Governantes de mentes autoritárias gostam de estimular a
confusão entre governo e pátria, procuram sequestrar os símbolos e as datas
nacionais. Eles tentam transformar críticas feitas à sua administração em
ataques ao país. Era assim na ditadura militar brasileira, principalmente no
período mais violento da repressão aos opositores, o do general Emílio
Garrastazu Médici. O sentimento de amor ao país, as alegrias com as vitórias
até do futebol, os momentos cívicos eram manipulados para serem vistos como apoio
ao governo. Criticar o regime era apresentado como equivalente a trair o país.
Governantes de mentes autoritárias gostam de mentir sobre o
passado, alterar fatos históricos comprovados, apostando que se a mentira for
repetida, se os livros forem refeitos, se houver uma versão oficial todos
passarão a acreditar na narrativa falsa dos eventos. George Orwell tratou disso
como literatura na obra-prima “1984”. O passado insistentemente reescrito, para
apagar fatos e nomes incômodos.
Bolsonaro disse que a ditadura brasileira foi nota 10 na
economia. A verdade: ela deixou o país com uma superinflação crônica e o
mecanismo da correção monetária que levava os preços sempre para cima. Ainda
que os índices mais altos tenham sido atingidos nos primeiros governos civis,
foi a democracia que conseguiu desarmar a bomba inflacionária jogada no colo da
população pela administração econômica do regime militar. Não foi a única bomba
que eles deixaram: os militares endividaram o país junto a 800 bancos, e a
governos estrangeiros, e deram o calote. Essa dívida foi renegociada e paga na
democracia, nos governos Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula da Silva.
Houve também, na gestão de Henrique Meirelles no Banco Central, a acumulação de
reservas cambiais que hoje nos permitem olhar para a Argentina sabendo que a
situação aqui é bem diferente.
O período conhecido como “milagre econômico” foi curto e o
modelo era concentrador de renda. Só para se ter uma ideia do que foi deixado
de lado: ao fim desse forte crescimento do PIB, em 1980, 33% das crianças de 7
a 14 anos estavam for ada escola. A universalização do ensino fundamental foi
obra da democracia.
Em qualquer governo pode haver erros na condução da economia
ou nas decisões sociais e políticas. E presidentes, mesmo democráticos,
costumam reclamar das avaliações negativas. A diferença é que a crítica aos
erros governamentais não é tratada como crime, nem traição à pátria. A ideia de
que só os governistas eram patriotas era mais uma das mentiras da ditadura.
Repetir isso num período democrático é restringir o espaço das ideias, é
manipular símbolos nacionais, é estigmatizar quem não se perfila entre os
admiradores do governante.
O Brasil está em uma administração que foi eleita
democraticamente, mas que tem tentado reduzir o espaço democrático, de livre
circulação das ideias, e quer, especialmente nesta semana, usar o sentimento de
país para tentar alavancar o apoio ao governo. As críticas feitas pela alta
comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, estão respaldadas na
realidade. Qualquer órgão multilateral tem o direito de fazê-las.
O presidente brasileiro reagiu atacando pessoalmente
Michelle Bachelet, querendo atingi-la no drama pessoal que viveu muito jovem ao
perder o pai, um militar, torturado e morto por seus companheiros de armas. Uma
dor que ela conseguiu separar da sua atuação na esfera pública. No período em
que foi ministra da Defesa, e nas duas vezes em que foi presidente, não usou os
poderes que teve para fazer qualquer vingança pessoal. O ataque de Bolsonaro ao
pai de Bachelet foi criticado até pelo presidente do Chile, Sebastian Piñera,
que é de direita.
É patológica a compulsão de Bolsonaro pelas ditaduras e sua
admiração ilimitada pelos regimes tirânicos, como o de Pinochet. É doentio seu
prazer em ferir pessoas atingidas pelos crimes das ditaduras latino-americanas,
como fez com o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. Mentir sobre o passado do
Chile, ou do Brasil, na política ou na economia, não alterará a história real.
Tentar apropriar para uma ideologia de extrema-direita os símbolos nacionais
não dará certo agora, como não deu no passado. Os amigos e auxiliares que
tenham qualquer influência sobre ele deveriam aconselhá-lo. O que ele falou
sobre Michelle Bachelet jamais poderia ter sido dito. É sobretudo desumano.

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