O presidente Jair Bolsonaro encerra seu primeiro ano do
governo pagando décimo-terceiro para os beneficiários do Bolsa Família, um fato
político com dois efeitos significativos. O primeiro é que ele não está
exatamente parado ou indiferente em relação à necessidade de estabelecer
compensações sociais aos efeitos da sua estratégia econômica liberal. O segundo
é que há sinais abundantes de que o governo pretende se aventurar na estrada da
focalização de benefícios.
O número de ganhadores do Bolsa Família não é estático,
flutua de um mês para o outro, com entrada e saída de gente. Da criação da
transferência de renda até o governo Dilma, a trajetória da quantidade de
beneficiários era crescente. Em julho de 2014, chegou a 14,204 milhões de
benefícios pagos. Era a antevéspera da eleição em que a presidente havia
prometido “fazer o diabo” para ganhar, como de fato ganhou.
No governo Temer, houve um pente fino para limpar o cadastro
e o número de beneficiários começou a cair, até bater em 12,7 milhões de
beneficiários em julho de 2017, em pleno ambiente de crise econômica. A partir
daí a trajetória de crescimento foi retomada e Temer encerrou seu governo
pagando a bolsa para 14,1 milhões de famílias, quase o teto de Dilma, em
dezembro de 2018.
No governo Bolsonaro, o número embicou para baixo: já são
sete meses de queda consecutiva no número de beneficiados, hoje em 13,17
milhões. É mais dinheiro para menos gente. Quase 1 milhão a menos.
Está na área social um dos dois únicos ministros do governo
Temer que Bolsonaro decidiu preservar, o emedebista Osmar Terra. Eis uma área
em que o presidente não quis inovar.
O ministro é um bolsonarista recente, convertido só no ano
da eleição ao credo reacionário, mas esteve por trás de tudo o que foi feito
nas últimas décadas em termos federais na área social fora do petismo. Foi
secretário-executivo do Comunidade Solidária, no governo Fernando Henrique. A
administração tucana criou diversos programas de transferência de renda
focalizados, para populações de municípios particularmente pobres ou então com
condicionalidades aos beneficiários bastante rígidas. As iniciativas daquele
tempo chegaram a ser chamadas de “injeção de óleo canforado” por um governador
à época, o de Sergipe Albano Franco, e tiveram efeito eleitoral, ainda que limitado.
Com alarde, o tucano lançou em 2001 o projeto Alvorada, uma
injeção de recursos adicionais para as 390 cidades que tinham índice de
desenvolvimento humano abaixo de 0,5. Um dos principais motores do programa
eram os cartões magnéticos para pagamento aos beneficiados. As pequenas peças
de plástico foram concebidas para deixar bem claro que a ajuda brotava do
Palácio do Planalto, e não de prefeituras, instituições sociais, governos
estaduais ou o que quer que fosse. O número de cidades com IDH abaixo de 0,5
despencou de 390 para 23. Das 50 cidades mais pobres em 1991, só três
permaneceram nesta mesma condição em 2002. O candidato tucano à Presidência,
José Serra, ganhou em 26 destas cidades e Lula em apenas 13. Nos grandes
centros, o desemprego e a violência em alta anularam a vantagem tucana nos
grotões. Dos 62 maiores colégios eleitorais, Lula triunfou em 57.
O PT colocou a transferência de renda em escala exponencial
e estendeu sua capilaridade para os pequenos e pobres municípios em que estavam
ausentes. A política rende frutos até hoje. Fernando Haddad ganhou nos 48 dos
50 que, em 2002, eram os mais pobres, e Bolsonaro não foi vencedor em nenhum.
Já nas grandes, o sinal se inverteu.
Bolsa Família não é a única política social compensatória do
governo Bolsonaro com redução de escopo. Movimento muito mais drástico deve
acontecer com o programa Minha Casa, Minha Vida. Foi divulgado que o governo
está para lançar uma espécie de voucher para as famílias com renda até R$ 1,2
mil para comprar um imóvel novo ou construir um. Na versão atual do programa,
há um subsídio de 90% para a faixa de renda de até R$ 1,8 mil adquirir uma
propriedade. Desta vez será menos benefício para menos gente. Não só a faixa
atendida será menor, como o benefício financeiro passa a ter teto mais baixo do
que os R$ 95 mil que vigoravam em São Paulo, Rio e Distrito Federal até ano
passado. De todo modo, será um avanço em relação à situação atual. O governo só
está liberando recursos para a conclusão dos projetos em andamento. Não há contratações
novas.
Onde o governo mais acerta é na saúde. O programa Médicos
pelo Brasil propõe-se a ter o mesmo efetivo de 18 mil profissionais que o
petista Mais Médicos chegou a ter, mas com remuneração maior e direcionamento
para pequenas cidades do Norte e do Nordeste, onde de fato o acesso da
população à saúde é menor. O desenho do programa, portanto, é melhor. A questão
agora é saber se a classe médica irá se inscrever no programa bolsonarista. A
conferir.
No curto prazo, a política social focada poderá dar a
Bolsonaro algum dividendo nas pesquisas que o escândalo envolvendo o filho
senador está tirando. Dezembro costuma ser um mês com mais dinheiro no bolso, e
portanto há um repique na popularidade de presidentes. Foi nesta época do ano
que Lula bateu seu recorde, em 2010, ao conseguir 87% de aprovação; e até Dilma
no fatídico 2013 cresceu em dezembro, de 37% para 43%, segundo o CNI/Ibope.
Nada mais natural, portanto, que Bolsonaro tenha uma boa notícia na pesquisa a
ser divulgada hoje.
A sombra de Queiroz, o suspeito de ter coordenado a
“rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa contudo,
deita raízes, que independem da conclusão ou não do inquérito conduzido pelo
Ministério Público do Rio de Janeiro. É uma brecha que pode afastar ainda mais
o bolsonarismo do lavajatismo, motor importante para a eleição do ano passado.
Algo que pode ficar em estado de dormência para eclodir, com mais força,
adiante.

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