Foi uma longa, difícil, injusta para com os mais pobres, e,
até agora, pouco compreendida marcha para escapar do buraco negro na economia,
criado pela incompetência do PT e seus governantes. Os números deste período
infame estão hoje à vista de todos e tornam uma missão difícil para o analista
escolher o mais dramático deles para a sociedade.
Depois de uma difícil reflexão, fico com a explosão da
dívida interna do governo entre 2015 e 2016 por ser ela a mais representativa
da marcha da insensatez que tomou conta do governo Dilma desde o primeiro dia
de seu mandato. E é também o indicador mais deletério para as expectativas de
consumidores, empresários e investidores em relação ao futuro. Medida como
percentagem do PIB, a dívida bruta do governo federal entre 2013 e 2019 pulou
de pouco mais de 50% para 81% neste final de ano. Este aumento de mais de 30%
representou a soma dos efeitos do aumento do volume de gastos do Tesouro
Nacional e a queda de quase 7% do PIB entre 2015 e 2016.
Situações como esta, quando ocorreram na história recente
das economias de mercado, antecederam colapsos econômicos de grandes
proporções. Mas a sociedade brasileira – hoje podemos afirmar – não vai pagar
este preço e pode, finalmente, olhar de forma construtiva para o futuro. E
antes que receba críticas de estar sendo otimista demais – ou ingênuo como já
fui chamado no passado -, pois precisamos ainda de um longo período de reformas
para perenizar o crescimento econômico, afirmo que concordo com esta
observação.
Apenas acho importante refletir isoladamente sobre a
superação – como sociedade – da ameaça de insolvência por que passamos antes de
tratar de uma agenda para consolidar o futuro. O Brasil mostrou uma grande
maturidade ao longo destes anos terríveis por que passamos, com a crise
política do governo Temer seguida de uma eleição presidencial tensa e incerta
como foi a do ano passado.
Inicialmente gostaria de trazer ao leitor um sentimento
pessoal que construí em mais de 50 anos de observação da nossa sociedade. O
Brasil, quando diante de uma situação grave como a que passamos agora, se une e
apoia os governantes que estão administrando a crise e lutando para superá-la.
Vivi este sentimento de solidariedade e apoio quando a hiperinflação dos anos
80 e 90 do século passado testou os limites de nossa economia de mercado e
mesmo de nosso regime democrático. A união de todos – menos a esquerda, petista
ou não – em apoio à proposta da nova moeda (URV), apresentada pelo governo
Fernando Henrique em 1994, nos salvou da hiperinflação aberta e permitiu que
hoje estejamos novamente no grupo de economias de mercado com inflação sob
controle.
Os mais jovens precisam ser lembrados deste momento
importante de nossa história para entender o que está ocorrendo agora.
Mais uma vez, sentindo-se ameaçada – desta vez pelo colapso
das finanças públicas – a sociedade apoiou de forma vigorosa a reforma da
Previdência pública quando sentiu que ela representava a única saída para a
volta da estabilidade financeira. Sinal disto é que, embora diagnosticada pelos
técnicos, há mais de 30 anos, como um dos pilares de sustentação do equilíbrio
fiscal, somente agora – com a crise terminal que chegamos a viver – a opinião
pública deu o apoio necessário para forçar o Congresso a aprová-la.
Com a reforma da Previdência a força de uma recuperação
cíclica tradicional, que já existia desde o governo Temer, começou a ganhar
tração ao longo dos últimos meses. Mas a lentidão desta recuperação,
principalmente na questão do desemprego, criou um ambiente de ceticismo entre
os analistas e mesmo junto à sociedade. Meu otimismo sempre derivou do fato de
que, em recuperações semelhantes em outras economias, o prazo entre a ruptura
da bolha de consumo criada e a volta de uma normalidade econômica, sempre foi
de vários anos. O exemplo mais recente deste fenômeno ocorreu nos Estados
Unidos entre 2008 e 2018 quando este mesmo sentimento de desesperança dominou
boa parte da sociedade. Mas quando a recuperação ganhou força nos últimos três
anos uma quase euforia voltou à população americana e aos mercados.
O mesmo vem acontecendo agora no Brasil. O dia de ontem foi
decisivo para que uma mudança no ânimo de todos os mercados mais sensíveis às
expectativas dos agentes econômicos ocorresse, corrigindo de forma
significativa seus preços. Chamou a atenção o comportamento do mercado dos CDS
que precificam o chamado risco de default (calote) do país por ser ele
negociado no exterior principalmente. Também a valorização do real em relação
ao dólar na B3 mostra a força da mudança de humores em relação ao Brasil,
depois de vários meses de pressão vendedora de nossa moeda. Interessante que a força
do real ontem ocorreu no dia em que o Banco Central definiu uma nova e
expressiva redução dos juros Selic.
Consolidou-se entre os analistas que o crescimento do PIB em
2020 deve chegar a 2,5% o que implica em afirmar que na virada de 2021 a
economia deve estar crescendo 3% ao ano. Merecemos esta comemoração, mas agora
sim temos que tratar de uma nova agenda.
*Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é
presidente do Conselho da Foton Brasil. Foi presidente do BNDES e ministro das
Comunicações.

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