Especula-se sobre uma reforma ministerial e a queda de
Abraham Weintraub. Não sei se este é o intento do presidente. Sei que a
campanha contra o ministro da Educação tem por fonte — por cérebro e motor — a
ala ideológica do governo, a que dá formulação e discurso ao bolsonarismo, e
que ocupa território privilegiado, falando ao ouvido de Jair Bolsonaro, no
Planalto. Sei também que este grupo não age — jamais agiu em quase um ano — sem
o aval do presidente; e que nunca rachou. Terá sido a primeira vez?
Não faltam elementos a expor a fervura do óleo na panela
amiga em que se quer empanar o ministro. Isso não significa, porém, que
Weintraub cumpra mal a missão que lhe foi designada.
Bolsonaro estimula os conflitos internos. Há método na forma
como multiplica inseguranças entre auxiliares. Ninguém estaria tão firme. O
vaivém de sua palavra — o modo como provoca confrontos inclusive entre
colaboradores os mais graduados — tem como meta também desautorizá-los. Ele o
faz em público. Distribui derrotas. O mais forte no núcleo duro governista é o
menos fraco.
Já escrevi, nesta coluna, sobre “a lógica do fusível” com a
qual o presidente gere ministros. O fusível é um dispositivo cuja existência
consiste em ser um anteparo condenado a queimar para que queimado não seja o
sistema; para que protegidos restem governo e governante. Bolsonaro não hesita
em atropelar acordos — firmados por delegados seus, sob sua chancela — se
puderem ser entendidos como triunfos em excesso da agenda de um assessor.
Terá sido assim — sob o espírito do “não se pode ganhar
sempre” — que dinamitou o envio ao Parlamento da reforma administrativa
costurada por Paulo Guedes. Foi assim que não mobilizou nem sequer minuto
contra a diluição — a perda de identidade — do pacote anticrime de Sergio Moro;
isto enquanto articulava para secar a independência lavajatista do ministro da
Justiça, o popular ex-Moro, e transformá-lo no que ora é: espécie de advogado
do bolsonarismo.
Com poucas exceções circunstanciais, auxiliares — mesmo os
de primeiro escalão — estão no governo para se desgastar. O presidente não os
poupa. Coloca-os em campo, como para-raios, sob as descargas das intempéries
políticas, para que sejam eles, e não ele, os eventuais fulminados pela
tempestade; não tendo pena de inutilizar um subordinado caso a agenda deste
—autorizada por ele — desenvolva-se mal e represente risco de escalar para
ameaçá-lo.
Isso não quer dizer, contudo, que os queimados sejam
imediatamente descartados. Bolsonaro é hábil gestor de zumbis. Há também uma
dimensão militar em sua estratégia: manter um cinturão de gordura, uma camada
de esvaziados (Onyx Lorenzoni), fanfarrões provocadores menos (Damares Alves) e
mais nocivos ao país (Ricardo Salles, Ernesto Araújo e o próprio Weintraub), e
enrolados (Marcelo Alvaro Antonio); bois de piranha conservados para o
exercício de assombrar (e distrair) os críticos, notadamente a imprensa, mas
cujo propósito adiposo seria, por distância, escudar o presidente.
Assim pensa Bolsonaro: “Se não conseguem nem sequer derrubar
o ministro do Turismo, muito longe de me abalar estarão.”
Nada disso significa — repito — que Weintraub cumpra mal sua
missão. Ele é um executivo. E executa. Opera sob a dinâmica da guerra cultural,
do combate ao inimigo, aquele agente do establishment encravado na máquina
estatal, cuja derrota só será possível com a destruição da máquina estatal.
Weintraub veio para destruir. E entrega resultados.
Por que, então, a campanha por derrubá-lo?
Afora o fato de que choques ceifadores internos sejam normais
na dinâmica revolucionária, a blitz da ala ideológica contra o ministro deriva
de ele trabalhar com algum grau de concepção econômica liberal. Quer diminuir o
tamanho do ministério e ousou se mover para asfixiar a inexpressiva TV Escola.
Mexeu numa entre as tantas tetas abocanhadas pelos pançudos jacobinistas, que
consideram que a batalha consiste em destruir sem necessariamente reduzir,
ocupando os espaços e os aparelhando. Em suma: destruir sem dieta, enquanto
engordam. A revolução dos reacionários tem fome. Quer assegurar a boquinha.
Essa é a razão por que se investe — desde dentro do Planalto
— contra Weintraub. Se ele tombar, entretanto, tudo indica que outro com o
mesmo objetivo devastador terá lugar. Enquanto os próprios bolsonaristas coziam
o antecessor Vélez Rodriguez, adverti para que aqueles perplexos com sua gestão
não comemorassem — porque a chance de que viesse alternativa pior era imensa.
Não deu outra. Repito a advertência agora.
Este 2019 já está perdido em matéria de Educação. Mais um.
Outros anos natimortos virão. Não importa o ministro. Nada se pode erguer sobre
um chão cuja instabilidade é projeto de governo. Weintraub é o espírito do
tempo. Vai, fica: ele permanece. Weintraub é uma ideia.

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