O presidente Jair
Bolsonaro está cavando um abismo a seus pés lutando contra a realidade trágica
da Covid-19. Não há saída honrosa para ele diante da perspectiva de recessão
econômica – o ministro da Economia Paulo Guedes já teme um PIB negativo de 4%,
há bancos prevendo até 6% – e de um dramático número de mortes, que já está na
casa do milhar antes de um mês de quarentena.
As demonstrações
diárias de irresponsabilidade acintosa vão ganhando perigosos ares de
desequilíbrio comportamental que, em vez de aumentar suas chances de concorrer
à reeleição, vão lhe retirando essa possibilidade, reduzindo seu apoio a um
grupo de fanáticos.
A mais recente
pesquisa DataFolha mostra que 17% dos eleitores que votaram em Bolsonaro no
segundo turno estão arrependidos, o que quer dizer que cerca de 10 milhões de
pessoas o abandonaram, fazendo com que tivesse hoje, teoricamente, menos votos
do que obteve no primeiro turno.
Não quer dizer,
porém, que todos os que não se declararam arrependidos estejam contentes com o
governo Bolsonaro. Muitos, certamente, não se arrependeram porque consideram
que o principal papel de seu voto foi derrotar o PT.
Pesquisas de
opinião pública mostram que Bolsonaro mantém um apoio em torno de 30% da
população, o mesmo índice que o PT costumava ter antes de chegar ao poder,
igual ao percentual de votos que o candidato petista Fernando Haddad obteve no
primeiro turno.
Não há indicações
de que o PT tenha mantido seu nível de apoio de lá para cá, e o desgaste de
Bolsonaro é nítido. Por isso a polarização contra o PT é bom, teoricamente,
para os dois, mas especialmente para Bolsonaro se ele já não tivesse provado
que não é apenas um antipetista, mas um desequilibrado, técnica e
emocionalmente incapaz de enfrentar crises como a que atravessamos, e
moralmente corrupto.
Não acredito que o
PT tenha, nesses anos recentes, recuperado a imagem de honestidade e
credibilidade que conseguiu introjetar no eleitorado, e acho, portanto, que uma
repetição da polarização dificilmente acontecerá. Os extremos já se mostraram
incapazes de dar uma solução para o país.
O desgaste de
Bolsonaro só se acentuará nos próximos anos, já que ele é incapaz de ser outra
pessoa. Já era assim antes da campanha, mas era o que tinham os que queriam
alijar o PT. O centro político foi incapaz de apresentar uma alternativa ao
eleitor de centro-direita que demonstrasse viabilidade eleitoral, diante da
radicalização que tomou conta da eleição.
Abre-se um caminho
largo até 2022 para candidatos de centro se firmarem no cenário político
nacional, e os governadores, que são protagonistas dessa guerra contra a
Covid-19, podem colher resultados positivos, como já demonstram as pesquisas de
opinião e as redes sociais. Por isso, a cada vez que surge um político que se
destaque, passa a ser potencial candidato a presidente: é assim com Mandetta, é
assim com Moro.
O comportamento do
presidente Bolsonaro, ao sair às ruas em Brasília, é acintoso, atitude que não
pode ser vista como normal. Por causa desse comportamento, nossa política de
isolamento social está começando a afrouxar, a ser rompida por grupos
incentivados pelo presidente.
Não é assim que a
economia vai melhorar, e esse afrouxamento provocará mais mortes, mais
sofrimento. Não é à toa que a embaixada alemã está recomendando a seus cidadãos
que regressem ao seu país.
Bolsonaro será
responsabilizado pessoalmente pelo aumento das mortes. Não é possível ter um
presidente que estimula a população a se arriscar numa pandemia, como um líder
místico levando seus seguidores para o suicídio coletivo. Bolsonaro, nosso Jim
Jones tupiniquim, será o PT da próxima eleição, aquele a quem será preciso
afastar do poder.

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