Jair Bolsonaro sofreu uma derrota histórica na semana em que
decidiu demitir Mandetta, que vinha sendo atacado pelo gabinete do ódio e por
militantes como Olavo de Carvalho. Para ele, os auxiliares não devem ser
escolhidos por “por critérios técnicos”, mas sim ideológicos. Chamou-o de
“Punhetta”. Além das desavenças sobre a importância do isolamento e do uso de
medicamentos sem eficácia comprovada, um motivo miúdo atiçou o presidente. Ele
estava incomodado com o protagonismo crescente do subordinado. No sábado, ficou
irritado com um vídeo gravado do ministro, transmitido em um show virtual de
artistas sertanejos, que teve mais de 3 milhões de espectadores. Os presidentes
do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, haviam recusado um
convite para se encontrar com ele, e preferiram se reunir com Mandetta para lhe
prestar solidariedade. No domingo, na saída do Palácio do Alvorada, Bolsonaro
conversou com apoiadores religiosos. Disse que integrantes do seu governo
“viraram estrelas” e que a hora deles “vai chegar”. Afirmou que não tinha medo
de “usar a caneta”. No dia seguinte, anunciou a aliados que iria demitir o
ministro. Sem a presença de Mandetta, reuniu-se com o deputado Osmar Terra, que
deseja o posto do ministro, Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e os generais
Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e
Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).
Participou desse encontro a imunologista Nise Yamaguchi,
também cotada para assumir o Ministério. Ela era defendida pelos militares, que
tentavam encontrar um nome viável para se contrapor à popularidade de Mandetta.
Com mais de 40 anos de experiência, Nise é médica do Hospital Albert Einstein e
atuou em várias áreas da saúde. Mais importante, é entusiasta do uso da
cloroquina, apesar de não ser reconhecida pelos pares como uma autoridade capaz
de estabelecer um novo protocolo. Ao longo do dia, Bolsonaro comunicou a
interlocutores a sua intenção, o que vazou e causou reações imediatas. As redes
sociais dispararam e o País prendeu a respiração, em apoio ao titular da Saúde
e contra o gesto intempestivo de Jair Bolsonaro. Políticos e empresários se
mobilizaram e os panelaços começaram no meio da tarde.
Alcolumbre e Maia deixaram claro que o Congresso não
aceitaria a exoneração nem uma mudança na orientação do Ministério da Saúde.
Alcolumbre ligou para os ministros Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Onyx
Lorenzoni (Cidadania) e avisou que a relação com o Parlamento se complicaria.
Não se limitou aos recados. Anunciou que “o Congresso defenderá até o fim a
permanência de Mandetta na Saúde, pelo bem do país”. Maia afirmou que a Câmara
não aceitaria nenhuma medida contra as normas da OMS. “Todos nós estamos
seguindo a orientação do ministro da Saúde”, disse. Além de uma advertência
contra a mexida no Ministério, já antecipou que os parlamentares derrubariam o decreto
cogitado pelo presidente para flexibilizar a quarentena. O ministro Gilmar
Mendes, do STF, foi incisivo. “Tenho dúvida se algum tribunal vai validar
decisão do governo federal que contrarie orientações da OMS. Acho que nenhum
juiz do STF vai validar esse entendimento”, disse. Afirmou ainda que Mandetta
tem desempenhado um trabalho importante de coordenação com estados e
municípios. O presidente do STF, Dias Toffoli, também entrou em campo. Avisou
ao Planalto que a demissão seria mal recebida pela Corte. Ele já tinha
defendido as medidas de isolamento e apoiado a ação do Ministério da Saúde.
Reunião tensa
Enquanto os outros Poderes se moviam pela sua permanência,
Mandetta se preparava para deixar o cargo. Devia participar de uma reunião
agendada pelo presidente para tratar da pandemia com ministros, o vice Hamilton
Mourão e os presidentes de bancos públicos. Pouco antes, os funcionários do
Ministério já tinham recebido a orientação de limpar as gavetas do ministro,
que ainda improvisou um discurso de despedida — disse ter a consciência
tranquila pelo trabalho que realizou. Em solidariedade, os principais
auxiliares haviam decidido se demitir. Quando o ministro chegou ao Planalto, o
seu destino era incerto. Ao mesmo tempo, no Ministério, os servidores desceram
do prédio para um ato de apoio. A reunião no Planalto foi tensa, e Mandetta
reafirmou sua posição. “O senhor quer tocar de outro jeito, pode tocar. Pois
vamos passar num desfiladeiro. Como o senhor quer passar: acelerado ou
devagar?”, disse Mandetta ao presidente. Também afirmou: “A questão não é se
vou ficar. É quando você vai ter condições para me tirar. E quando vou ter
condições para sair”. Ao final, foi encaminhado a um encontro no próprio
Planalto com Nilse e o anestesiologista Luciano Dias Azevedo, ligado ao grupo
bolsonarista Docentes pela Liberdade. O objetivo era convencê-lo a assinar um
decreto referendado a cloroquina — ele recusou. Nesse momento, o presidente já
tinha sido convencido a recuar. A batalha tinha terminado, Mandetta tinha vencido.
O ministro voltou para o Ministério e foi recebido pelos funcionários com
aplausos. No final do dia que balançou a República, fez um pronunciamento à
imprensa reafirmando sua posição. Foi uma resposta dura a Bolsonaro, ainda que
não o citasse. Disse que a população deveria continuar a seguir a orientação
dos governadores (desafetos do presidente), que as críticas (de bolsonaristas,
obviamente) traziam dificuldades para o seu trabalho e que o País ainda não
estava preparado para uma escalada no número de pacientes (o principal
argumento para o isolamento). Terminou citando uma alegoria filosófica de
Platão, o Mito da Caverna, que trata da ignorância e do conhecimento — um óbvio
recado ao mandatário.
Ministro com novo status
Mandetta saiu do episódio fortalecido. Conquistou em 24
horas quase 100 mil seguidores nas redes sociais. Com a popularidade em alta e
comandando a maior batalha que o País enfrenta em muitos anos, ele pode
ambicionar um novo curso para a carreira política se não ceder à ação irresponsável
de Bolsonaro — até sonhar com a Presidência. Será algo bem maior do que a
prefeitura de Campo Grande (MS), que ambicionava, ou a Secretaria da Saúde de
Goiás, oferecida pelo seu colega do DEM, o governador Ronaldo Caiado. Mandetta
protagonizou uma reviravolta. Médico ortopedista de perfil discreto, teve uma
atuação apagada em seu primeiro ano no Ministério, depois de dois mandatos como
deputado federal.
Para o Planalto, as implicações são grandes. O desfecho da
disputa não foi marcado pela atuação dos bombeiros palacianos, que conseguiram
demover Bolsonaro da demissão. O mais significativo foi o apequenamento do
presidente, que passou a se dobrar a mais um ministro “indemissível” —
categoria em que já estavam Sergio Moro, da Justiça, e Paulo Guedes, da
Economia. “Falta tinta” na caneta do presidente, para usar sua metáfora. Os
militares já haviam advertido Bolsonaro que tirar Mandetta agravaria a crise
sanitária e econômica e poderia ter consequências imprevisíveis. A mais óbvia é
abrir espaço para um processo de impeachment. O risco para Bolsonaro é enorme,
pois conta com um apoio mínimo no Congresso. Por essa razão, tem se dedicado
nos últimos dias a refazer pontes com o Parlamento. Procurou nomes do Centrão,
o que sempre havia rechaçado. Reuniu-se com o presidente do PP, o senador Ciro
Nogueira, e o presidente do Republicanos, Marcos Pereira.
Onyx e terra contra Mandetta
Bolsonaro não deve conseguir retomar a iniciativa política
na crise. Por um cálculo político, luta praticamente solitário contra o isolamento.
Sabe que a economia em seu mandato não deve se recuperar. Os governadores, ao
contrário, estão ganhando apoio popular com medidas enérgicas. Pelo menos 20
decidiram prorrogar a quarentena recomendada pelo Ministério da Saúde. Em mais
uma derrota para o presidente, o ministro do STF Alexandre de Morais determinou
na quarta-feira, 8, que eles têm autonomia para isso independentemente do
governo federal. Os que chegaram a prometer flexibilização das medidas voltaram
atrás. Bolsonaro ainda quer demitir Mandetta. A conspiração para removê-lo
ainda acontecia na quinta-feira, 9, quando Onyx Lorenzoni e Osmar Terra foram
flagrados pela CNN em um diálogo articulando a sua demissão. A conversa durou
14 minutos. O ministro Onyx defende a demissão de Mandetta. “Se eu estivesse na
cadeira (de Bolsonaro)… eu não teria segurado, eu teria cortado a cabeça dele…”
Terra, que deseja o lugar do ministro da Saúde, responde: “ele se acha”. E
propõe ajudar Onyx a derrubar Mandetta. “Eu ajudo Onyx. E não precisa ser eu o ministro.
Tem muita gente que pode ser”. Mas o mandatário sabe que não tem força para
isso sem arriscar sua permanência no Planalto. Numa situação inédita na
história republicana, seu governo passou a ser tutelado por militares e quadros
técnicos mais preparados do que ele. Bolsonaro precisará se resignar ao novo
papel. “Não se esqueçam de que eu sou o presidente”, já disse em referência à
firmeza do ministro. Se precisa reafirmar seu poder, é porque lhe falta
autoridade.
O novo homem forte do Planalto
A crise fez surgir um novo homem forte no
governo: o general Walter Souza Braga Netto. O ministro-chefe da Casa Civil
assumiu a coordenação das ações oficiais sobre o coronavírus em meio à confusão
instaurada pelas ações intempestivas do presidente. Foi escalado para conduzir
as coletivas diárias no Planalto, onde intervém e orienta as falas dos
entrevistados. Com isso, lidera na prática os outros membros do governo e
diminui a visibilidade de Luiz Henrique Mandetta. Braga Netto adquiriu esse
papel por sua ação decisiva. Foi uma voz fundamental para convencer o
presidente a recuar na demissão do ministro da Saúde e a diminuir o tom
beligerante em seus pronunciamentos. Moderou o confronto com os governadores.
Como resultado, evitou a derrocada do chefe, pelo menos no momento. Passou a
ter ascendência sobre os colegas, articulando as diversas áreas do governo —
algo que o antigo titular da Pasta, Onyx Lorenzoni, nunca conseguiu fazer.
A função de gerente do governo é apropriada para
o militar mineiro, que em 40 anos na Exército e já exibiu habilidade em
situações adversas. Foi interventor na área de segurança pública no Rio de
Janeiro em 2018, indicado pelo ex-presidente Michel Temer. Durão e discreto,
ele foge dos holofotes, mas está se sentido à vontade no novo papel. É
atualmente o militar mais próximo de Bolsonaro, posto que no início do governo
era do general Augusto Heleno. Ascendeu depois que o general Luiz Eduardo Ramos
(Secretaria de Governo) passou a ser criticado pelo presidente no acordo
frustrado com o Congresso para o Orçamento Participativo. Desde a sua atuação
no Rio, Braga Netto também passou a ter bom trânsito com o presidente da
Câmara, Rodrigo Maia, algo conveniente com o isolamento do mandatário.
O novo papel já trouxe desgastes. Alguns militares da
reserva e sites passaram a exaltá-lo como o novo “interventor”, “presidente
operacional do Brasil” e “chefe do Estado-Maior do Planalto”. Correram rumores
de que ele seria o nome escolhido por uma Junta Militar para assumir o comando
do País. A enciclopédia virtual Wikipédia chegou a ser adulterada para
apontá-lo como o 39º presidente — uma informação depois corrigida. Alimentadas
por teorias conspiratórias, as milícias digitais lideradas pelo filho do
presidente, Carlos, passaram a atacá-lo. O vice-presidente, Hamilton Mourão,
também virou alvo — e foi ao Twitter defender a lealdade e a atuação dos
militares usando a imagem da união dos paraquedistas, que “andam unidos sempre
no mesmo passo”. Mourão nega que o colega esteja tutelando o presidente. Diz
que Braga Netto está realizando a verdadeira governança do governo. “É o homem
certo, no lugar certo, na hora certa.” De fato, o novo homem forte no Planalto
assumiu sua função por ação do próprio Bolsonaro: pela sua debilidade no cargo.

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