O começo teve ar de mau agouro. No dia 20 de novembro de
2018, quando confirmou a escolha do ex-deputado federal Luiz Henrique Mandetta
para compor o seu time de auxiliares, o então presidente eleito Jair Bolsonaro
disse aos jornalistas: “eu confirmo o marechal Mandetta, que se Deus quiser
assumirá ano que vem com essa enorme missão”.
É singular a associação do nome de Mandetta, na largada do
governo, a um posto da hierarquia militar extinto em 1967. O marechalato havia
se transformado no regime militar em uma espécie de sinecura a militares em fim
de carreira, e o fim da patente – embora decretado como uma tentativa do
presidente Castello Branco de impor revés ao general Costa e Silva – acabou
recepcionado como um aceno à austeridade fiscal.
Voltando ao presente, é como se Bolsonaro ao anunciar o
“marechal Mandetta” para o ministério o tivesse nomeado já com prazo de
validade.
Sem vaticínios ou ilações, o que os fatos mostram nas
últimas semanas é o desgaste da relação entre o presidente e o auxiliar
acentuando-se num crescendo quase insuportável. No domingo, Bolsonaro admitiu a
um interlocutor que o visitou no Palácio da Alvorada que a decisão de demitir o
ministro da Saúde é irrevogável. A dúvida continua sendo quando consumar o ato.
Segundo interlocutores que se reuniram com o presidente nos
últimos dois dias, Bolsonaro está convicto de que Mandetta extrapolou os
limites da hierarquia e incorreu em quebra de confiança em uma sequência de
ações que remontam ao início da crise do coronavírus.
Bolsonaro ouviu de um de seus comensais no Alvorada neste
fim de semana que errou ao não imitar neste episódio o presidente americano
Donald Trump, que se abespinhou com seu secretário de Saúde Alex Azar, o
porta-voz da pandemia que roubou a cena.
Trump sugeriu que a palavra sobre a crise deveria ficar com
o responsável pelo Centro dos Serviços de Medicare e Medicaid, Seema Verma.
Depois, rendeu-se à figura de Azar e passou a dar entrevistas ao lado do
auxiliar. Bolsonaro, na visão de aliados, errou porque ao contrário de Trump,
preferiu romper com Mandetta e se isolar.
A conclusão de quem ouviu Bolsonaro e Mandetta ao longo da
fervura é de que a demissão do ministro se transformou em uma questão de honra
para o presidente, convencido de que o auxiliar desafiou sua autoridade.
Bolsonaro tornou público esse inconformismo. Em uma entrevista de rádio, teve
de lembrar: “O presidente sou eu”. No domingo, foi mais explícito: “A hora
deles não chegou, mas vai chegar. E a minha caneta funciona e será usada”.
Num momento em que as pesquisas de opinião atestam a
deterioração de sua popularidade, Bolsonaro continua dando sinais de que vai
mais uma vez ceder à ala ideológica do governo e comprovar a influência de
Olavo de Carvalho.
No meio da tarde de domingo, o guru bolsonarista em sua
conta no Facebook a cobrança: “Fora, ministro Punhetta [Mandetta]!” E
prosseguiu: “O Punhetta [sic] é o exemplo típico do que acontece quando um
governo escolhe seus altos funcionários por puros ‘critérios técnicos’, sem
levar em conta a sua fidelidade ideológica”.
Poucas horas depois, um Bolsonaro visivelmente contrariado
pareceu em sintonia com Olavo ao admitir a apoiadores na porta do Alvorada, que
havia se equivocado na composição de seu ministério. “Escolhi por critérios
técnicos, errei com alguns, alguns já foram embora, estamos vivendo agora um novo
momento”.
A opção pela ala ideológica enquanto a economia marcha sobre
o cadafalso terá um custo político. Após horas de suspense, com impacto direto
no mercado, e nova onda de panelaços em bairros influentes de São Paulo,
Bolsonaro terminou o dia sem demitir o ministro da Saúde. Mas o ambiente
continua tenso e os sinais estão truncados.
O embate arrastado com o ministro da Saúde já fez ruir o
apoio do grupo político que avalizou a nomeação do “marechal Mandetta”,
capitaneado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), agora um opositor
declarado de Bolsonaro. Da mesma ala, o ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni,
saiu enfraquecido da Casa Civil, e o correligionário Abelardo Lupion perdeu o
cargo de assessor especial no Planalto.
O apoio residual do DEM ao governo ainda não virou pó porque
a manutenção de Mandetta no cargo garante a interlocução com os presidentes do
Senado, Davi Alcolumbre (AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (RJ). Se o ministro for
afastado, a relação institucional pode implodir.
Enquanto Mandetta e sua equipe agonizaram mais 24 horas
ontem no cargo, o ex-ministro da Cidadania Osmar Terra, cotado para
substitui-lo, roubou os holofotes ao participar de uma reunião com Bolsonaro e
os quatro ministros do Planalto – Walter Souza Braga Netto (Casa Civil), Jorge
Antônio de Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), Luiz Eduardo Ramos
(Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).
A pauta foi a epidemia do coronavírus, mas sem o titular da Saúde.
Mandetta continua na cadeira, mas Terra calçou as chuteiras
e está no aquecimento. Desde o ano passado, o emedebista faz movimentos
discretos para tentar sentar na cadeira. A saúde sempre foi feudo do MDB, o
partido dirigiu a pasta com o ex-deputado Saraiva Felipe (MG) e o hoje senador
Marcelo Castro (PI).
De um lado, a cúpula do MDB afirma que se Terra for convidado
por Bolsonaro, será um nome de sua cota pessoal. Nos últimos dias, as redes
sociais do MDB publicaram mensagens explícitas de apoio a Mandetta e às medidas
de distanciamento social.
A “cota pessoal” vale como retórica, mas se Terra ascender à
Saúde, levará junto o MDB e acirrará a disputa de poder entre as siglas
hegemônicas no Congresso. O MDB não tem ministério, mas tem os dois
interlocutores do Planalto com o parlamento: os líderes do governo no
Congresso, senador Eduardo Gomes (TO), e no Senado, Fernando Bezerra Coelho
(PE).
Bolsonaro não tem base de apoio formal no Congresso, mas DEM
e MDB têm apoiado o governo nas agendas econômicas. Acirrar a disputa entre as
duas siglas às vésperas da sucessão nas presidências da Câmara e do Senado é
inoportuno. Se ao fim e ao cabo Bolsonaro defenestrar o “marechal Mandetta”,
perderá o DEM e a linha direta com o Congresso, num ambiente tenso em que a
palavra “impeachment” deixou de ser um sussurro.

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