Funcionou, não sem um estresse desnecessário, a tutela
branca dos ministros militares que ocupam os gabinetes do Palácio do Planalto.
Foram eles, mais o Congresso e o Supremo, que deram respaldo à permanência do
ministro Luiz Henrique Mandetta no ministério da Saúde, depois que o presidente
mandou aprontar um decreto demitindo-o.
Mais uma vez o presidente Bolsonaro criou um clima de
instabilidade no país a troco de nada. Ou melhor, a troco de demonstrar
infantilmente o poder de sua caneta presidencial, e o que conseguiu foi
explicitar que lhe falta tinta para usar a caneta, como havia ameaçado na
véspera.
O presidente tantas fez que acabou perdendo as condições
práticas de governar. Seus desejos, no mais das vezes voltados para seu
beneficio pessoal, não do país, encontram cada vez mais barreiras pela frente.
Só são respeitados entre seus filhos, e naquele núcleo radicalizado que
alimenta as redes sociais com intrigas e difamações, além de falsificações,
como fizeram com o ministro Mandetta.
Criaram um perfil falso na internet onde o ministro da Saúde
criticava o presidente Bolsonaro, dando motivos para sua quase demissão. O mais
curioso é que Bolsonaro parece até mesmo acreditar nas falsidades criadas pelo
“gabinete do ódio”, que trabalha dentro do Palácio do Planalto sob o comando de
seu filho 02, o vereador Carlos Bolsonaro, que abandonou sua função no Rio para
aboletar-se em um gabinete palaciano para aconselhar seu pai.
Volta e meia Bolsonaro tem que retirar de seu twitter
notícias que lá publicam e se revelam mais tarde mentiras. Durante todo o dia
de ontem os mercados financeiros registraram a instabilidade provocada por
palavras do próprio presidente desde a noite de domingo. Se não fossem as
instituições funcionando, e os militares atuando nos bastidores, teríamos agora
uma mudança radical na conduta do ministério da Saúde no combate à Covid-19,
que causaria uma crise institucional grave, das muitas que já foram armadas pelo
próprio Bolsonaro, contra seu próprio governo.
O presidente do Senado David Alcolumbre telefonou para o
Palácio do Planalto para avisar que a demissão de Mandetta provocaria uma
reação do Congresso. Na noite de domingo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia,
deu uma entrevista dizendo que Bolsonaro seria responsabilizado pessoalmente
por mudanças no combate à Covid-19 que não obedecessem às orientações da
Organização Mundial de Saúde.
Vários ministros do Supremo, inclusive seu presidente Dias
Toffoli, deram declarações a favor do isolamento horizontal. O que poderia ser
um motivo de satisfação para Bolsonaro, ter montado um ministério com algumas
pessoas técnicas de valor reconhecido pela opinião pública, que é o caso de
Luiz Henrique Mandetta, torna-se um tormento quase infantil, uma inveja do
sucesso de seus ministros poucas vezes vista.
Um exemplo recente foi o de Itamar Franco, que, depois de
várias tentativas, acertou na escolha de Fernando Henrique para o ministério da
Fazenda. Mesmo aconselhado por vários assessores contra aspectos do Plano Real,
Itamar sempre acabou respeitando a orientação técnica da equipe, mesmo que às
vezes fosse preciso que o próprio Fernando Henrique interviesse para desfazer
intrigas e maledicências.
A relação de Itamar e Fernando Henrique sempre foi
tumultuada, especialmente quando o sucesso do Planalto Real era atribuído a
Fernando Henrique, e não a ele. A ponto de Itamar, tendo sido eleito governador
de Minas Gerais, dar um calote na dívida, quase desmontando o Plano Real no início
do segundo governo de Fernando Henrique.
Hoje estamos em uma crise mundial de saúde, e somos
obrigados a assistir a picuinhas de um presidente que já não tem condições
plenas de governar porque toma decisões estapafúrdias, sem base técnica ou
legal.
Ao insistir no uso da cloroquina sem que haja comprovação
científica de sua validade, e colocar no seu gabinete de crise técnicos que
pensam diametralmente oposto ao que a Organização Mundial de Saúde recomenda, o
presidente Bolsonaro está apenas criando uma nova crise na saúde, que pode
dificultar a luta contra a Covid-19. Como diz o ministro Mandetta, é preciso
ter paz para enfrentar essa guerra” .

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