quarta-feira, 22 de março de 2023

BRIGAR COM LIVROS RARAMENTE É UMA BOA IDEIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Alguns princípios gerais são reconhecidos pela maior parte das correntes econômicas

Os livros de economia estão superados, como assevera Luiz Inácio Lula da Silva? É verdade que a economia não goza do mesmo estatuto epistemológico de ciências mais duras, como a física. Isso significa que é tolice esperar dos economistas predições com a mesma precisão que aquelas feitas por astrônomos para os próximos eclipses solares, por exemplo.

Também é verdade que ocorrem guerras intestinas entre diferentes escolas econômicas e, dentro de cada uma delas, disputas fratricidas. Mas isso tem mais a ver com carreiras individuais do que com uma falha teórica irredutível. Apesar desses e de outros poréns, existem alguns princípios gerais que são reconhecidos pela maior parte das correntes econômicas. São eles que tendem a figurar nos manuais e livros-textos de que o presidente desconfia.

Um deles diz que não dá para manter, simultaneamente e por muito tempo, uma política fiscal expansionista (chamar gastos de investimentos não muda nada), inflação baixa e juro baixo. É preciso abrir mão de ao menos um desses elementos, embora o ideal seja encontrar combinações ótimas entre eles. Como são grandes as intersecções entre economia e psicologia, se o governo convencer os mercados, isto é, as pessoas que lhe emprestarão dinheiro, de que não haverá descontrole futuro, conseguirá se financiar sem disparada da inflação e pagando um juro menor do que aquele que seria exigido num cenário de desconfiança. Como fazer isso é mais um problema da política do que da economia.

Os manuais, porém, são mais ou menos consistentes em apontar certas coisas que não dão certo. Uma delas é tabelar o juro num valor inferior ao dos custos de captação, como fez o ministro da Previdência, Carlos Lupi, outro que não acredita nos livros. O resultado, tão previsível como um eclipse, foi o desaparecimento das linhas de crédito para os empréstimos consignados.

Brigar com livros raramente é boa ideia.

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