Chegamos ao ponto da alternativa populista ao
republicanismo. E agora, quanto à relação entre a tradição republicana, como a
concebo, e talvez a alternativa mais relevante representada pela concepção
liberal da política?
A tradição republicana, como argumentarei, compartilha com o
liberalismo a presunção de que é possível organizar um Estado viável e uma
sociedade civil viável em uma base que transcende muitas divisões religiosas e
afins. Nesse sentido, muitos liberais reivindicarão a tradição como sua. Mas o
liberalismo tem sido associado, ao longo dos duzentos anos de Seu
desenvolvimento, e na maioria de suas variantes influentes, se deu com a
concepção negativa de liberdade como ausência de interferência, e com a suposição
de que não há nada inerentemente opressivo em algumas pessoas terem poder
dominante sobre outras, desde que não exerçam esse poder e não seja provável
que o exerçam. Essa relativa indiferença ao poder ou à dominação tornou o
liberalismo tolerante a relações no lar, no local de trabalho, no eleitorado e
em outros lugares, que o republicano deve denunciar como paradigmas de
dominação e falta de liberdade. E isso significa que, se os liberais se
preocupam com questões de pobreza, ignorância, insegurança e similares, como
muitos se preocupam, isso geralmente se deve a algum compromisso independente
de seu compromisso com a liberdade como não interferência: digamos, um
compromisso com a satisfação das necessidades básicas ou com a realização de
uma certa igualdade entre as pessoas. (PETTIT, Phillip. Republicanism: Theory
of Freedom and Government. p. 9)
Guillermo del Toro outra vez nos encanta
com a releitura da nossa crise civilizatória através de um filme sobre um
clássico da literatura. “Frankenstein” (2025, em exibição na NETFLIX) se
impõe pela busca da liberdade até pela escolha do direito de morrer. Os tempos
da pandemia reforçaram criaturas bizarras na política desde um argentino com a
motosserra até um soldador tupiniquim. Uma sociedade sob fraturas como se
fossem pedaços de corpos costurados num corpo orgânico e fascistizante.
Anteriormente, na animação “Pinóquio” (2022) o livro de
Carlo Collodi reaparece para nos fazer lembrar que o fascismo se alimenta da
mentira repetida inúmeras vezes. A “maldição” do nariz a crescer como uma
observação da crítica ao sistema político aonde o eleitor se encontra frustrado
num “mundo de vícios” no momento da escolha racional do voto. Por exemplo, as
eleições fluminenses de 2022 foram antecipadas por inúmeras matérias
jornalísticas que questionavam a qualidade da água fornecida a população pela CEDAE.
Digamos que essas pautas sensacionalistas teriam criado um senso comum em favor
da chamada “privatização da água e saneamento” referendada no voto.
Segundo Anthony Downs,
Os benefícios que os eleitores consideram, ao tomar suas
decisões, são luxos de utilidade obtidos a partir da atividade governamental.
Realmente, essa definição é circular, porque definimos utilidade como uma
medida de beneficios, na mente de um cidadão, que ele usa para decidir entre
caminhos alternativos de ação. Diante de diversas alternativas mutuamente
exclusivas, um homem racional sempre escolhe aquela que lhe traz a maior
utilidade, ceteris paribus; isto é, ele age para seu próprio e maior benefício.
(…) (Downs – Uma Teoria Econômica da Democracia, p. 57)
O mundo de Porfírio Díaz (referência ao presidente do México
derrubado pela Revolução Mexicana de 1910) teria muitas semelhanças com a crise
política fluminense, porém voltemos a obra do cineasta mexicano. Toro faz do
seu Frankenstein uma fábula política sobre uma relação entre criador e criatura
numa história que nasce sombria, na narração de Victor, e se encerra mais
comovente na narração da criatura. Uma dialética a procura de uma síntese como
se fosse a leitura do romance Vento em setembro de Tony Bellotto, que
nos instiga a pensar na paternidade do agronegócio nos anos autoritários no
qual caiam os principais dirigentes do PCB (1974 – 1978).
Outra vez, antes que percamos o fio da meada, pensemos nos
mortos da pandemia e nos restos de corpos que formaram um corpo deformado de
uma criatura agoniada por ser a vitória da vida sobre a morte. O livro de Mary
Shelley (1797 – 1851) – filha da feminista Mary Wollstonecraft – está com uma
adaptação que nos permite reconhecer os valores de um mundo de restos feudais a
sobreviver em pleno capitalismo. A embarcação russa encalhada é um exemplo
desse mundo que estava prisioneiro dessa lógica, o que moldaria muitos outros
aspectos no mundo moderno. O Prometeu Moderno de Shelley é lido por Toro como
uma oportunidade de nos afastar do medo e do mal estar da civilização.
Pelos caminhos “tortos” de sua narrativa em termos de buscar
uma memória que tenha um valor na política democrática, o filme Frankenstein
pode dialogar com “O Agente Secreto”, com suas assombrações moralizantes como
uma “Perna Cabeluda”. Portanto, a sombria filmografia de Guillermo del Toro
abre caminho para melhor compreender a angústia de um “morto em vida” como o
personagem Marcelo do filme nacional. E, ao final, o cristianismo ganha uma
possibilidade política benfeitora no exercício do perdão e no reconhecimento do
filho pelo pai.
Pois assim ele clamou: ”Pai. perdoai-vos. Eles não sabem o
que fazem”.
*Vagner Gomes é Doutorando em Ciência Política no
PPGCP-UNIRIO.

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