O que ontem era impensável torna-se hoje discutível.
Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso
trumpista
Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide
servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá
esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”
Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.
Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder
para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes
sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para
nunca mais ser ressuscitada.”
Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para
cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o
irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser
interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não
descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.
Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura
com que o mundo reagiu a ela.
É certo — o Papa protestou. Greta
protestou. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, mostrou-se
muito preocupado. George Clooney, mais rigoroso, chamou-lhe um crime de guerra:
“Se alguém diz que quer acabar com uma civilização, isso é um crime de guerra.
Você pode apoiar pontos de vista conservadores, mas deve haver uma linha de
decência, e não pode ser cruzada.”
Linha de decência, George?! Estamos falando de um presidente
da República que se comunica através de palavrões e baixo calão, insulta os
jornalistas que se atrevem a colocar-lhe questões mais difíceis, usa o cargo
para enriquecer, e, convém lembrar, foi condenado por abuso sexual ainda antes
de ser eleito.
Donald Trump não se limitou, uma vez mais, a troçar da
decência. Cometeu um crime, sim, um abominável crime de guerra. Num mundo
normal, não anestesiado por anos de intimidade com o feroz surrealismo da
extrema direita global, o escândalo seria unânime. A carreira política do atual
inquilino da Casa Branca terminaria naquele triste parágrafo.
O que ocorreu, ao invés, foi um sobressalto breve, e logo o
mundo regressou à sua tépida indiferença. A frase permaneceu — como permanece
uma mancha de sangue —, já integrada no padrão. Mais uma. Apenas mais uma.
Aprendemos a aceitar o excesso. A linguagem, levada ao
limite, não fere mais. É como um ruído demasiado alto, que o ouvido recusa.
Quanto maior a violência anunciada, mais irreal parece. Ora,
a irrealidade, o absurdo, não exige resposta. Contudo, é assim que a História
avança. Não na sequência de rupturas súbitas, mas por uma lenta deslocação do
tolerável. O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã,
aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista. Não
tanto por aquilo que afirma, mas por aquilo que permite. No caso, permite que a
ideia do genocídio circule sem consequências. Que se teste o limite. Que se
meça a paciência da plateia. E a plateia, queridos leitores, é paciente.
Então, a coreografia prossegue, um pequeno passo hesitante,
depois um segundo mais firme. E nós, espectadores atordoados, vamos aprendendo
a reconhecer os movimentos sem, todavia, abandonar a sala.

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