Relatório não indiciou quem roubou, ganhou dinheiro e
tentou salvar o Master com dinheiro público
Se tivesse contado a história toda, texto teria sido
rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4
O relatório da CPI do Crime
Organizado escrito pelo senador Alessandro
Vieira (MDB-SE) pediu
indiciamento de três ministros do STF e do procurador-geral da
República. Não indiciou os políticos (em geral, de direita) que roubaram com o
Master, ganharam dinheiro do Master e tentaram salvar o Master com dinheiro
público.
A leitura do relatório deixa claro que Vieira tentou
transformar a CPI do crime organizado em CPI do Banco Master.
Até aí, várias CPIs já trataram de temas diferentes dos que
inspiraram sua instalação: o mensalão, por exemplo, foi investigado em
uma CPI
sobre bingos.
O problema é que, como relatório de uma
hipotética CPI do Master, o trabalho de Alessandro Vieira é ruim.
O viés do relator fica claro na página 60 do relatório, onde
são discutidas as conexões do Banco Master com as instituições da República.
Quando fala dos órgãos reguladores, o relatório cita
nominalmente os dois
funcionários do Banco Central acusados de receber suborno de Daniel
Vorcaro. Quando fala do Judiciário, Vieira também cita Toffoli
nominalmente. Na hora de falar de políticos, o relatório não dá nomes. Os casos
de governadores e prefeitos que colocaram dinheiro de aposentados no Master não
são sequer discutidos.
O viés anti-STF e pró-políticos do relatório final da CPI
fica claro também quando olhamos para quem votou a favor e contra sua
aprovação.
Os votos pela aprovação do relatório foram dados por
parlamentares do MDB, do PP, do Novo e
do PL. À
exceção do Novo, todos estão no centro do escândalo Master.
Do PP saiu Ciro Nogueira,
que tentou
aumentar a cobertura do FGC por emenda constitucional; do PL saiu
Filipe Barros, que tentou fazer a mesma coisa por projeto de lei. PP, PL e MDB
assinaram o requerimento 3.651/2025, que pedia urgência para o projeto que
autorizaria o Congresso a demitir
os diretores do Banco Central que se opusessem ao salvamento do Master
com dinheiro público. Do MDB saiu Ibaneis Rocha,
que deu
ao Banco de Brasília um prejuízo avaliado entre R$ 15 bilhões e R$ 18
bilhões tentando salvar o Master. Do PL saiu Cláudio
Castro, o governante brasileiro que mais colocou
dinheiro de aposentados no Master (R$ 1 bilhão).
Os votos contrários ao relatório foram dados por
parlamentares do PT, do PSD e do PSB.
O PT tem gente da Bahia envolvida
com um sócio de Vorcaro. O PSD tem prefeitos do interior de São Paulo que
investiram dinheiro de previdência no Master. Dos três partidos, só o PSB
assinou o requerimento 3.651 de 2025.
Ou seja: os partidos dos parlamentares que votaram a favor
do relatório de Alessandro Vieira estão muito mais enrolados com o Master do
que os partidos dos parlamentares que votaram contra.
Não é por acaso: ao jogar toda a culpa no STF, o relatório
da CPI tira o foco dos políticos e abre um espaço para as críticas
bolsonaristas ao STF parecerem legítimas. Cria uma aliança natural entre uma
multidão de políticos direitistas "moderados" enrolados com o Master
e bolsonaristas anti-STF que, aliás, também são enrolados com o Master.
Se tivesse contado a história toda, o relatório da CPI teria
sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4. Mas não ajudaria a direita a ganhar a
Presidência como recompensa por ter quebrado um banco.

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