A confusão entre política e religião fundamentalista
modifica na essência a maneira norte-americana de ser. Os conceitos de
democracia foram relegados a planos inferiores. Trata-se agora da imposição da
força e da negação da diplomacia
Fiz meu mestrado na School of Advanced International Studies
(Sais), em Washington, Estados Unidos, nos anos de 1980. Período muito fértil
na vida acadêmica. Estudei muito, conversei bastante, frequentei palestras e
cheguei a falar para alunos e professores sobre Brasil e suas circunstâncias,
porque o país atravessava a imensa dificuldade ocasionada pela doença e morte
de Tancredo Neves, depois de ele ter sido eleito presidente da República. Fiz
palestra no Clais — Centro de Estudos Latino-americanos e Ibéricos —, em
Harvard, sobre o cenário político brasileiro da época.
Recordo esse período da minha vida porque
estive mais perto da sociedade norte-americana. Até hoje, mantenho amigos lá.
Alguns se aposentaram, outros seguiram carreira no serviço público ou na esfera
privada. Mas havia grande preocupação entre os professores e alunos de manter
vivas as ideias básicas do chamado american way of life. A democracia e o livre
comércio eram símbolos do que se pretendia para um país livre. Nada parecido
com o que se vê hoje em Washington. Essa extrema-direita que assumiu o poder,
raivosa, sem limites, é uma novidade. A confusão entre política e religião
fundamentalista modifica na essência a maneira norte-americana de ser. Os
conceitos de democracia foram relegados a planos inferiores. Trata-se agora da
imposição da força e da negação da diplomacia. Trump fez a guerra contra o Irã
sem motivos, nem objetivos definidos. Agiu para se adiantar a Israel, país que
se autoconcedeu o direito de matar seus vizinhos.
Israel é assunto europeu que se transferiu para o Oriente
Médio. Os judeus foram muito perseguidos por Hitler na Alemanha e em todo leste
europeu. A Haganah, antecessora do Mossad, organizou levas de judeus que
fugiram da Europa para a Palestina, administrada pelos ingleses. Estes foram os
primeiros terroristas da época em que todas as religiões conviviam em paz
naquela região. Eles sabotaram os esforços pelo entendimento pacífico até que
os britânicos se retirassem do comando. Assim surgiu Israel, que, na origem,
era um país socialista, baseado nas fazendas coletivas, os kibutzim. Nada
parecido com o atual do estado judeu que ataca e mata seus vizinhos segundo os
próprios critérios. Além disso, tomou posse da área definida pela Nações Unidas
para a criação do Estado palestino.
A guerra é a negação da política. Bombas não substituem
diplomatas. O comportamento do presidente dos Estados Unidos é o de um
dirigente ensandecido. Ele não considera dificuldades, nem vantagens
comparativas. Envia as tropas sem saber motivo ou razão. Bombardeou o Irã e não
tomou as cautelas elementares. Ficou surpreso com a capacidade de resistência
do país, que respondeu atacando as bases norte-americanas na região e fechando
o trânsito de navios no Estreito de Hormuz. Os americanos não conseguiram defender
seus aliados. E penalizaram o mundo inteiro com o aumento do custo do petróleo,
que pesou, inclusive, no bolso do consumidor norte-americano. Tudo errado.
Restaram os discursos furiosos, irados, recheados de palavrões, que recordam o
denso palavreado da era nazista na Alemanha. É uma tragédia norte-americana.
A Pérsia foi um dos maiores e mais importantes impérios
da Antiguidade, localizado na região do atual Irã e áreas vizinhas.
Existiu em diferentes fases, a mais famosa é do Império Aquemênida, que
surgiu por volta de 550 a.C. O império começou com Ciro, o Grande,
que unificou os povos persas e conquistou territórios vizinhos, como a Lídia e
a Babilônia. No seu auge, foi gigantesco, abrangendo o Egito, no norte da
África, até partes da Índia, o Oriente Médio, a
Mesopotâmia e territórios na Ásia Central.
Henry Kissinger lembra, em seus escritos, que, após o fim da
Segunda Guerra Mundial, os melhores líderes políticos do Ocidente se
organizaram para construir um mundo mais seguro. A Alemanha se reunificou, a
Europa procurou o caminho da União e criou a moeda única, o euro. O apartheid
foi extinto na África do Sul, os países do leste europeu encontraram o caminho
da liberdade, as colônias mantidas pelos europeus na África e na Ásia
encontraram sua independência. Só o conflito na Palestina remanesce até hoje sem
solução. Árabes e judeus brigam, e o mundo é refém do conflito.
O Império Persa era tolerante com culturas e religiões dos
povos conquistados. Detalhe interessante é que bombardeio de Israel destruiu
uma sinagoga em Teerã. Há judeus na antiga Pérsia. As coisas são mais complexas
do que supõem os adolescentes de várias idades que tomaram o poder em
Washington. Há boas livrarias na capital dos Estados Unidos. Eles podem se dar
ao trabalho de estudar um pouco a história e a política internacionais. Previne
o governo de futuros vexames semelhantes ao atual.

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