Pesquisa Quaest indica percepção negativa sobre o custo
de vida e o poder de compra, especialmente entre os segmentos de renda
intermediária
Desde o golpe de 1964, a esquerda brasileira tem dificuldade
de compreender o comportamento das classes médias na política. À época, a
deriva à direita desses segmentos da população deu base social ao golpe
militar, inviabilizando qualquer resistência do governo João Goulart. Também
foi o apoio das classes médias, devido ao chamado “milagre econômico”, que
garantiu o grande respaldo obtido pelo governo fascista do general Emilio
Médici na sociedade.
A volta do pêndulo se deu apenas em 1974, em consequência do
primeiro choque do petróleo, do fracasso econômico do general Ernesto Geisel e
da alta da inflação, que atingiu indistintamente a grande massa de
assalariados, inclusive os de classe média. O resultado foi uma surra do MDB no
partido do governo, a Arena, em novembro daquele ano. Historicamente, a noção
de “classes médias”, no plural, é central para compreender a política
brasileira.
A pesquisa Genial/Quaest, divulgada nessa
quarta-feira, mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com 42% e o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, com 40%, empatados tecnicamente em um eventual
segundo turno das eleições 2026. É a primeira vez na Quaest que o filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro ultrapassa Lula numericamente, embora em empate
técnico. Na pesquisa anterior, o percentual era de 41% cada. A vantagem do
presidente era de 10 pontos em dezembro, passou para sete em janeiro e para
cinco em fevereiro. Agora, em abril, Flávio tem vantagem de dois pontos diante
do petista.
O principal terreno da disputa entre ambos é esse estrato
heterogêneo, que vai da chamada classe C, com renda familiar entre cerca de R$
3 mil e R$ 10 mil, até a classe B, com rendimentos superiores e maior capital
educacional, aproximando-se da elite (classe A). Essa diversidade interna é
decisiva para entender o deslocamento desses segmentos para posições mais
críticas ao governo e mais abertas à oposição.
Do ponto de vista sociológico, há duas interpretações que
ajudam na análise desse movimento. Para o sociólogo Jessé Souza, a classe média
brasileira é marcada por um ethos de distinção e por uma visão moralizada da
política, frequentemente pautada pelo combate à corrupção e pela rejeição
simbólica às camadas populares. Já Marcelo Neri, a partir de uma abordagem
empírica baseada em renda e consumo, enfatiza a ascensão da “nova classe média”
durante os anos 2000, destacando sua sensibilidade a ciclos econômicos: quando
a renda cresce, ela tende a apoiar governos; quando o poder de compra se
deteriora, seu comportamento se torna mais volátil e crítico.
Dilema do meio
A pesquisa Quaest mostra o desgaste do governo Lula nos
estratos de renda intermediária e mais alta. Entre os que ganham mais de cinco
salários mínimos, faixa que concentra a classe média tradicional, a
desaprovação chega a 62%, contra apenas 35% de aprovação. Já entre aqueles com
renda entre dois e cinco salários mínimos, a chamada “nova classe média”, a
desaprovação também é majoritária, em torno de 57%, com aprovação de 38%.
A linha de sustentação do governo está ficando cada vez mais
restrita à base de renda mais baixa, com aprovação de 57% entre os que ganham
até dois salários mínimos. O lulismo continua ancorado nos segmentos populares,
principalmente os beneficiados pelas políticas de transferência renda. Porém,
enfrenta dificuldades crescentes no “meio” da pirâmide social. Isso se confirma
quando observamos a escolaridade: entre eleitores com ensino superior, a
desaprovação alcança 62%, contra apenas 34% de aprovação. Ou seja, a principal
perda de sustentação ocorre entre os mais escolarizados, característica das
classes médias urbanas.
A pesquisa indica percepção negativa sobre o custo de vida e
o poder de compra, especialmente entre os segmentos de renda intermediária.
Esse grupo é o mais exposto ao endividamento, à inflação de serviços e ao
encarecimento de itens essenciais, sem contar com a rede de proteção social que
beneficia os mais pobres. Trata-se do “dilema do meio”, ou seja, da
insatisfação dos indivíduos que não são pobres, mas, tampouco, conseguem
sustentar o padrão de vida da classe média tradicional.
Avançam os candidatos de oposição, como Flávio Bolsonaro,
que capitalizam o descontentamento econômico, as pautas da segurança e as
ineficiências do Estado, além da corrupção. A desaprovação ao governo é
particularmente elevada entre eleitores independentes — chegando a 57% contra
32% de aprovação —, um grupo onde a classe média tem peso significativo e que
costuma decidir eleições.
O enfraquecimento de Lula nas classes médias combina
percepção econômica negativa, frustração de expectativas e mudança de humor
político. É aí que chegamos à maldição da filósofa Marilena Chauí, professora
da USP, que descreve a classe média brasileira como portadora de uma
“consciência autoritária”, marcada pela aversão ao conflito social e pela
tendência a responsabilizar o Estado e os pobres por suas frustrações. A tese é
controversa, porém, faz sentido quando seus segmentos migram rapidamente para opções
políticas mais conservadoras.

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