É preciso que o próximo governo entenda a importância de
se estabelecer uma política permanente de geração de superávits nas contas
públicas
As discussões sobre a política fiscal estão presentes na
imprensa todos os dias. Debater os efeitos de medidas adotadas pelo governo ou
pelo Congresso, a probabilidade de cumprimento de regras fiscais e os efeitos
do gasto público sobre os juros é fundamental. Falta, contudo, uma discussão de
maior fôlego sobre o processo orçamentário brasileiro. Perdemos a capacidade de
planejar.
A Constituição Cidadã criou as bases para um processo
orçamentário transparente, público, equilibrado e planejado. O Plano Plurianual
(PPA), a Lei Orçamentária Anual (LOA) e a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)
são os três eixos dessa lógica. A questão central é a dificuldade de se
implantar, na prática, o projeto constitucional.
Veja-se o atual debate sobre as medidas
tomadas pelo governo para mitigar os efeitos da guerra no Irã sobre os preços
dos combustíveis. A cada dia, uma novidade. Não há um planejamento claro,
embora o Ministério da Fazenda tenha buscado, em todas as ações anunciadas, a
chamada neutralidade fiscal.
Na época da pandemia da covid-19, criou-se o chamado
orçamento de guerra, mesmo na presença de instrumentos constitucionais que
davam liberdade ao poder público para atuar por meio de créditos
extraordinários, por exemplo. No fim do período, o gasto extra acabou superando
todas as projeções e, em muitos casos, escoou pelo ralo.
Mesmo nos casos que não representam situações atípicas
(calamidade, guerra, desastre climático, etc.), como no próprio debate sobre as
emendas parlamentares, os orçamentos da saúde e da educação ou políticas
públicas de transporte, segurança, benefícios sociais e previdência, a falta de
planejamento também é evidente. Não se segue, para valer, o plano de voo do
PPA. Basta observar o destaque, na imprensa, para os temas ligados à meta
fiscal em comparação com os assuntos de longo prazo, de alocação orçamentária,
de eficiência e de eficácia nas diferentes políticas e programas.
O diagnóstico parece indicar que a necessidade, ainda
presente, de se forjar uma política fiscal madura, que não conviva com déficits
primários e nominais (com e sem gastos com juros, respectivamente), se sobrepõe
aos temas de maior fôlego. Complementarmente, o modus operandi da máquina
pública, em governos de diferentes matizes, baseia-se na lógica de apagar
incêndios.
O advento do novo arcabouço fiscal, por meio da Lei
Complementar n.º 200/2023, colaborou para trazer à letra da lei o compromisso
com revisões permanentes de gastos públicos e com a sustentabilidade da dívida
pública. Mas é pouco. A prática ainda está distante de um modelo orçamentário
completo, transparente, público e que permita à sociedade, por meio do
Congresso, principalmente, debater quanto se gasta em cada política e qual o
resultado obtido.
A reforma do Orçamento é mais importante do que o ajuste
fiscal de curto prazo. São temas que caminham de mãos dadas, é verdade, mas a
mera discussão de regras fiscais, com a qual estamos às voltas há quase 30
anos, não se esgota em si mesma. Sozinha, não está à altura do enfrentamento
dos problemas da economia nacional e do debate sobre o financiamento do
desenvolvimento social e econômico.
É preciso que o próximo governo entenda, de uma vez por
todas, a importância de se estabelecer uma política permanente de geração de
superávits nas contas públicas. Só assim vai abrir espaço político para um
olhar menos míope. É esse o passo zero para se promover um reequilíbrio
macroeconômico com juros mais baixos, aumento do investimento privado e
crescimento econômico maior.
Mas se trata apenas do passo zero. Ato contínuo, temos de
dar a batalha pela modernização da Lei n.º 4.320/1964, da época do governo João
Goulart, estabelecendo um novo marco para as finanças públicas nacionais. Isso
significa resgatar as enormes fatias de recursos públicos destinadas a emendas
parlamentares, avaliar todos os programas orçamentários, monitorar todas as
despesas públicas primárias e financeiras e estabelecer indicadores e padrões
para comunicar à sociedade os achados.
O piloto automático do Orçamento público chegou ao limite.
Os recursos destinados a investimentos públicos já tendem a zero, haja vista o
emblemático cenário apresentado nos anexos da LDO, que indicaram despesas
discricionárias (não obrigatórias) “negativas”. O crescimento do gasto
obrigatório é o cerne do problema.
O Orçamento deveria pautarse por um processo democrático de
discussão alocativa, junto ao Parlamento, a partir da iniciativa do Executivo,
como manda a Constituição. A cada ano, debater as prioridades, à luz do
planejamento de médio e longo prazo. O improviso é inaceitável diante de
tamanha escassez de recursos, com dívida pública e carga tributária nas
alturas.
Se essas são as duas fontes de financiamento, é preciso,
claro, melhorá-las, inclusive no quesito da progressividade. Por outro lado, a
continuidade de uma política fiscal e orçamentária geradora de déficits
sistemáticos já não combina com um país que se pretenda desenvolvido.

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