No Brasil, barramos a formação educacional de toda uma
geração
O Brasil percebe o custo do bloqueio no Estreito de Ormuz,
que impede o fluxo de navios com petróleo, mas parece não perceber os
obstáculos que impedem o fluxo de nossas crianças ao longo da educação de base,
dos ensinos fundamental e médio. É corte que subtrai um recurso seminal: o
conhecimento. Nosso Estreito de Ormuz interrompe a travessia de 80% dos
brasileiros em direção à conclusão do ensino médio com a qualidade necessária
para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Assim como o Irã faz com os
petroleiros em Ormuz, aqui barramos a formação de nossa população. Barramos o
progresso econômico por falta de produtividade, inovação e competitividade.
Ficamos presos na armadilha da baixa renda média; barramos o progresso social,
impedindo a distribuição da renda conforme o talento desenvolvido. No passado,
uma escrava grávida era um navio negreiro levando seu filho para a escravidão;
no presente, um brasileiro sem acesso à educação é um navio negreiro levando a
si próprio para a escravidão moderna.
Nas atuais condições de nosso sistema
escolar, dos 2,5 milhões de brasileiros que nasceram em 2025, 50 000 nem sequer serão
matriculados; 1 250 000 serão deixados para trás por
não concluírem a educação básica, analfabetos para a contemporaneidade; dos que
concluirão o ensino médio, no máximo 200 000
terão recebido formação que lhes forneça o “mapa” para buscar a própria
felicidade e as ferramentas para construir um país mais justo e eficiente. É
como se fechássemos nosso Estreito de Ormuz para três em cada quatro
brasileiros.
“Falta o sentimento nacional de que o conhecimento é o
recurso fundamental para o progresso”
O Brasil precisa de um sistema nacional de educação básica
no qual todos concluam essa etapa com máxima qualidade e absoluta equidade,
independentemente da renda e do endereço, e em que nenhuma criança ou jovem
seja bloqueado e impedido de receber o mais eficiente combustível do progresso:
educação, ciência, tecnologia.
Com 220 milhões de habitantes, a educação de qualidade para
todos permitiria elevar a produtividade e a renda nacional, colocando o Brasil
entre as cinco maiores economias nacionais, e a equidade permitiria a
distribuição justa dessa renda ampliada conforme o talento e o esforço pessoal.
Temos todos os instrumentos necessários para garantir a trajetória de nossa
população ao longo da educação: um idioma comum, o que facilita a educação
básica; 8 milhões de universitários, o que fortalece a base da produção intelectual;
um território integrado; um sistema de comunicação eficiente; e 185 000 escolas, com 2 milhões de
professores. Faltam o sentimento nacional de que o conhecimento é o recurso
fundamental para o progresso e a disposição de incluir todos os brasileiros em
um mesmo sistema educacional: abrir nosso Ormuz para todos e permitir que cada
cérebro avance em sua educação.
O outro Ormuz se fecha ou abre com bombas, o nosso se abre
construindo escolas. O Ormuz iraniano se fecha explodindo bombas, o nosso se
abriria instalando escolas de qualidade para todos. Acabaria a burocracia, o
protecionismo, o corporativismo, a instabilidade jurídica e a corrupção.
Bastaria dar a todo sistema escolar a mesma qualidade de nossas escolas e
institutos federais.
Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990

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