Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em
decorrência dos riscos psicossociais da labuta
A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório
apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada,
mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano,
aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais
da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por
trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo
autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego,
exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.
Às vésperas do Dia Mundial da Segurança e
Saúde no Trabalho, terça-feira que vem, a OIT põe o dedo numa ferida de impacto
não apenas humanitário, mas também econômico-financeiro. As perdas estimadas
com os riscos psicossociais equivalem a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) global, a cada
ano. Tudo resultado de como as atividades laborais são concebidas, organizadas
e geridas num mundo assentado em flexibilização e informalidade.
Para chegar ao número de mortes, os pesquisadores cruzaram
duas fontes de evidência. Primeiro, reuniram dados sobre a ocorrência global
dos cinco principais fatores de risco psicossocial no trabalho: pressão
excessiva; desequilíbrio entre esforço e recompensa; insegurança na
contratação; longas jornadas; bullying e assédio. Na sequência, identificaram
como esses fatores aumentam a probabilidade de condições graves de saúde, entre
as quais doenças cardiovasculares e transtornos mentais. Por fim, relacionaram
aos indicadores de mortalidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao
estudo Global Burden of Disease (Carga Global de Doenças, em tradução livre),
que quantifica perda de saúde por enfermidades, lesões e fatores de risco.
Além de quase 1 milhão de mortes, a OIT estimou 45 milhões
de anos de vida saudável perdidos por trabalhadores de todo o planeta. Longas
jornadas estão associadas a males do coração e acidente vascular cerebral.
Estima-se que um terço (35%) das pessoas ocupadas trabalhem mais de 48 horas
por semana. Ao longo da carreira, um em cada quatro trabalhadores (23%) sofreu
ao menos um episódio de assédio; 18% foram vítimas de violência psicológica.
Em publicação da entidade, Manal Azzi, da área de Políticas
e Sistemas de Segurança e Saúde no Trabalho, afirmou que “os riscos
psicossociais estão se tornando um dos desafios mais significativos no mundo
moderno do trabalho”. Assim, o enfrentamento ao problema é essencial tanto para
proteger a saúde física e mental dos trabalhadores quanto para fortalecer a
produtividade, o desempenho das empresas e o desenvolvimento sustentável dos
países.
O relatório merece atenção particular num Brasil com quase
40 milhões de trabalhadores na informalidade — a despeito do desemprego na
mínima histórica — e em pleno debate sobre redução de jornada para implantação
do regime de dois dias de folga por cinco de trabalho. Há um par de PECs
protocoladas no Congresso Nacional para alterar a legislação que, desde 1988,
fixou em 44 horas a carga semanal. Dias atrás, o governo apresentou Projeto de
Lei de teor assemelhado pedindo urgência na tramitação. O fim da escala 6x1
tornou-se plataforma de campanha do presidente Lula pelo quarto mandato. O
empresariado, de modo geral, resiste à mudança, sob o argumento de aumento de
custos e perda de produtividade na economia.
— A economia brasileira foi erigida por pessoas escravizadas
que nunca descansavam, morriam cedo e eram substituídas por outras, traficadas
a baixo custo. Até hoje, parte do país acredita que precisamos explorar mais
nossos trabalhadores para conseguir competir, mas foi com dois dias de descanso
que os Estados Unidos aumentaram a produtividade nos anos 1940. Aqui, a maioria
já descansa dois dias, mas isso não foi garantido para todos. Precisa ser. A
economia não quebrará, como não quebra com aumentos do salário mínimo de custo
similar, nem quebrou em 1988, quando a jornada máxima foi reduzida de 48 para
44 horas semanais. O mesmo foi dito quando se quis acabar com a escravidão ou
estabelecer outros direitos trabalhistas, que ajudaram a modernizar e fortalecer
a economia, melhorando a saúde da população — argumenta Marcos Hecksher,
pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Um ano atrás, o Ministério do Trabalho anunciou a inclusão
dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais,
após diálogos com representantes de trabalhadores e empregadores. O primeiro
ano foi de adaptação. A previsão é que, a partir do fim do mês que vem, as
normas passem a ser inspecionadas, com possibilidade de autuação. A OIT
mencionou no relatório a decisão brasileira.
O estudo da organização também aponta que jornadas com dois
dias seguidos de descanso favorecem o desligamento cognitivo. Isso significa
que o trabalhador pode usar um dia para descansar e outro para lazer e/ou
atividades pessoais. As pausas podem reduzir diagnóstico de burnout, já
classificado como doença laboral, e de outros males. Sem falar que, no
capitalismo, mais tempo para viver também implica horas adicionais de consumo
de mercadorias e serviços. Urge fazer das facilidades do mundo moderno e digitalizado
não apenas meio de lucratividade exagerada, mas ferramenta de bem-estar. Em vez
de pulsão de morte, impulso à (boa) vida.

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