Do Blog do Fucs
Uma eleição patética, realizada há poucos dias numa escola
pública de Salvador, revela muito da crise de valores que assola o país. Na
eleição, concluída na última terça-feira, dia 10, a dita “comunidade” do
Colégio Estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici, de Salvador, composta em
sua maioria por alunos, apoiou a mudança do nome da escola para Colégio
Estadual Carlos Marighella, em homenagem ao líder da Ação Libertadora Nacional
(ALN), cujo real objetivo, encarado com complacência pelas esquerdas, era
implantar a ditadura do proletariado no país.
Marighella, morto em 1969 pelo regime militar, derrotou o
geógrafo Milton Santos (1926-2001), que se dedicou ao estudo dos processos de
urbanização nos países em desenvolvimento. Agora, o resultado do pleito será
encaminhado à Secretaria Estadual de Educação da Bahia e, se depender do apoio
do diretor da escola, para quem a mudança representará sua “reinauguração”, ela
deverá ser aprovada sem restrições.
Não vou aqui defender o general Emílio Garrastazu Médici
(1905-1985), que deixou a tortura correr solta no país durante seu governo
(1969-1974) e teve entre seus vassalos o economista Antonio Delfim Netto, hoje
venerado pelos esquerdistas de todas as correntes, inclusive pela presidente
Dilma Rousseff, ela própria uma ex-terrorista, como Marighela. Não me alinho com aqueles que aceitam a
tortura e a imposição de restrições à democracia, sob qualquer justificativa.
Sei, porém, que muita gente de bem defendeu e defende até
hoje o regime representado pelo general Médici, por seus feitos para livrar o
Brasil do comunismo e da anarquia existente no seio das Forças Armadas no
início dos anos 1960. A “Revolução de
1964”, a Gloriosa, não foi apenas uma quartelada, como dizem muitos dos
opositores ao regime, mas um movimento com amplo apoio social, especialmente na
classe média, afetada pela inflação galopante, que roçava os 100% ao ano, e
assustada com as ameaças crescentes contra as liberdades democráticas, chamadas
de “burguesas” pelos comunistas, e contra a propriedade privada dos meios de
produção.
Até consigo entender que o nome de Médici não encha de
orgulho os estudantes de Salvador, nem o diretor do colégio em que eles
estudam. Agora, daí a escolher o nome de
um guerrilheiro como Marighella, que agia com base na máxima de Maquiavel,
segundo a qual “os fins justificavam os meios”, para batizar a escola, há uma
longa distância. É difícil aceitar a barbaridade perpetrada pelos pequenos
revolucionários soteropolitanos que pretendem “beatificar” Marighella e
transformá-lo em exemplo para as futuras gerações.
Entre tantos heróis brasileiros, que lutaram e lutam para
fazer do Brasil um país melhor, é frustrante constatar que, para os pimpolhos
de Salvador, não havia nome melhor do que o de Marighella para escolher.
Poderia ser um cientista, um artista, um empreendedor ou um trabalhador que
conseguiu prosperar na vida com o fruto de seu próprio suor. Ou até mesmo o
quase desconhecido (ao menos para mim) geógrafo Milton Santos. Mas não. Eles
preferiram prestar homenagem ao camarada Marighella, sabe-se lá por inspiração
de quem.
Não dá para aceitar também o poder conferido aos
adolescentes de Salvador para decidir o nome da escola. Daqui a pouco, qualquer
grupelho de alunos adolescentes, num dos rincões do Brasil, vai sugerir o nome
de Che Guevara para batizar sua escola. Ou então o de Mao Tsé Tung, o Grande
Timoneiro, responsável pela morte de milhões de chineses durante a Revolução
Cultural que ele liderou nos anos 1960. De repente, alguém também poderá
reivindicar que o Instituto Rio Branco, responsável pela formação dos
diplomatas brasileiros, mude de nome porque o Barão do Rio Branco liderou a
dizimação de milhares de paraguaios durante a Guerra do Paraguai. Triste do
país que tem como herói o senhor Carlos Marighella, ainda mais se seus
admiradores forem pouco mais que crianças em processo de desmama.
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