Luiz Carlos Azedo,
Correio Braziliense
A liderança de Tarcísio expressa a São Paulo pragmática,
voltada à gestão, à infraestrutura e à segurança, que dialoga com setores
médios e empresariais. Já na Bahia, o quadro eleitoral remete a outra tradição:
a do barroco crítico e satírico de Gregório de Matos
Tem certas coisas na política brasileira que merecem uma
leitura meio antropológica, digamos, pela força da cultura local. É o caso do
quadro eleitoral em São Paulo e na Bahia, quando analisado à luz de duas
matrizes profundas do país: o modernismo de Mário de Andrade e o barroco
satírico de Gregório de Matos. Mais do que referências literárias, ambos
expressam formas de perceber o poder, a sociedade e suas contradições.
A obra "Pauliceia Desvairada", publicada em 1922
por Mário de Andrade, é um marco fundador do modernismo brasileiro. Promoveu
uma ruptura estética e cultural com o passado, que traduzia em São Paulo a
vertiginosa transformação industrial, cosmopolita e socialmente fragmentada
daquele estado, onde o Convênio de Taubaté (1906) financiou a acelerada
modernização com recursos do café, enquanto em outros estados o patrimonialismo
está diretamente associado à decadência econômica, sobretudo após a crise do
café de 1929.
Com versos livres, Mario de Andrade captura
um mosaico de tensões, ambições e identidades em disputa: "As ruas se
cruzam num delírio de aço e de nervos,/ A cidade cresce como um organismo
febril,/ E o homem corre, fragmento perdido no tumulto". Essa São Paulo
"desvairada" — caótica, dinâmica e contraditória — é a mesma que se
revela no atual cenário eleitoral, no contrafluxo daquele que elegeu Tarcísio
de Freitas (Republicanos) governador de São Paulo, em 2022. A vitória do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva na megalópole paulista, porém, foi muito
importante para a sua volta à Presidência.
A liderança de Tarcísio, com cerca de 38% das intenções de
voto, expressa a São Paulo pragmática, voltada à gestão, à infraestrutura e à
segurança, que dialoga com setores médios e empresariais. Contudo, o
crescimento de Fernando Haddad (PT), que aparece com 26% e mantém forte
presença entre mulheres e eleitores mais velhos, revela a persistência da outra
São Paulo, mais social, mais estatal, mais sensível às políticas públicas e à
inclusão.
Essa dualidade é tipicamente modernista: não há síntese, mas
coexistência de contrários. A capital paulista, em particular, amplifica essa
tensão. É nela que se destaca a candidatura ao Senado de Simone Tebet (PSB),
que lidera cenários com cerca de 14% a 15% das intenções, e ocupa um espaço de
centro político que dialoga com a pluralidade urbana. Sua força na cidade
reflete a busca por moderação e racionalidade institucional, em contraste com a
polarização nacional.
O que surpreende não é o favoritismo de Tarcísio, mas a
capacidade de resiliência e reorganização do campo progressista, representado
por Haddad e por candidaturas ao Senado mais alinhadas à centro-esquerda, que
acena ao centro por meio de Tebet. São Paulo continua, como na leitura de Mário
de Andrade, um organismo vivo, em permanente mutação, onde o novo não elimina o
velho — reconfigura.
Personalismo estruturado
Já na Bahia, o quadro eleitoral remete a outra tradição: a
do barroco crítico e satírico de Gregório de Matos. Nascido em Salvador no
século XVII, o poeta — conhecido como "Boca do Inferno" — fez da
linguagem uma arma contra o poder estabelecido, denunciou a corrupção, a
hipocrisia e os vícios da elite colonial. Sua obra é marcada pela ironia mais
mordaz: "Que falta nesta cidade?... Verdade./ Que mais por sua desonra?...
Honra./ Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha". Trata-se de uma
sociedade profundamente hierarquizada, tensionada por conflitos sociais e
políticos latentes.
A herança barroca ajuda a compreender a persistência de
estruturas políticas tradicionais na Bahia, especialmente o chamado carlismo,
tradicionalmente influente no interior, hoje representado por ACM Neto (União),
cujo principal patrimônio eleitoral, porém, está fortemente enraizado em
Salvador, onde foi prefeito de 2013 a 2020. Com cerca de 41% das intenções de
voto, ele lidera numericamente, em empate técnico com o atual governador
Jerônimo Rodrigues (PT), que aparece com cerca de 36% a 37%.
Será exagero afirmar que o cenário eleitoral baiano reflete
um barroquismo político, marcado por contrastes, continuidades e ambiguidades?
De um lado, o carlismo renovado, que se apresenta como alternativa de gestão,
mas carrega a herança de um sistema político tradicional. De outro, a força do
petismo, ancorada em políticas sociais e na liderança de Lula, que mantém
elevada influência no estado.
A resiliência dessas duas forças, como na poesia de Gregório
de Matos, desnuda modernização econômica sem ruptura completa com estruturas de
poder tradicionais e desigualdades persistentes. A política baiana não se
organiza em torno de uma ruptura modernista, como em São Paulo, mas de uma
tensão barroca, em que o novo, quando se sobrepõe, não consegue erradicar o
antigo.
Não uma exclusividade baiana, a singularidade está no
"modo de fazer política", que não pode ser reduzido a caricaturas de
personalismo ou atraso. Na leitura do cientista político Paulo Fábio Dantas
Neto, é um sistema sofisticado, historicamente moldado, que combina forte
enraizamento territorial e um personalismo estruturado, com redes políticas
duradouras, baseadas na lealdade, na mediação de interesses e na capilaridade.