sábado, 2 de maio de 2026

MORRE RAIMUNDO RODRIGUES PEREIRA

Do g1 Rio

Jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morre no Rio aos 85 anos

Um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira, Raimundo foi uma figura central na resistência democrática durante o período da ditadura militar no país.

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu na manhã deste sábado (2), no Rio, aos 85 anos. Um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira, Raimundo foi uma figura central na resistência democrática durante a ditadura militar no país. O corpo do jornalista será cremado no domingo (3), no Cemitério da Penitência, no Caju.

Pernambucano de Exu, Raimundo construiu uma trajetória marcada pela defesa de um jornalismo crítico e independente, voltado, segundo suas próprias palavras, à “elevação do padrão material e cultural do povo”.

Ao longo da carreira, ele passou por veículos de grande prestígio, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade das reportagens e pela profundidade das análises. Foi, no entanto, na chamada imprensa alternativa que consolidou seu papel histórico.

Luta pela democracia

Durante a ditadura militar no Brasil, período marcado por censura e repressão, integrou uma geração de jornalistas que enfrentou o autoritarismo com informação, análise crítica e defesa da democracia.

Fundado em 1975, o jornal Movimento tornou-se um dos principais símbolos dessa resistência. Sob a liderança de Raimundo, o veículo ganhou destaque ao denunciar abusos do regime e ao construir uma narrativa crítica em defesa das liberdades democráticas. Mais do que um jornal, o Movimento funcionou como espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas pela repressão.

A atuação do periódico ocorreu sob forte pressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em diversas edições, espaços em branco evidenciavam a interferência do regime e a limitação à liberdade de imprensa. Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como instrumento de transformação social.

Em uma fase posterior da carreira, criou o projeto “Retrato do Brasil”, voltado à interpretação da realidade nacional, reunindo reportagens aprofundadas e análises estruturais sobre o país.

Raimundo deixa um legado que se confunde com a própria história da resistência democrática no Brasil. O jornal Movimento permanece como símbolo de um período em que exercer o jornalismo exigia coragem e compromisso com a informação.

 

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

MORAES E ALCOLUMBRE UNIRAM FORÇAS

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Moraes e Alcolumbre uniram forças para mostrar que petista depende deles para governar

O ministro Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, uniram forças e mostram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que ele perdeu condições de governar e virou refém.

Depois de não emplacar um ministro para a Suprema Corte em 132 anos com a derrota de Jorge Messias, a derrubada de veto do PL da Dosimetria foi só mais um passo.

Moraes não perdoava Lula por ter dito que “quem quer enriquecer tem que sair do Supremo”, um sinal inequívoco de que o petista ameaçava soltar a mão do ministro em meio ao escândalo do banco Master.

Somado a isso, Messias deixou claro que era contra o interminável inquérito das fake news e se aproximou do ministro André Mendonça. Eram todas evidências da insatisfação de Lula com o estrago feito pelo caso Master em sua campanha.

Os petistas sabem que alguma reforma do Judiciário seria inevitável, mesmo em caso de reeleição de Lula. Moraes não quis cair sozinho, afinal foi o Supremo que garantiu a governabilidade do presidente durante todo seu terceiro mandato, quando o Congresso derrubava suas medidas econômicas.

Moraes é muito próximo de Alcolumbre, e o presidente do Senado também estava disposto a cobrar a fatura. Dado que o Senado também segurava as pontas quando os deputados aprovavam projetos ruins, sentiu-se no direito de tomar a prerrogativa presidencial de indicar um ministro do STF.

Alcolumbre nunca engoliu a negativa de Lula de não indicar Rodrigo Pacheco, em vez de Messias. Trabalhou na surdina e intensamente. Conforme mapeamento do governo, conseguiu PP, União Brasil, PSD e parte do MDB. Humilhou o governo, que não tem condições de reagir.

Contaram ainda com o surpreendente apoio de Flávio Dino, que deve sua cadeira no Supremo a Lula e foi ministro do governo, mas se deixou levar por rinha com Messias da época em que ambos disputavam a vaga no STF. No campo petista, o ressentimento é grande.

Pessoas próximas a Dino e Moraes negam qualquer articulação, mas, no Planalto, existe a convicção de que os dois atuaram. Para essas fontes, Dino acreditava que Lula não deveria ter enviado o nome de Messias e Moraes se absteve de atuar dada sua proximidade com Alcolumbre.

O que importa agora, porém, é o enfraquecimento do governo. Lula e Moraes partem para um abraço de afogados. Sem se desvencilhar do ministro e do caso Master, Lula terá dificuldades de atrair o centro e vencer a eleição. A derrota de Messias será, inclusive, utilizada na campanha. Moraes pode até tentar se aproximar do précandidato da oposição Flávio Bolsonaro (PL), mas a base bolsonarista nunca o perdoará. •

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ATALHO CONSERVADOR AO SUPREMO

Pablo Ortellado, O Globo

Rejeição de Messias cria atalho conservador ao Supremo

Direita ganhou a oportunidade de construir maioria no STF se vencer a próxima disputa presidencial

Com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo e a sinalização de Davi Alcolumbre de que não deverá pautar uma nova indicação antes da eleição, a direita ganhou a oportunidade de construir maioria no STF se vencer a próxima disputa presidencial.

Além da vaga atual, três outros ministros — Luiz FuxCármen Lúcia e Gilmar Mendes — se aposentam no decorrer do próximo mandato presidencial. Essas quatro indicações, somadas às duas feitas por Jair Bolsonaro (Kassio Nunes Marques e André Mendonça), formariam uma maioria conservadora de seis dos 11 ministros. Ela poderia ainda ser engrossada com mais uma ou duas vagas se a direita obtiver o impeachment de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

O horizonte de maioria conservadora no Supremo anima a direita brasileira, que assistiu ao impacto do respaldo que a Suprema Corte conservadora tem dado a Donald Trump nos Estados Unidos.

Em 2024, a Corte decidiu que presidentes desfrutam imunidade por atos cometidos dentro de sua autoridade constitucional. Isso significa que, nesse domínio, está imune à lei penal — sob o argumento de que processar um ex-presidente por essas ações “inibiria uma ação presidencial vigorosa”.

A Suprema Corte também respaldou a visão de que o presidente tem controle total sobre agências e funcionários do Executivo — base para as demissões em massa da era Doge (sigla em inglês do Departamento de Eficiência Governamental) e para a demissão de integrantes de comissões independentes. Além disso, decidiu que juízes federais de primeira instância não têm o poder de emitir ordens que bloqueiem leis ou políticas federais, eliminando o principal instrumento que magistrados usavam para paralisar medidas do Executivo.

O apoio da Suprema Corte a um governo de direita que busca expandir os poderes do Executivo é o sonho dos conservadores brasileiros. Mas, nos Estados Unidos, esse projeto foi levado a cabo com muito empenho por mais de 40 anos. Começou com a fundação da Sociedade Federalista, formada em 1982 por um pequeno grupo de estudantes de Direito de Harvard, Yale e Chicago para reverter o isolamento dos conservadores nas universidades de elite. No decorrer dos anos, a sociedade se expandiu para quase todas as universidades importantes e, em seguida, estabeleceu grupos profissionais de advogados e revistas especializadas, criando uma contraelite intelectual e profissional capaz de desafiar a ortodoxia liberal nas instituições jurídicas.

Essa rede adotou uma teoria chamada “originalismo”, que combate o ativismo judicial. A corrente defende que a interpretação da Constituição deve começar pelo texto e ser elucidada pelas evidências do que se entendia por aquelas palavras à época da ratificação. Opõe-se à ideia de que os juízes podem atualizar o significado da Constituição com base em preferências sociais ou ideologias contemporâneas.

Ao congelar o significado da Constituição americana no período em que foi escrita — final do século XVIII —, o originalismo torna ilegítima, por definição, a expansão de direitos produzida pelo ativismo judicial progressista dos séculos XX e XXI, como direito ao aborto, direito à privacidade e direito das populações LGBT+, entendidos como imperativos constitucionais.

Embora o originalismo tenha sido concebido para intervir politicamente no debate constitucional, ele se apresenta como o oposto de uma posição política. Seu argumento central é que os juízes conservadores não impõem — ao contrário, os magistrados progressistas é que impõem os deles. O originalismo deu aos ministros conservadores uma cobertura doutrinária para decidir politicamente sem parecer que decidiam politicamente.

Tudo isso, claro, está muito distante do que acontece no Brasil. Aqui, os juristas conservadores mal se organizaram politicamente, muito menos desenvolveram uma teoria jurídica contemporânea capaz de influenciar amplamente a doutrina. Ives Gandra Martins, jurista ligado ao Opus Dei, desenvolveu uma teoria jusnaturalista católica e uma rede de organizações conservadoras que têm incidido em temas como aborto, homeschooling, Direito da família e liberdade religiosa. Mas esse grupo nunca teve ampla penetração nas universidades de elite, nas instituições do Direito e na doutrina convencional, como aconteceu com os federalistas americanos.

Além disso, se a abordagem originalista nos Estados Unidos empurra para uma interpretação conservadora da Constituição de 1787, no Brasil a interpretação originalista da Constituição de 1988 empurraria o intérprete de volta ao projeto progressista de uma Carta voltada à proteção social.

Sem os meios intelectuais e sem a paciência histórica de fazer o caminho dos originalistas americanos, os conservadores brasileiros pretendem tomar um atalho que passa por indicar para a Corte juristas alinhados politicamente. O risco do atalho é que, sem cobertura doutrinária, a captura do Supremo será imediatamente legível como captura — aprofundando a politização do tribunal que os próprios conservadores denunciam, sem a ficção de neutralidade que fez a estratégia americana perdurar por décadas.

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FLÁVIO BOLSONARO SOBE NO SALTO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Flávio Bolsonaro sobe no salto e canta vitória a cinco meses da eleição

Empolgado com vitórias no Congresso, senador se antecipa às urnas e decreta fim do governo Lula

O bolsonarismo viveu a melhor semana desde a derrota do capitão nas urnas. Na noite de quarta, o Senado quebrou tradição de 132 anos e rejeitou uma indicação ao Supremo Tribunal Federal. Menos de 24 horas depois, o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto que reduz as penas dos golpistas.

Empolgado com os resultados, o senador Flávio Bolsonaro cantou vitória antecipada nas eleições de outubro. “O governo Lula acabou”, decretou, após a reprovação de Jorge Messias. Ontem ele avisou que já tem “vários nomes” para indicar ao Supremo. Estimulado a decliná-los, disse: “Não vou antecipar isso, não sou presidente ainda”.

Pesquisas recentes apontam um empate técnico entre Lula e Flávio nas simulações de segundo turno. Os dois também ostentam índices de rejeição quase idênticos, o que sugere uma disputa equilibrada e com desfecho imprevisível. Ao subir no salto, o filho de Bolsonaro passa a impressão de que já se considera eleito. A soberba pode cobrar um preço alto à sua campanha.

Em declarações sopradas por marqueteiros, Flávio vinha se apresentando como um “Bolsonaro vacinado”, que não teria herdado o extremismo do pai. Ontem ele escancarou que o famigerado PL da Dosimetria foi apenas um passo para garantir impunidade aos golpistas. A meta é emplacar uma anistia que tire Jair da prisão até o fim do ano, “para que ele possa subir a rampa comigo”.

O senador também saiu do script ao ser provocado pela deputada Talíria Petrone, que citou seus laços com o miliciano Adriano da Nóbrega. Disse que o ex-PM, segurança de bicheiros e matador de aluguel, era visto como “grande exemplo para sua tropa”. Deixou de mencionar que ele já estava preso por homicídio, o que levou Flávio a entregar a condecoração na cadeia.

Depois de pular e dançar no plenário e receber um caloroso abraço de Davi Alcolumbre, o presidenciável voltou ontem à prisão. Foi visitar o pai no cárcere domiciliar em Brasília. Na saída, informou que Jair está “muito feliz” com as notícias do Congresso.

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O MODERNISMO E O BARROCO NAS ELEIÇÕES DE SÃO PAULO E BAHIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A liderança de Tarcísio expressa a São Paulo pragmática, voltada à gestão, à infraestrutura e à segurança, que dialoga com setores médios e empresariais. Já na Bahia, o quadro eleitoral remete a outra tradição: a do barroco crítico e satírico de Gregório de Matos

Tem certas coisas na política brasileira que merecem uma leitura meio antropológica, digamos, pela força da cultura local. É o caso do quadro eleitoral em São Paulo e na Bahia, quando analisado à luz de duas matrizes profundas do país: o modernismo de Mário de Andrade e o barroco satírico de Gregório de Matos. Mais do que referências literárias, ambos expressam formas de perceber o poder, a sociedade e suas contradições.

A obra "Pauliceia Desvairada", publicada em 1922 por Mário de Andrade, é um marco fundador do modernismo brasileiro. Promoveu uma ruptura estética e cultural com o passado, que traduzia em São Paulo a vertiginosa transformação industrial, cosmopolita e socialmente fragmentada daquele estado, onde o Convênio de Taubaté (1906) financiou a acelerada modernização com recursos do café, enquanto em outros estados o patrimonialismo está diretamente associado à decadência econômica, sobretudo após a crise do café de 1929.

Com versos livres, Mario de Andrade captura um mosaico de tensões, ambições e identidades em disputa: "As ruas se cruzam num delírio de aço e de nervos,/ A cidade cresce como um organismo febril,/ E o homem corre, fragmento perdido no tumulto". Essa São Paulo "desvairada" — caótica, dinâmica e contraditória — é a mesma que se revela no atual cenário eleitoral, no contrafluxo daquele que elegeu Tarcísio de Freitas (Republicanos) governador de São Paulo, em 2022. A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na megalópole paulista, porém, foi muito importante para a sua volta à Presidência.

A liderança de Tarcísio, com cerca de 38% das intenções de voto, expressa a São Paulo pragmática, voltada à gestão, à infraestrutura e à segurança, que dialoga com setores médios e empresariais. Contudo, o crescimento de Fernando Haddad (PT), que aparece com 26% e mantém forte presença entre mulheres e eleitores mais velhos, revela a persistência da outra São Paulo, mais social, mais estatal, mais sensível às políticas públicas e à inclusão.

Essa dualidade é tipicamente modernista: não há síntese, mas coexistência de contrários. A capital paulista, em particular, amplifica essa tensão. É nela que se destaca a candidatura ao Senado de Simone Tebet (PSB), que lidera cenários com cerca de 14% a 15% das intenções, e ocupa um espaço de centro político que dialoga com a pluralidade urbana. Sua força na cidade reflete a busca por moderação e racionalidade institucional, em contraste com a polarização nacional.

O que surpreende não é o favoritismo de Tarcísio, mas a capacidade de resiliência e reorganização do campo progressista, representado por Haddad e por candidaturas ao Senado mais alinhadas à centro-esquerda, que acena ao centro por meio de Tebet. São Paulo continua, como na leitura de Mário de Andrade, um organismo vivo, em permanente mutação, onde o novo não elimina o velho — reconfigura.

Personalismo estruturado

Já na Bahia, o quadro eleitoral remete a outra tradição: a do barroco crítico e satírico de Gregório de Matos. Nascido em Salvador no século XVII, o poeta — conhecido como "Boca do Inferno" — fez da linguagem uma arma contra o poder estabelecido, denunciou a corrupção, a hipocrisia e os vícios da elite colonial. Sua obra é marcada pela ironia mais mordaz: "Que falta nesta cidade?... Verdade./ Que mais por sua desonra?... Honra./ Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha". Trata-se de uma sociedade profundamente hierarquizada, tensionada por conflitos sociais e políticos latentes.

A herança barroca ajuda a compreender a persistência de estruturas políticas tradicionais na Bahia, especialmente o chamado carlismo, tradicionalmente influente no interior, hoje representado por ACM Neto (União), cujo principal patrimônio eleitoral, porém, está fortemente enraizado em Salvador, onde foi prefeito de 2013 a 2020. Com cerca de 41% das intenções de voto, ele lidera numericamente, em empate técnico com o atual governador Jerônimo Rodrigues (PT), que aparece com cerca de 36% a 37%.

Será exagero afirmar que o cenário eleitoral baiano reflete um barroquismo político, marcado por contrastes, continuidades e ambiguidades? De um lado, o carlismo renovado, que se apresenta como alternativa de gestão, mas carrega a herança de um sistema político tradicional. De outro, a força do petismo, ancorada em políticas sociais e na liderança de Lula, que mantém elevada influência no estado.

A resiliência dessas duas forças, como na poesia de Gregório de Matos, desnuda modernização econômica sem ruptura completa com estruturas de poder tradicionais e desigualdades persistentes. A política baiana não se organiza em torno de uma ruptura modernista, como em São Paulo, mas de uma tensão barroca, em que o novo, quando se sobrepõe, não consegue erradicar o antigo.

Não uma exclusividade baiana, a singularidade está no "modo de fazer política", que não pode ser reduzido a caricaturas de personalismo ou atraso. Na leitura do cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, é um sistema sofisticado, historicamente moldado, que combina forte enraizamento territorial e um personalismo estruturado, com redes políticas duradouras, baseadas na lealdade, na mediação de interesses e na capilaridade.

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TRABALHAR PARA VIVER, NÃO VIVER PARA TRABALHAR

Luiz Marinho*, Correio Braziliense

A escala 6 X 1 é um sistema que drena energia, patrocina a perda de tempo de convivência familiar, reduz a qualidade de vida e limita o potencial produtivo

Quando debatemos o fim da escala 6 X 1 no Brasil, estamos, no fundo, discutindo o tempo: o tempo dedicado ao trabalho, ao descanso e, sobretudo, à vida. Trata-se de uma escolha sobre o tipo de país que queremos construir — um país que valoriza o trabalho digno ou que mantém um modelo ultrapassado, herdado do século passado, que já não se sustenta.

A escala 6 X 1 surgiu em um contexto de baixa tecnologia aplicada ao mundo do trabalho, em que a produtividade dependia da presença contínua do trabalhador e da trabalhadora. Hoje, essa lógica não se aplica. O resultado é outro: exaustão e adoecimento. É um sistema que drena energia, patrocina a perda de tempo de convivência familiar, reduz a qualidade de vida e limita o potencial produtivo.

Os dados são claros. Análise do eSocial em dezembro de 2025, com base em 50,3 milhões de vínculos, mostra que, embora 74% dos trabalhadores formais tenham contratos de 44 horas semanais, 66,8% já operam no regime 5 x 2, enquanto 33,2% ainda estão presos à escala 6 X 1. Ou seja, não se trata de necessidade econômica — é uma escolha cultural. E mais: essa incidência praticamente não varia entre médias e grandes empresas, o que reforça que não é o tamanho do negócio que determina essa prática.

Manter a 6 X 1 gera custos ocultos.  Jornadas longas aumentam o estresse, reduzem o sono e elevam riscos de acidentes. Trabalhadores mais cansados faltam mais, produzem menos e têm maior dificuldade de aprendizado. A rotatividade cresce, elevando custos com demissões, contratações e treinamento. Descansar não é o oposto de produzir — é condição para produzir melhor, com mais qualidade e mais eficiência.

A transição é possível e responsável. O impacto direto estimado é de 4,7% na massa salarial, valor plenamente absorvível pela economia brasileira. O risco de aumento expressivo de horas extras é limitado: mais da metade dos trabalhadores não recebe horas extras e, entre os que recebem, a média é de apenas três horas semanais. E os ganhos são concretos: estudo da Fundação Getulio Vargas, também de 2025, com 19 empresas mostra que 72% aumentaram a receita e 44% melhoraram o cumprimento de prazos após reduzir a jornada.

O mundo já avançou. A Islândia registrou crescimento econômico com redução da jornada. No Japão, a Microsoft teve aumento de 40% na produtividade com semana de quatro dias. Na América Latina, Chile e Equador lideram esse movimento, demonstrando que é possível conciliar competitividade com qualidade de vida.

O presidente Lula já enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei com urgência constitucional para enfrentar essa questão. A proposta representa um passo decisivo para retirar a escala 6 X 1 como padrão e valorizar o descanso, fortalecendo a negociação coletiva e modernizando as relações de trabalho no Brasil.

Estamos falando de um projeto de país. Um Brasil que cresce com pessoas inteiras, não exauridas. Um país que entende que tempo livre também movimenta a economia, fortalece vínculos sociais e melhora a vida em comunidade.

O tempo de viver é agora. Trabalhar não pode significar abrir mão da vida. Os parlamentares aprovarem essa proposta representa dar um passo necessário rumo a um país mais justo, mais produtivo e mais humano.

*Luiz Marinho — ministro do Trabalho e Emprego

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