Na edição desta semana da revista “Carta Capital”, o
jornalista Mauricio Dias dedica uma página para apontar a falta de gratidão
que, segundo ele, caracteriza minha pessoa. Num texto cheio de inverdades sob o
título “Um Retrato de Marina”, cita dois episódios ocorridos no período em que
eu sofria os malefícios da contaminação por mercúrio, na década de 1990. Bastaria
o jornalista, ao menos, ter me ligado para que eu esclarecesse as situações
citadas. Não o fez -o que é estranho e me faz suspeitar de suas reais
intenções-, por isso devo eu mesma relatar os fatos para repor a verdade.
Em 1991, quando passei a ter desmaios, tremores, crises
alérgicas e outros padecimentos, passei a morar na casa da minha sogra, no
bairro do Boqueirão, em Santos (SP), em busca de serviço médico especializado
que não encontrava no Acre. Durante um ano e oito meses, fiz uma infinidade de
exames no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, todos bancados por mim, sem
que os médicos chegassem a um veredito sobre as causas de minha enfermidade. Ao
ler um artigo numa revista médica sobre as consequências da presença de
mercúrio no sangue, que provocava sintomas semelhantes aos meus, procurei o
autor do texto que, então, me indicou dois especialistas no assunto, os
doutores José Maria de Melo Barros de Santos, já falecido, e Efraim Osvalde, de
São Paulo. Foram os dois que tomaram a iniciativa de enviar amostras de meu
cabelo a um laboratório nos Estados Unidos, exames pagos novamente por mim e
que confirmaram a presença de mercúrio em níveis elevados.
Não é verdade, portanto, que o diagnóstico da presença da
substância “só foi dado a partir da perícia médica de David Capistrano Filho”,
ex-secretário de Saúde e ex-prefeito de Santos, como diz Mauricio Dias.
Reconheço ter recorrido muitas vezes às Policlínicas da cidade litorânea
criadas por Capistrano, mas sempre por meio de agendamentos feitos por telefone
ou, em crises mais agudas, recorrendo ao pronto-socorro, comportamento de
qualquer cidadão que precisa de atendimento no serviço público.
Em 1997, já senadora pelo PT e ainda sofrendo da
contaminação por mercúrio, fui aconselhada a fazer tratamento no Massachusetts
General Hospital, em Boston. Sabedora de que o Senado havia pago as despesas de
um tratamento nos Estados Unidos do senador Flaviano Melo, que havia sofrido um
derrame, pedi ao líder de nossa bancada, Eduardo Suplicy, que solicitasse à
Mesa que procedesse da mesma maneira em relação a meu caso. Não foi feito
nenhum favor, apenas aplicou-se o princípio da isonomia.
Aprendi, como se dizia no PT daquela época, que o acesso aos
serviços de saúde não são favores, mas um direito dos cidadãos. Agora dizem que
é “ingratidão” ter idéias próprias e não ser submissa às ordens de quem se
julga dono do Estado.
É esse preconceito que Mauricio Dias dissemina ao deixar de
cumprir regra básica do bom jornalismo, promovendo um desserviço aos leitores
de “Carta Capital” e ao debate democrático.

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