terça-feira, 10 de dezembro de 2013

AS INVERDADES DO COLUNISTA DE "CARTA CAPITAL"

Do site da ex-senadora Marina Silva
Na edição desta semana da revista “Carta Capital”, o jornalista Mauricio Dias dedica uma página para apontar a falta de gratidão que, segundo ele, caracteriza minha pessoa. Num texto cheio de inverdades sob o título “Um Retrato de Marina”, cita dois episódios ocorridos no período em que eu sofria os malefícios da contaminação por mercúrio, na década de 1990. Bastaria o jornalista, ao menos, ter me ligado para que eu esclarecesse as situações citadas. Não o fez -o que é estranho e me faz suspeitar de suas reais intenções-, por isso devo eu mesma relatar os fatos para repor a verdade.
Em 1991, quando passei a ter desmaios, tremores, crises alérgicas e outros padecimentos, passei a morar na casa da minha sogra, no bairro do Boqueirão, em Santos (SP), em busca de serviço médico especializado que não encontrava no Acre. Durante um ano e oito meses, fiz uma infinidade de exames no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, todos bancados por mim, sem que os médicos chegassem a um veredito sobre as causas de minha enfermidade. Ao ler um artigo numa revista médica sobre as consequências da presença de mercúrio no sangue, que provocava sintomas semelhantes aos meus, procurei o autor do texto que, então, me indicou dois especialistas no assunto, os doutores José Maria de Melo Barros de Santos, já falecido, e Efraim Osvalde, de São Paulo. Foram os dois que tomaram a iniciativa de enviar amostras de meu cabelo a um laboratório nos Estados Unidos, exames pagos novamente por mim e que confirmaram a presença de mercúrio em níveis elevados.
Não é verdade, portanto, que o diagnóstico da presença da substância “só foi dado a partir da perícia médica de David Capistrano Filho”, ex-secretário de Saúde e ex-prefeito de Santos, como diz Mauricio Dias. Reconheço ter recorrido muitas vezes às Policlínicas da cidade litorânea criadas por Capistrano, mas sempre por meio de agendamentos feitos por telefone ou, em crises mais agudas, recorrendo ao pronto-socorro, comportamento de qualquer cidadão que precisa de atendimento no serviço público.
Em 1997, já senadora pelo PT e ainda sofrendo da contaminação por mercúrio, fui aconselhada a fazer tratamento no Massachusetts General Hospital, em Boston. Sabedora de que o Senado havia pago as despesas de um tratamento nos Estados Unidos do senador Flaviano Melo, que havia sofrido um derrame, pedi ao líder de nossa bancada, Eduardo Suplicy, que solicitasse à Mesa que procedesse da mesma maneira em relação a meu caso. Não foi feito nenhum favor, apenas aplicou-se o princípio da isonomia.
Aprendi, como se dizia no PT daquela época, que o acesso aos serviços de saúde não são favores, mas um direito dos cidadãos. Agora dizem que é “ingratidão” ter idéias próprias e não ser submissa às ordens de quem se julga dono do Estado.
É esse preconceito que Mauricio Dias dissemina ao deixar de cumprir regra básica do bom jornalismo, promovendo um desserviço aos leitores de  “Carta Capital”  e ao debate democrático.
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