quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

FINANCIAMENTO DE CAMPANHA

Brasília - Apesar da defesa crescente da mídia conservadora de que a discussão sobre o financiamento das campanhas eleitorais deve ser prerrogativa exclusiva do Congresso, diferentes partidos de esquerda atestam a legitimidade do Supremo Tribunal Federal (STF) para julgar a constitucionalidade dos dispositivos legais que permitem as doações de empresas, além das contribuições de pessoas físicas e de candidatos sem teto máximo, a partir da ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Para representantes do PT e do PSOL, se for confirmada a tendência da corte de proibir as doações de empresas e estipular teto para as doações de pessoas físicas, a democracia brasileira só terá a ganhar: partidos menores terão mais condições de igualdade para enfrentar as disputas, enquanto os grandes tenderão a recuperar seu caráter mais ideológico. Eles ressaltam, porém, que outras discussões relativas à reforma política precisam, sim, serem enfrentadas pelo parlamento.
Para  o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), o STF não está invadindo as prerrogativas do Congresso, mas sim atuando em um vácuo deixado justamente pela omissão legislativa. “O STF foi legitimamente provocado pela OAB, tendo em vista a omissão do próprio parlamento ao não enfrentar o assunto”, avalia. Para ele, a proibição das doações das empresas é positiva e, por isso, bandeira histórica do seu partido. “Hoje, é o poder econômico quem manda nas eleições, em detrimento da soberania popular”, afirmou.
O deputado Henrique Fontana (PT-RS), que conduziu a discussão da reforma política na Câmara por dois anos e já apresentou projeto de lei enfrentando justamente os pontos destacados na ação da OAB, corrobora com a visão do companheiro de partido. “A OAB, de maneira institucional, propõe uma ação de inconstitucionalidade com muita consistência. Da mesma forma, os votos apresentados até agora por quatro ministros também se mostraram muito consistentes”, analisou.
Para ele, a mudança proposta fortalece os partidos e, consequentemente, o verdadeiro debate ideológico. “Se retirarmos o poder econômico das eleições, o que vai restar é o debate de ideias, as análises dos currículos dos candidatos. Eu não tenho dúvida de que isso vai melhorar muito a cultura política do país e, consequentemente, a do PT também”, destacou.
Presidente recém-eleito do PSOL, Luiz Araújo acredita que o financiamento das empresas deturpa o processo eleitoral, ao dar condições diferenciadas aos candidatos e condicioná-los a retribuir o apoio quando eleitos. “Ninguém dá dinheiro para uma campanha eleitoral de forma desinteressada. O modelo atual favorece os interesses escusos, como comprovam os sucessivos escândalos em todos os níveis da política brasileira. A CPI do Cachoeira mostrou que, no sistema atual, é possível se criar uma rede de favorecimentos, inclusive dentro da legalidade”, afirma.
Ele ressalta, entretanto, que o grosso das doações das empresas ainda são feitas ilegalmente, via caixa dois. Por isso, defende que, para melhorar o sistema eleitoral brasileiro, serão necessárias também medidas que aprimorem os mecanismos de controle. “A mesma CPI do Cachoeira provou que as doações declaradas de empresas são as exceções da regra”, exemplificou.
Araújo acrescentou, ainda, que a importância do STF enfrentar o tema se justifica pelo fato de que atuais deputados e senadores não vão acabar com o sistema viciado que os elegeu. “O Congresso que temos hoje não fez e não irá fazer a reforma política que queremos. Aliás, todas as reformas já feitas pelo Congresso são para prejudicar os partidos ideológicos, perenizar os grandes ou favorecer as legendas de aluguel”, denuncia.                   
A tese de Gilmar Mendes
O deputado Henrique Fontana contestou o argumentou levantado pelo ministro Gilmar Mendes, durante o julgamento, de que a aprovação do fim do financiamento das campanhas eleitorais por empresas seria mais uma estratégia do PT para se perenizar no poder, já que o governo teria amplo acesso à propaganda institucional, enquanto a oposição não teria como captar recursos para fazer a sua publicidade.
“A colocação dele carece de consistência. Uma coisa é propaganda institucional e outra completamente diferente é financiamento de campanha. Os próprios dados apresentados no julgamento mostram que o PT foi o maior beneficiado pelas doações privadas nas últimas eleições. Mas nem por isso, eu, que sou petista, vou defender esse sistema”, rebateu.
O presidente do PSOL também discorda da avaliação do ministro. Para ele, serão prejudicados os partidos e candidatos que têm, hoje, mais capacidade de captar recursos. E o PT se inclui nesta lista. “O PSDB pode até ser mais confiável para o empresariado, mas esse empresariado é muito pragmático e só vai investir em quem vai ganhar”, analisa.
Da Carta Maior
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