Por Giba Bergamin Jr. – Folha de S.Paulo
"Sempre torci para que bandido que baleei morresse. Vou
ficar chorando, fazendo novena em cima dele? Antes de ele me jantar, se puder,
eu almoço o cara, mesmo."
As palavras são parte de um discurso na Câmara de São Paulo,
no último dia 17 de abril, do vereador Conte Lopes (PTB), integrante da
"bancada da bala", grupo de policiais da reserva que se elegeram em
2012.
Desde o início da gestão, Lopes e colegas de farda e
plenário tornaram o legislativo paulistano uma espécie de palanque pró-PM,
muitas vezes despertando a ira de entidades de direitos humanos.
Desde o ano passado ficaram frequentes debates do tema no
plenário, que incluem ataques a Geraldo Alckmin (PSDB), apesar de os
parlamentares serem, teoricamente, aliados do governador.
Conhecido por suas frases de efeito contra criminosos, Lopes
se referia a um vídeo feito por PMs que mostra três jovens baleados por
policiais. Ele criticava o Estado por determinar uma investigação sobre a
conduta deles.
Porém, as críticas mais duras partem de Paulo Telhada, do
mesmo partido do governador. Para o coronel da reserva, a gestão Alckmin trata
os policiais com "desprezo".
"Governador, nossa Polícia Militar já salvou seu filho
três vezes de ser levado como refém, e vossa excelência não tem reconhecido
isso", discursou o tucano, que já almeja vaga na Assembleia.
Procurados, o governo estadual e o líder do PSDB na Câmara,
Mário Covas Neto, não quiseram se manifestar.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública diz que o governo
"investe na valorização e na reestruturação da carreira policial".
"Na atual gestão foram concedidos três aumentos salariais, um reajuste
acumulado de 36,59%, quase o dobro da inflação do período, que foi de
19,38%".
LÁUREA
Telhada não só usa o plenário para fazer uma espécie de
"ode" à tropa, como promove eventos em que distribui homenagens a
PMs.
É de autoria do tucano uma homenagem à Rota -tropa de elite
da PM- que já foi inúmeras vezes acusada de abuso em suas ações.
Não à toa, a sessão que concedeu a Salva de Prata ao
batalhão, no ano passado, foi alvo de protestos de grupos de direitos humanos,
que mesmo aos gritos de "assassinos", não impediram a aprovação da
láurea.
"Eu valorizo, dou uma condecoração, porque a gente, que
é militar, gosta e vive disso", disse à Folha. A medalha seria uma maneira
de "valorizar o policial, que é muito mal remunerado".
As declarações costumam revoltar Toninho Vespoli (PSOL),
vereador ligado aos direitos humanos. "Não é só assassinando as pessoas
que teremos a diminuição da violência. Para mim, isso é apologia ao crime e não
pode ocorrer nesta Casa. Vamos entrar em estado de barbárie."
Telhada, que se declara evangélico, disse que apologia é
elogiar o criminoso. O tucano afirma que lhe atribuíram a frase "bandido
bom é bandido morto", que ele diz não ter proferido. Em seu último
discurso, porém, fez uma releitura dela. "Bandido, para mim, é para a
cadeia ou para o saco mesmo. Ele escolhe o caminho."

Nenhum comentário:
Postar um comentário