Da IstoÉ
A segunda prisão de José Dirceu, ocorrida na segunda-feira
3, não constituiu uma surpresa para ninguém. Nem para ele. O ex-ministro,
enredado no mensalão e, agora também, no Petrolão, já se encontrava na alça de
mira da Lava Jato desde a prisão de Renato Duque, ex-diretor e seu apadrinhado
na Petrobras. A delação do lobista Milton Pascowitch, relacionando o petista ao
recebimento de propina pessoal travestida de consultoria, foi apenas a pá de
cal. Apesar de não ter sido algo inesperado, o novo recolhimento de Dirceu ao
cárcere teve um significado emblemático: cravou no partido a marca indelével da
corrupção, decretando praticamente o fim da era petista no poder. Mesmo com a –
cada vez mais improvável (leia mais à pag. 38) – sobrevivência da presidente
Dilma Rousseff, fica difícil vislumbrar um horizonte para o PT sem haver uma
reformulação radical na legenda. Isso se o partido não precisar mudar de nome
mais adiante. “O cenário é distinto daquele do mensalão. Nem a melhora da
economia salva o PT”, resignou-se o ex-presidente Lula em reunião com petistas
na última semana. O Petrolão mostrou de maneira inequívoca que Dirceu e o PT
criaram uma espécie de toque de Midas ao avesso: quase tudo em que o partido
meteu a mão teve a sujeira da corrupção. Em vez de transformado em ouro, cada
órgão administrado pela legenda se deteriorou. Saqueada pelo PT, segundo os
investigadores da Lava Jato, a Petrobras já valeu R$ 500 bilhões em 2008. Hoje
seu valor de mercado é de R$ 100 bilhões. Outras estatais como a Eletrobrás, aparelhadas
sem piedade pelo partido, trilham semelhante caminho. Por práticas nada
republicanas, foram parar na cadeia, antes de Dirceu, outras figuras de proa da
legenda: o ex-presidente da sigla José Genoíno; o ex-presidente da Câmara, João
Paulo Cunha; o ex-deputado e líder da bancada, Anré Vargas;; e os
ex-tesoureiros Delúbio Soares e João Vaccari Neto.
A nova prisão de Dirceu trouxe, porém, outro elemento
agravante – e, aí sim, decepcionante até para seus mais ferrenhos defensores,
que ainda permaneciam iludidos, a despeito das abundantes e variadas evidências
de desvios de dinheiro público. O petista, considerado “o capitão do time” por
Lula quando era ministro da Casa Civil, foi apanhado roubando para
enriquecimento pessoal e não mais em nome de um “projeto de País” ou de
“poder”, como alegava o PT até então – como se isso já fosse algo banal. Ou
seja, se já era abominável o discurso petista segundo o qual os fins
justificavam os meios, mais inaceitável ainda é agora quando se descobre que
tanto os meios quanto os fins eram indecentes. Ao decretar a prisão preventiva
de Dirceu, o juiz Sérgio Moro disse que o petista recebia propinas desde 2003,
quando assumiu a Casa Civil. Para Moro, as provas reforçam os indícios de
“profissionalismo e habitualidade na prática do crime” e caracterizam
“acentuada conduta de desprezo não só à lei e à coisa pública, mas igualmente à
Justiça criminal e à Suprema Corte”. O procurador Carlos Fernando Lima,
integrante da força-tarefa da Lava Jato resumiu: “A responsabilidade de José
Dirceu, aqui, é como beneficiário de maneira pessoal, não mais de maneira
partidária, enriquecendo pessoalmente”. Segundo a Lava Jato, os valores eram
pagos a Dirceu por meio de falsos contratos de prestação de serviços da JD
Consultoria. Às vezes em dinheiro vivo. Houve casos de ressarcimento de
despesas pessoais. Entre 2007 e 2014, as propinas destinadas a Dirceu somavam
R$ 90 milhões. Parte do dinheiro – cerca de R$ 1 milhão – serviu para reformar
um apartamento do irmão do ex-ministro, Luiz Eduardo de Oliveira Silva, na Vila
Mariana, Zona Oeste de São Paulo. Outros R$ 1,3 milhão pagaram a arquiteta
responsável pela reforma da casa de Dirceu em Vinhedo (SP). O delator Milton
Pascowitch ainda contou ter bancado para o petista metade de um jatinho Cessna
560 XL, avaliado em R$ 2,4 milhões. “O PT já está todo maculado. Isso é uma pá
de terra”, avaliou o deputado federal Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). “O PT está
afetado no limite máximo, pelo que algumas pessoas da sigla realizaram, no
mensalão e no caso da Petrobras. O partido chegou ao fim de um ciclo”,
reconheceu o ex-governador petista Tarso Genro, eterno candidato a promover a
reformulação da legenda.
Não à toa, a recepção a Dirceu, na carceragem da PF em
Curitiba, foi completamente distinta daquela exibida no mensalão. Em vez dos
aplausos calorosos da militância, vaias, foguetórios e gritos de ladrão. Na
primeira condenação, Dirceu, de punhos erguidos, foi recebido pelos camaradas
ao coro de “guerreiro do povo brasileiro”. Havia, entre os petistas, a sensação
de que a sentença inicial de Joaquim Barbosa, relator do mensalão, fora dura
deamais ao apontá-lo. Semana passada, nem mesmo o PT teve a coragem de
defendê-lo. Em nota, sem mencionar o líder de outrora, o partido alegou somente
a legalidade das operações financeiras da legenda. “As acusações contra ele são
de caráter pessoal”, lavou as mãos o presidente do PT, Rui Falcão. Claro,
trata-se de mais uma estratégia do partido na tentativa de não se contaminar
ainda mais com a prisão do seu ícone. Em vão — é impossível dissociá-los. A
trajetória política e de vida de Dirceu se confunde com a do PT. Foi Dirceu
quem, ao assumir o partido em 1995, pavimentou a ascensão de Lula e do PT ao
poder, em 2002. Depois, tornou-se o homem forte de Lula na Presidência até
desabar ladeira abaixo enrolado numa fieria de escândalos.
O que se conhece agora ainda é mais grave e, por isso, fere
de morte a legenda um dia depositária dos sonhos de milhares e milhares de
brasileiros que acreditaram na esperança vendida por Lula e companheiros. O
esquema de corrupção e pagamento de propina começou no primeiro mandato lulista
e perdurou até 2015, segundo a Lava Jato. Graças a uma simples descoberta,
durante uma investigação de lavagem de dinheiro, a de que o doleiro Alberto
Yousseff havia doado um carro importado a um diretor da Petrobras, no caso,
Paulo Roberto Costa, o fio de um imenso novelo foi puxado e conclui-se sobre a
confluência dos dois escândalos, o mensalão e o Petrolão. Ambos gestados,
segundo os investigadores, a partir da Casa Civil de Lula. Agora, procuradores
e agentes federais dedicam-se a buscar evidências que possibilitem destrinchar
a cadeia de comando até o topo. Entre os investigadores, comentava-se na semana
passada a possibilidade de o ex-presidente ser convocado a depor para prestar
esclarecimentos, antes de uma eventual prisão, o que já seria péssimo para sua
imagem. Para blindar Lula, há no Planalto quem defenda que ele assuma um
ministério de Dilma. Neste caso, o ex-presidente ganharia foro privilegiado e,
em caso de denúncia contra ele, o processo seria remetido ao STF. A
alternativa, porém, dividia o governo até o fim da semana, pois enfraqueceria
ainda mais a presidente.
Num último esforço para tentar limpar a barra da legenda, o
PT foi à televisão na noite quinta-feira 6. Ao contrário do imaginado, no
entanto, o programa só atiçou ainda mais a indignação de setores do eleitorado
refratários ao PT – hoje a expressiva maioria da população. Recheado de
cinismo, o filmete petista, ancorado pelo militante e abnegado petista José de
Abreu, amigo pessoal de Zé Dirceu, chegou ao cúmulo de dizer que o País vivia
“problemas passageiros na economia”. Dono dos piores índices econômicos em
quinze anos, o partido teve a desfaçatez de se comparar ao que chamou de melhor
período das gestões anteriores. “Nosso pior momento ainda é melhor do que o
melhor momento dos governos passados”, diz, desta vez, na voz de Lula. Como na
campanha, o PT ainda atentou contra o bom senso e a inteligência da população
ao voltar a prometer a retomada do crescimento, com preços em baixa e emprego
em alta, além de saúde e educação de qualidade. Resultado: consumou-se a
reprise do sonoro panelaço a ecoar pelas principais cidades do País, gesto
ilustrativo da debacle do partido.

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