Por João Almeida Moreira, da Piauí
A adega onde se forjou a era Lula fecha as portas
Antonio teve duas ideias. A segunda foi convencer Leone, o
vizinho, a abrir seu restaurante no dia da folga semanal e reservá-lo só para
ele. Leone aceitou: afinal, Antonio era uma autoridade na cidade e ia receber o
seu chefe nacional, figura importante, célebre, merecedora de particulares e
redobradas atenções. Como o chefe de Antonio sempre apreciou bacalhau, o
restaurante português de Leone era, os dois concordaram, o lugar ideal para a
reunião.
Não bastava, no entanto, reservar o espaço. Antonio também
pediu a Leone que dispensasse todos os garçons, que atendesse pessoalmente os
comensais, que desligasse as linhas telefônicas, reservasse uma mesa para os
seguranças e mantivesse a porta fechada, tão fechada como se aquela
segunda-feira de maio de 2002 fosse, para quem passasse pela rua, um dia normal
de folga do restaurante. “Tudo bem”, respondeu o proprietário, consciente da
gravidade do momento.
Antonio, o chefe dele e outros quadros destacados da
organização precisavam de privacidade absoluta porque aquela não era uma
reunião qualquer: durante o almoço, redigiriam e aprovariam uma carta que podia
mudar os seus destinos para sempre. E os destinos do Brasil. Essa carta foi a
primeira ideia de Antonio. Antonio Palocci.
Recém-licenciado do cargo de prefeito de Ribeirão Preto,
Palocci agora se dedicava em tempo integral à candidatura ao Palácio do
Planalto do chefe, Luiz Inácio Lula da Silva, e não queria falhar. Não podia
falhar: porque o chefe já falhara nas três tentativas anteriores e porque as
circunstâncias – baixa popularidade do rival Fernando Henrique Cardoso e, por
extensão, do PSDB – conspiravam a favor.
Leone, de sobrenome Rufino, era um homem acostumado a servir
de anfitrião aos intelectuais e endinheirados de Ribeirão Preto, como os
Palocci. E sua mulher, a chef Anabela, perdera a conta dos elogios ao seu
tempero, recebidos ora de clientes importantes, ora da crítica especializada –
a Adega Leone foi considerada um dos quatro melhores restaurantes portugueses
do Brasil anos a fio, e ganhou dezessete estrelas do prestigiado Guia Quatro
Rodas.
Mas receber gente da relevância de Lula e da cúpula nacional
do PT, assim, todos de uma vez? Nunca antes na história daquele restaurante.
Leone Rufino é um homem de estatura mediana, magro, calvo,
mas com cabelos brancos nas têmporas. Nascido em Lisboa e criado no Porto, cujo
sotaque cantado se revela quando recita Camões à mesa dos clientes mais
chegados, Rufino aterrissou no Rio de Janeiro em 1965 com a mulher e os dois
filhos para assumir o cargo de gerente de marketing da Coca-Cola. A
multinacional havia fechado a sucursal onde ele trabalhava, em Angola, durante
a guerra colonial entre o país africano e o Exército português, e o Brasil
virou a sua nova casa. Do Rio, passou, cinco anos mais tarde, para a filial de
Ribeirão Preto, onde, em 1994, encerraria a carreira na Coca-Cola e iniciaria a
aventura na Adega Leone.
A Adega, um típico restaurante português, com azulejos por
todo lado, trilha sonora permanente de Amália Rodrigues e pão e vinho sobre a
mesa, foi uma das primeiras casas comerciais no Boulevard, bairro
posteriormente transformado em região nobre do comércio de Ribeirão Preto.
Vivia cheio antes daquele almoço de Lula e companhia. Continuaria cheio durante
o tempo em que Lula e companhia estiveram no poder.
Naquela tarde de segunda-feira, a poucos meses do penoso fim
do segundo mandato de FHC, meia dúzia de políticos ilustres comeram e
conversaram animadamente a um cantinho do salão. Rufino tentou citá-los de
cabeça: “Ora, estavam o Lula, o Palocci, o Dirceu, o Genoino, o Mantega, o
Mercadante, o Duda Mendonça...”
A determinada altura, recorda Rufino, Duda se levantou e
leu, em alto e bom som, uma versão da Carta ao Povo Brasileiro perante os
companheiros. E perante Rufino. No documento, o PT trocava o ideário de
esquerda em matéria econômica por uma espécie de radicalismo de centro.
Rendia-se à realpolitik do Plano Real e piscava o olho para o PIB nacional. De
charuto na mão, estômago afagado e sorriso no rosto, Lula, que por causa dessa carta
se tornaria hóspede do Palácio da Alvorada por oito anos, aprovou.
“Pediram então mais vinho”, disse Rufino. “Beberam Cartuxa
tinto, no total umas dez ou doze garrafas, e comeram um cabrito à Fornos de
Algodres e uma tibornada de bacalhau com batatas a murro. E o Lula repetiu as
batatas a murro”, completou Anabela, orgulhosa de sua memória e de suas
batatas.
Depois desse almoço e dessa carta, todos sabemos o que
aconteceu ao grupo de comensais e signatários. Lula saiu da Adega Leone quase
direto para o Planalto, e do Planalto para a liderança espiritual do PT. Pelo
meio, continuou a trocar piscadelas de olho com o PIB nacional. Palocci,
ziguezagueando entre governo e iniciativa privada, enriqueceu. Dirceu e
Genoino, de presos políticos, passaram a políticos presos, com um Mensalão pelo
meio. Mensalão do qual Duda Mendonça escapou ileso. Mantega foi eterno na
Fazenda enquanto o amor de Dilma durou. E Mercadante está eterno ao lado da
presidente enquanto o amor durar.
Mas e o anfitrião e seu restaurante? O que é feito deles?
Leone Rufino e sua adega resistiram enquanto puderam. Acreditaram que a
marolinha que foi derrubando, uma a uma, cada casa comercial no Boulevard nunca
chegasse a tsunami. Engano: a crise levou com ela a premiada instituição
ribeirão-pretana fundada 21 anos atrás. “Não tem jeito, em época de crise, são
os restaurantes, os bares ou os cinemas as primeiras coisas que as pessoas
cortam: tive que fechar a Adega Leone no dia 1º de junho de 2015”, revelou o
português, pesaroso e resignado, hoje com 77 anos, ao lado da mulher e chef
Anabela, de 67.
Custos fixos elevados, impostos cada vez mais pesados,
aluguel alto, movimento fraco, o cansaço do casal para enfrentar nova recessão
– ou, em resumo, a situação econômica do país – foram os motivos que o levaram
a fechar as portas, explicou Rufino. Assim a Adega, berço da tomada do poder
pelo PT, chegou ao fim por culpa de uma crise econômica exatos treze anos
depois de ali redigirem a Carta ao Povo Brasileiro, e ainda durante a gestão do
mesmo partido. Leone Rufino, com o sorriso de quem gosta de iniciar polêmicas,
faz uma previsão: “Depois de nós, o próximo a fechar as portas é o governo do
PT.”

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