Da Veja
Para um presidente da República de qualquer país, é
enaltecedor poder contar que teve origem humilde. O americano Lyndon Johnson
mostrava a jornalistas um casebre no Texas onde, falsamente, dizia ter nascido.
A ideia era forçar um paralelo com a história, verdadeira, de Abraham Lincoln,
que ganhou a vida como lenhador no Kentucky. Lula teve origem humilde em
Garanhuns, no interior de Pernambuco, e se enalteceu com isso. Como Johnson e
Lincoln, Lula veio do povo e nunca mais voltou. É natural que seja assim. Como é
natural que ex-presidentes reforcem seu orçamento com dinheiro ganho dando
palestras pagas pelo mundo. Fernando Henrique Cardoso faz isso com frequência.
O ex-presidente americano Bill Clinton, um campeão da modalidade, ganhou
centenas de milhões de dólares desde que deixou a Casa Branca, em 2001. Lula,
por seu turno, abriu uma empresa para gerenciar suas palestras, a LILS,
iniciais de Luiz Inácio Lula da Silva, que arrecadou em quatro anos 27 milhões
de reais. Isso se tornou relevante apenas porque 10 milhões dos 27 milhões
arrecadados pela LILS tiveram como origem empresas que estão sendo investigadas
por corrupção na Operação Lava-Jato.
Na semana passada, a relação íntima de Lula com uma dessas
empresas, a empreiteira Odebrecht, ficou novamente em evidência pela divulgação
de um diálogo entre ele e um executivo gravado legalmente por investigadores da
Lava-Jato. O alvo do grampo feito em 15 de junho deste ano era Alexandrino
Alencar, da Odebrecht, que está preso em Curitiba. Alexandrino e Lula falam ao
telefone sobre as repercussões da defesa que o herdeiro e presidente da
empresa, Marcelo Odebrecht, também preso, havia feito das obras no exterior
tocadas com dinheiro do BNDES. Os investigadores da Polícia Federal reproduzem
os diálogos e anotam que o interesse deles está em constituir mais uma
evidência da "considerável relação" de Alexandrino com o Instituto
Lula.
Fora do contexto da Lava-Jato, esse diálogo não teria
nenhuma relevância especial. Como também não teria a movimentação financeira da
LILS. De abril de 2011 até maio deste ano, a empresa de palestras de Lula,
entre créditos e débitos, teve uma movimentação de 52 milhões de reais. Na
conta-corrente que começa com o número 13 (referência ao número do PT), a
empresa recebeu 27 milhões, provenientes de companhias de diferentes ramos de
atividade. Encabeçam a lista a Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a OAS e a
Camargo Corrêa, todas elas empreiteiras investigadas por participação no
esquema de corrupção da Petrobras. Essas transações foram compiladas pelo
Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da
Fazenda. O Coaf trabalha com informações do sistema financeiro e seus técnicos
conseguem identificar movimentações bancárias atípicas, entre elas saques e
depósitos vultosos que podem vir a ser do interesse dos órgãos de investigação.
Neste ano, os analistas do Coaf fizeram cerca de 2 300 relatórios que foram
encaminhados à Polícia Federal, à Receita Federal e ao Ministério Público. O
relatório sobre a LILS classifica a movimentação financeira da empresa de Lula
como incompatível com o faturamento. Os analistas afirmam no documento que
"aproximadamente 30%" dos valores recebidos pela empresa de palestras
do ex-presidente foram provenientes das empreiteiras envolvidas no escândalo do
petrolão.
O documento, ao qual VEJA teve acesso, está em poder dos
investigadores da Operação Lava-Jato. Da mesma forma que a conversa do ex-presidente
com Alexandrino Alencar foi parar em um grampo da Polícia Federal, as
movimentações bancárias da LILS entraram no radar das autoridades porque parte
dos créditos teve origem em empresas investigadas por corrupção. Diz o
relatório do Coaf: "Dos créditos recebidos na citada conta, R$ 9
851 582,93 foram depositados por empreiteiras envolvidas no esquema criminoso
investigado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Lava-Jato". Seis
das maiores empreiteiras do petrolão aparecem como depositantes na conta da
empresa de Lula (veja a tabela na pág. 51).
O ex-presidente tem uma longa folha de serviços prestados às
empreiteiras que agora aparecem como contratantes de seus serviços privados.
Com a Odebrecht e a Camargo Corrêa, por exemplo, ele viajava pela América
Latina e pela África em busca de novas frentes de negócios junto aos governos
locais. Outro ponto em comum que sobressai da lista de pagadores da empresa do
petista é o fato de que muitas das empresas que recorreram a seus serviços
foram aquinhoadas durante seu governo com contratos e financiamentos concedidos
por bancos públicos. Uma delas, o estaleiro Quip, pagou a Lula 378 209 reais
por uma "palestra motivacional". Criada com o objetivo de construir
plataformas de petróleo para a Petrobras, a empresa nasceu de uma sociedade
entre Queiroz Galvão, UTC, Iesa e Camargo Corrêa - todas elas investigadas na
Lava-Jato. No poder, Lula foi o principal patrocinador do projeto, que recebeu
incentivos do governo. Em maio de 2013, ele falou para 5 000 operários durante
29 minutos. Ganhou 13 000 reais por minuto (assista ao vídeo).
Para ler a continuação dessa reportagem compre a edição
desta semana de VEJA.

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