Da IstoÉ
O relógio acomodado na parede do gabinete presidencial
marcava 18h33 quando o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, um dos poucos
integrantes do primeiro escalão autorizados a girar a maçaneta da sala da
presidente Dilma Rousseff sem precisar bater à porta, tomou fôlego para
enunciar o mais funesto comunicado recebido por ela desde a posse. “Presidente,
começou o impeachment”, afirmou Wagner, em tom solene. Dilma já havia sido
alertada sobre o risco do infortúnio horas antes pelo telefone. Mesmo assim, ao
receber a confirmação oficial da decisão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha
(PMDB-RJ), a presidente respirou fundo, como se prenunciasse dias de trevas no
horizonte. De fato, uma jornada tranqüila não lhe aguarda. A presidente sabe
que enfrentará, nos próximos meses, a sua pior travessia. Talvez a derradeira.
Para os brasileiros, o desenlace desse processo pode representar uma espécie de
recomeço.
O Brasil amarga hoje os mais calamitosos índices em duas
décadas. A paralisia do País já afeta todos os setores da economia. Na última
semana, soube-se que a recessão está se transformando em uma depressão
econômica – fato inédito desde os anos de 1930 e 1931 – em razão da profunda
contração da demanda interna. Por isso, o processo de impeachment é uma luz a
se insinuar no fim do túnel em meio ao breu. Para empresários, líderes
políticos – até do próprio PT – e a maioria da população a saída de Dilma do
poder significa a oportunidade real de o Brasil escapar do atoleiro em que se
encontra rumo ao resgate da credibilidade, à retomada da confiança e à
construção de uma unidade nacional. Todos acreditam que Dilma perdeu a condição
de protagonizar uma transição sem traumas em direção à superação da crise. Só o
afastamento da presidente, atestam as mais recentes pesquisas de opinião, teria
o condão de arrefecer a tensão e reverter as expectativas – hoje as mais
tenebrosas. Viveremos, portanto, nos próximos meses um momento histórico para o
País. Dizia o poeta, escritor e abolicionista dos Estados Unidos, James Russel
Lowell, primeiro editor da revista literária The Atlantic Monthly: “Há momentos
decisivos. Para a Pátria, para o lar... Quando a escolha é necessária e há
verdade a sustentar, grandes causas e conflitos pedem nobres campeões. E a
batalha hoje vencida valerá por gerações”. Encontramo-nos exatamente nesse
estágio descrito por Lowell. “Esse impasse e a incapacidade que a presidente
Dilma Rousseff tem demonstrado de tomar a iniciativa e inspirar confiança em
quem trabalha, em quem produz, em quem investe está levando o Brasil a
mergulhar em uma crise que já não é mais econômica e moral apenas. É uma crise
social, de profundidade que nós não havíamos vivido ainda. É preciso que haja
uma decisão”, afirmou o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, em entrevista
exclusiva à ISTOÉ (leia a íntegra na pág.40).
Ansiosa por um desfecho da maior crise da história recente,
a população já deu demonstrações de que não se furtará a ocupar as principais
avenidas do País. Na semana passada, enquanto o mercado reagia com raro
otimismo ao simples sinal verde para o processo do impeachment, líderes de
movimentos de rua já planejavam as próximas manifestações. No próximo dia 13,
um domingo, o MBL e o Vem para Rua esperam reunir centenas de pessoas nas
principais capitais do País em favor do afastamento da presidente. A
concentração será no vão do MASP, na Avenida Paulista, em São Paulo. “É um espécie
de esquenta para uma grande manifestação que ocorrerá no início do próximo ano.
O objetivo é não deixar a chama se apagar”, afirmou Kim Kataguiri, do MBL. A
data da mega mobilização de 2016 ainda está em estudo, mas a intenção é
coincidir com a retomada dos trabalhos do Congresso. Principalmente, da
Comissão Especial designada para avaliar o pedido de impedimento da presidente
petista.
Pelo rito estabelecido ao processo, tão logo instalada a
Comissão Especial, com 65 membros, respeitando a proporcionalidade dos partidos
na Casa, Dilma será notificada e terá prazo de até 10 sessões para se defender.
Em seguida, o colegiado por meio de um relator terá de emitir um parecer em
cinco sessões. Publicado o relatório, em 48 horas será votado pelo plenário da
Câmara. Se dois terços dos 513 deputados forem favoráveis ao afastamento, a
chefe do Executivo é afastada do cargo por 180 dias até o julgamento final pelo
Senado. No final da semana, o Congresso discutia a convocação ou não dos
parlamentares no recesso legislativo. Inicialmente, a oposição, interessada em
conferir celeridade ao impeachment, trabalhava pela convocação. Ao tomar
conhecimento da intenção do governo de mobilizar sua tropa de choque na Câmara
para arquivar de maneira rápida o pedido de afastamento na Comissão Especial,
os oposicionistas recuaram. Se a oposição vencer a nova contenda, a tendência
será pela retomada dos trabalhos apenas em fevereiro, quando se inicia
oficialmente o ano legislativo. A oposição aposta que a popularidade de Dilma
tende a se deteriorar até lá, com o aprofundamento da crise, o que pavimentará
o caminho para apeá-la do poder.
Antes, porém, de ser alcançada a maioria numérica de dois
terços para o afastamento de Dilma, personalidades políticas de todos os
matizes e líderes empresariais entendem ser imperativo a celebração de um pacto
nacional. Só um grande acordo poderá abrir caminho para as profundas
transformações que o Brasil necessita para sair da crise. Ao que parece, as
tratativas já estão em curso. Rachado em diversos momentos ao longo do ano, o
PSDB produziu consenso numa velocidade recorde, tão logo foi anunciado o
acolhimento do pedido de impeachment por Eduardo Cunha. Consultados, tanto
Aécio e Serra, nos bastidores, admitiram uma convergência em torno do vice-presidente
Michel Temer, cujo discurso oportunamente entoado no final a última semana soa
como música aos ouvidos de todos os atores políticos interessados numa
inflexão.“Espero que o País saia pacificado ao fim do processo de impeachment”,
afirmou o vice-presidente.
Num outro gesto louvável e adequado ao momento, o próprio
também antecipou, na última semana, que caso seja ungido para conduzir o
processo de união nacional não terá apego ao cargo, abrindo mão de concorrer à
reeleição em 2018. Dessa forma, deixaria a cadeira após a consumação do pacto
nacional. O chamado PT lulista é outro a embarcar na “solução Temer”. Para o
grupo, a única chance de êxito eleitoral em 2018 passaria pela conversão de
Lula à oposição de um governo pós-Dilma. Com a atual presidente fora do jogo, o
ex-presidente poderia encampar a defesa de seu legado, recuperando a
musculatura política perdida nos últimos anos. Hoje, as pesquisas em poder do
PT são avassaladoras. Segundo levantamentos internos do partido, no ABC
paulista, berço do petismo, 82% das pessoas se recusariam a votar num candidato
indicado por Dilma nas eleições municipais de 2016 e presidenciais de 2018. E
67% não seguiriam a orientação de Lula. O último Datafolha já atestava a
débâcle do petista. Em todas as pesquisas para um eventual segundo turno, Lula,
com 47% de rejeição, perderia no embate direto para todos os adversários:
Marina Silva, Aécio Neves e Geraldo Alckmin. Não à toa, o ex-presidente assume
agora um discurso ambivalente. Na última semana, ao mesmo tempo em que
classificou de “loucura e insanidade” a iniciativa de Cunha, lamentou o fato de
o Brasil parecer um “trem descarrilado”. “A gente precisa colocar o vagão no
trilho”, afirmou, numa retórica que embute indiretamente uma crítica ao governo
Dilma.
Se havia alguma dúvida da veracidade desta tese, ela foi
dirimida nos últimos dias quando o PT emitiu uma nota, subscrita pelo
presidente da legenda, Rui Falcão. No documento, Falcão anunciou de qual lado
da trincheira os três petistas integrantes do Conselho de Ética – Zé Geraldo
(PT-PA), Valmir Prascidelli (PT-SP) e Leo de Brito (PT-AC) – se posicionariam.
No caso, contra Eduardo Cunha. A postura do PT foi decisiva para a detonação do
impeachment. Quem conhece os meandros da legenda sabe que não há hipótese de o
partido ter colocado em marcha uma decisão tão importante sem o consentimento
do seu líder máximo, o ex-presidente Lula. Mesmo assim, o partido lança mão de
táticas diversionistas. No Congresso, deputados do PT reagiram com irritação ao
anúncio de Cunha. Escalados para fazer a defesa jurídica da presidente Dilma,
os deputados Wadih Damous (PT-RJ) e Paulo Pimenta (PT-RS) disseram que o
partido já esperava uma retaliação. “Temos absoluta convicção de que esta
atitude é um ato de revanchismo. Esse é o ponto culminante de um processo de
chantagem que o governo e o Brasil vinham sendo submetidos”, disse Pimenta.
Desqualificar o acolhimento do pedido de impeachment faz
parte da estratégia do governo de disseminar um sofisma: o de que Cunha não
tinha legitimidade para fazê-lo, pois encontra-se envolvido em casos
comprovados de corrupção, e tomou a decisão movido pelo pecado da vingança. Na
verdade, a intenção do Planalto é conquistar a simpatia de setores da opinião
pública criando uma falsa disputa entre o bem e mal, onde o “bem” seria
encarnado pela presidente da República e o “mal” personificado na figura de
Eduardo Cunha. O estratagema governista esconde o principal: o presidente da
Câmara não é mais o senhor do impeachment. Como se apertasse o botão para o
funcionamento de uma engrenagem, Cunha investido de suas funções
constitucionais apenas atestou a admissibilidade do pedido formulado pelos
juristas Hélio Bicudo e Miguel Reale Jr. Mas quem julgará Dilma é a Câmara e o
Senado. Agora, o impeachment ganha uma dinâmica própria e, ao fim e ao cabo, a
decisão de abrir ou não o processo estará nas mãos de 513 deputados. E, de
fato, há provas de que a presidente cometeu crimes de responsabilidade com as
pedaladas fiscais e os decretos não numerados. Ainda pairam sobre ela suspeitas
de financiamento ilegal de suas campanhas com caixa dois e de sua participação
na malfadada compra da refinaria de Pasadena.
Apesar de adotar a retórica do Fla-Flu político, conveniente
para ele no momento, o governo traça estratégias bem mais pragmáticas no
esforço para livrar a presidente do impeachment. Já está claro, por exemplo,
que o Planalto tentará transformar o STF, foro que chegou a suspender o rito
inicial do impedimento da presidente proposto por Cunha há dois meses, no seu
principal dique de proteção. Na quinta-feira 3, foram apresentadas três ações
ao tribunal. No mesmo dia, no entanto, duas delas foram analisadas e
consideradas improcedentes pelos ministros Celso de Mello e Gilmar Mendes.
Mesmo assim, os governistas prometem ingressar com outros recursos ao Supremo.
Não descartam, inclusive, questionar até mesmo critérios adotados pelo
presidente da Câmara para distribuir entre os partidos as vagas na Comissão
responsável por analisar o pedido de impeachment.
Além de autorizar investidas na seara jurídica, Dilma
convocou mais de 20 ministros para participar de uma reunião no Palácio do
Planalto na quinta-feira 3. O recado dela foi explícito: “Não podemos dar a
sensação de que o País parou”, como se isso fosse possível. No encontro, foi
anunciado que ela retomará sua agenda de viagens pelo Brasil. No périplo, estão
previstas inaugurações de obras com participação de ministros dos respectivos
estados. Mas a composição ministerial é tão heterogênea e desconexa que quem
participou da conversa saiu com a sensação de que ela terá uma missão árdua
para manter o time coeso. Na sexta-feira 4, o governo sofreu a mais dura baixa
desde o início da crise. Ministro mais próximo de Michel Temer, Eliseu Padilha,
da Aviação Civil, entregou o cargo. A saída de Padilha acende o sinal de alerta
no Planalto. Para auxiliares da presidente, o gesto é o sinal mais claro de um
irremediável afastamento do vice Michel Temer em relação a presidente e pode
significar o princípio de uma debandada do PMDB, partido fiel da balança na
matemática do impeachment.
Em seu livro “Momentos decisivos da história do País”, o
filósofo Antonio Paim descreve três períodos cruciais da nossa história em que
poderíamos ter trilhado caminhos distintos. O primeiro foi o enfraquecimento do
empreendimento açucareiro no início da era colonial, quando o Brasil possuía
uma economia mais pujante que a dos Estados Unidos. O segundo foi o sufocamento
das iniciativas liberais depois da proclamação da República, cedendo lugar ao
patrimonialismo. E o último entre os anos 30 e 90, quando os obstáculos ao
capitalismo levaram o País ao predomínio econômico social e político da
burocracia estatal. Para Paim, a ascensão do PT ao poder serviu à manutenção do
patrimonialismo tradicional e o loteamento do Estado se deu através da
cooptação da base parlamentar necessária para a manutenção e perpetuação do
poder. Para piorar, o chamado presidencialismo de coalizão, sistema que deveria
permitir a governabilidade, fracassou totalmente no governo Dilma. “No primeiro
mandato, a distribuição de cargos não correspondia à base de sustentação no
Congresso. No início do segundo mandato, a prática desandou totalmente, por uma
mistura de incompetência política, crise econômica e efeitos colaterais da
Operação Lava Jato”, afirmou o sociólogo e mestre em ciência política, Murillo
de Aragão. Para ele, a fragmentação do Congresso, extremamente prejudicial ao
sistema partidário, gera a falta de lideranças capazes de construir consensos.
A saída seria a construção de uma nova maioria fundamentada em políticas
públicas claras e reformas estruturais. “O ponto inicial de uma nova maioria
poderia partir de um programa de governo tecido com apoio dos partidos no
Congresso”, prega. Apesar de, em muitos casos, apontarem saídas diversas, empresários,
políticos e integrantes da sociedade civil convergem num ponto crucial. Mesmo
que a travessia seja gradual é necessário buscar caminhos para sairmos do
labirinto em que nos encontramos. “O ambiente político é de tensão. Precisamos
desenvolver a perspectiva de um novo ciclo de crescimento no Brasil”, prega a
presidente da TAM, Claudia Sender. A busca da racionalidade política e
institucional do País é fator imprescindível para que a economia volte a ter
equilíbrio e a confiança da população seja recuperada. Está em jogo, nos
próximos meses, o destino da atual e das próximas gerações.
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