O empresário João Batista Motta exercia o mandato de senador
pelo Espírito Santo quando entrou na sala do então líder do PMDB, Ney Suassuna,
com um aviso e uma exigência: "Estou em obstrução. Só voto qualquer
matéria quando a dona Armênia voltar para a folha de pagamento da Casa".
Motta integrava o baixo clero, identificação coletiva dos parlamentares mais
facilmente manobráveis e de pouco prestígio político. Ele barganhava um favor
pessoal sem o menor constrangimento. Os tempos lhe eram favoráveis naqueles
meados de 2005. O Congresso investigava o mensalão e a compra de apoio
parlamentar com dinheiro roubado dos cofres públicos, pelo governo Lula. O PT,
o PMDB e o PP embolsavam propinas milionárias ao facilitar o fechamento de
contratos superfaturados entre as empreiteiras e a Petrobras. Dona Armênia,
portanto, era um troco no cenário de tenebrosas transações.
O lobby pela sua volta "à folha de pagamento"
ilustra o nível de aparelhamento do Estado, a prática de tirar de um cargo
alguém que conquistou a posição por mérito e entregar o posto ao apadrinhado de
um parlamentar cujo voto interessa ao governo. Como fizeram com outros vícios
resistentes do mundo oficial, os governos do PT transformaram o aparelhamento
num mecanismo de manutenção do poder a qualquer custo.
Foram esses casos escandalosos de troca de favores que
chamaram a atenção de Luiz Alberto dos Santos, funcionário de carreira que
ocupava, naquele tempo, uma das subchefias da Casa Civil. A cada golpe desse
tipo de que tomava conhecimento, Santos disparava mensagens de alerta para seus
superiores - a então ministra Dilma Rousseff e seu braço-direito, a secretária
executiva Erenice Guerra. Invariavelmente a resposta era um ensurdecedor
silêncio. Em 24 de agosto de 2007, Santos detectou o começo do processo de
destruição do corpo técnico do Ministério do Planejamento com a substituição de
técnicos por "companheiros" do PT ou indicados por eles.
Luiz Alberto dos Santos advertiu enfaticamente em um e-mail
endereçado a Erenice Guerra: "Está, literalmente, havendo um aparelhamento
lá, e num órgão em que competência técnica e conhecimento da máquina são mais
do que necessários. Não sei o que vai sobrar, e não quero nem ver. Se antes já
estava difícil, daqui pra frente vai ser um espanto". Silêncio total do
outro lado.
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