Artigo de Fernando Gabeira
BRASÍLIA — Passei dia e noite ouvindo discursos. O último
nome de senador que ouvi foi o de Vicentinho, que viajava num carro negro para
entregar a Dilma a notícia do fim de jogo. A longa sessão foi um pouco
diferente da da Câmara. Mais discursos, menos gestos. Ainda assim, creio que já
havia amanhecido, ouvi o senador Ivo Cassol dedicar quase toda sua fala à
pílula do câncer. Para ele, Dilma estava caindo porque hesitou em colocar
laboratórios oficiais produzindo a pílula. Foi a única saudação aberta ao obscurantismo.
O dia já estava claro, e consultava a lista de oradores como nos desfiles de
escola de samba, aqueles em que algumas aparecem já com dia claro.
Quando olho para trás, ainda meio tonto de cansaço, tento
alinhar algumas ideias verdadeiramente sinistras, aquelas que levaram a
esquerda brasileira a essa derrota histórica. Seduzir-se pelo chamado
socialismo do século XXI é uma delas. Costumo compará-la aos pedaços do Muro de
Berlim, não os verdadeiros que foram vendidos logo após a queda. Com as fortes
vendas, os camelôs de Berlim tiveram que falsificar pedaços do muro para
atender à demanda.
O socialismo do século XXI tornou-se atraente na América do
Sul com a vitória do chavismo. A ideia era conquistar o governo pelo voto e,
progressivamente, dominar as instituições autônomas: Congresso, Judiciário,
Forças Armadas e, dentro das possibilidades, a imprensa. O modelo teve êxito na
Venezuela, se podemos chamar de êxito um regime que empobreceu o país e cria
enormes filas até para comprar papel higiênico. Lá foi possível dominar o
Congresso, ganhar as principais disputas na Justiça e ter comandantes militares
partidários do governo. A imprensa independente foi mantida sob intenso ataque.
No Brasil, essas expectativas começaram a falhar no
mensalão. Para dominar o Congresso, era preciso injetar muito dinheiro nos
partidos aliados. O escândalo acabou sendo descoberto, e um juiz indicado pelo
governo do PT, Joaquim Barbosa, conduziu o inquérito com admirável lisura. Os
militares brasileiros mantiveram-se distantes do choque partidário. A imprensa,
cortejada pelo PT nos seus tempos de oposição, foi demonizada. Não porque
tenha, através da investigação, descoberto os grandes lances da corrupção. Ela
noticiou o resultado do trabalho de duas instituições também autônomas: Polícia
Federal e Ministério Público, em sintonia com o juiz Sérgio Moro.
Uma outra ideia sinistra que sobreviveu na esquerda
brasileira foi que os fins justificam os meios. No fundo, isso significa dizer:
estou fazendo o bem, danem-se as regras democráticas. Para avançar nesse
terreno contaminado, tornou-se necessário desenvolver uma nova língua e
prosseguir com a tática já esboçada na campanha: culpabilizar os seus críticos.
Se na campanha eram chamados de preconceituosos os que
tinham reservas sobre as ideias e atitudes de Lula, no governo tornaram-se,
principalmente, reacionários a serviço das elites. Ao optar sempre pelo
contra-ataque, o PT não percebia que a crise se aprofundava e o partido se
afastava cada vez mais da única possibilidade de superá-la: um esforço de união
nacional. O PMDB, como sócio menor, fez muitas coisas erradas em parceria com o
PT. Nunca embarcou, entretanto, no discurso nós contra eles, nem se refugiou
numa suposta superioridade moral em relação aos seus críticos. A chance, ainda
que precária, de realizar um tipo de união nacional, ideia sedutora em crises
profundas, acabou levando as águas para os moinhos do PMDB. Era uma questão de
tempo.
A troca não significa substituir um esquema corrupto por
algo puro e imaculado. Mas é sempre possivel denunciar as falcatruas das
raposas do PMDB sem que te acusem de estar a serviço das elites e afirmem sua
superioridade moral como portadora de um projeto único de salvação.
Nesse sentido, o choque com o PMDB abre uma chance de
recuperar um diálogo político, sem, necessariamente, se defender de estar a
serviço das elites, colonizadores de olhos azuis, brancos, machos e
heterossexuais. Esse processo de critica à esquerda para mim já está se
encerrando, pois acredito que ela própria terá de refletir sobre os caminhos
que a levaram a esse fracasso. O mais importante é olhar para a frente,
inventariar o rombo deixado nas contas nacionais e a amplitude do processo de
corrupção.
Não é preciso parar a reconstrução. Mas, se não tivermos
todos os dados sobre nossa desgraça econômica, será difícil traçar um caminho
realista para superá-la. Quanto ao processo de corrupção, nunca é demais
esquecer que os governos Collor e Dilma caíram sob acusações semelhantes. E
olha que tanto Collor como o PT, nos palanques das diretas, eram as estrelas do
futuro. Caçador de marajás, Collor prometia combater a corrupção, e Lula
defendia a ética na política. Hoje, ambos são acusados no escândalo do
Petrolão. Nossa jovem democracia falhou nesse quesito.
Em vez de acreditar em salvadores, será preciso conhecer e
discutir as condições básicas que levam os governos brasileiros à ruina moral,
independentemente de suas propostas moralizadoras. Redentores caíram no mesmo
buraco. São responsáveis por seus erros, mas também é preciso desmontar as
armadilhas do caminho.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 15/05/2016

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