Da ISTOÉ
Em agosto de 1992, o engajado presidente da União Nacional
dos Estudantes, Lindbergh Farias, arrebanhava uma multidão de jovens com as
faces cobertas pelas cores verde e amarela em meio à luta pelo impeachment do
ex-presidente Fernando Collor. Parecia despontar como uma promissora liderança
política, a empunhar bandeiras modernas fundadas, sobretudo, no combate aos
malfeitos e às espúrias alianças políticas. Vinte quatro anos mais tarde,
Lindbergh é a personificação de tudo aquilo que um dia jurou rejeitar. Transformou-se
num dos mais histriônicos defensores no Senado do governo Dilma Rousseff. Do
alto da tribuna da Casa, costuma bradar a plenos pulmões palavras de ordem na
tentativa vã de defender o indefensável: uma gestão caótica e um partido
enlameado até os poros pela corrupção. Conta, não raro, com a companhia dos não
menos estridentes senadores Gleisi Hoffmann e Humberto Costa, como ele, também
do PT. Junto, o trio compõe a tropa de choque do governo no Senado, cuja única
missão é a de tumultuar e obstruir as discussões em defesa do projeto de poder
do PT. Suas intervenções são, na maioria das vezes, regadas a bate-bocas
incompatíveis com o decoro exigido ao cargo.
“Decoro”, segundo o dicionário Houaiss, traduz decência,
compostura, honradez e integridade moral – conjunto de predicados que não podem
ser atribuídos ao pelotão de frente de Dilma, a julgar pelos processos que
pesam contra eles na Justiça. No Senado, eles elevam o tom de voz e exibem
coragem e ousadia típicas dos vestais. De castos, porém, os petistas não têm
nada. Recentemente, foram acusados de terem se esbaldado com dinheiro do
esquema do Petrolão. A própria candidatura de Lindbergh ao Senado é alvo de
questionamentos. Em março de 2015, o procurador-Geral da República, Rodrigo
Janot, pediu a abertura de inquérito para investigar a conduta do ex-cara
pintada na eleição em 2010. Durante a campanha, Lindbergh procurou o ex-diretor
da Petrobras Paulo Roberto Costa para pedir ajuda na arrecadação de recursos.
Costa indicou a empreiteira Andrade Gutierrez para fazer o repasse. A empresa
desembolsou R$ 2 milhões, segundo consta dos autos. A suspeita é a de que a
construtora pagou propina pelo caixa oficial. Segundo Janot, Lindbergh “tinha
conhecimento do caráter ilícito dos valores recebidos, pois não haveria
qualquer justificativa lícita razoável” para que pedisse a ajuda do executivo
da estatal. Na época, ao saber da investigação da Procuradoria, Lindbergh
admitiu publicamente ter seguido à risca a orientação de Paulo Roberto Costa.
Mas jurou desconhecer a origem ilícita do dinheiro. Ninguém acreditou. Nem o
STF. A investigação foi autorizada pelo Supremo. No último dia 29, a
Procuradoria pediu prorrogação das apurações por mais 60 dias. Além dessa ação
penal, correm outros dois inquéritos (3334 e 3616) no STF contra o petista, em
que são investigadas suspeitas de crimes de licitação e de improbidade
administrativa durante o período em que ele foi prefeito de Nova Iguaçu (RJ).
Assim como Lindbergh, o líder do governo no Senado, Humberto
Costa (PE), também foi implicado no escândalo do Petrolão por meio da delação
premiada do mesmo Paulo Roberto Costa. Segundo o delator, o então presidente da
Associação das Empresas do Estado de Pernambuco, Mário Beltrão, solicitou ao
ex-diretor da Petrobras que conseguisse a doação de R$ 1 milhão para a campanha
do pernambucano ao Senado em 2010. Baseado nessas revelações, em março de 2015,
Rodrigo Janot conseguiu autorização do Supremo para se aprofundar na acusação.
Outro episódio que demanda esclarecimentos é a declaração do ex-gerente da
Petrobras, Carlos Alberto Nogueira Ferreira. Ele disse em um vídeo, divulgado
no ano passado, que assinou dois cheques nominais para construtoras
investigadas no esquema de corrupção para que milhões fossem repassados à
campanha de Costa ao governo pernambucano. “Assinei um cheque de R$ 6 milhões
nominativo a Schahin Construtora e outro cheque de R$ 8 milhões nominativo a
Odebrecht. Esses R$ 14 milhões de reais em 2006 foram para a campanha do senhor
Humberto Costa, candidato a governador de Pernambuco em 2006 e arrecadador
financeiro do PT aqui”, declarou Ferreira. O prazo do inquérito contra o
senador vence dia 14.
Não menos encrencada está a ruidosa Gleisi Hoffmann. A
ex-ministra responde judicialmente às acusações de corrupção passiva e lavagem
de dinheiro. No entendimento do Ministério Público, a arquitetura do crime se
repetiu em seu caso: o recebimento de R$ 1 milhão em propina fruto de desvios
da Petrobras, doado para a campanha da petista ao Senado pelo caixa oficial. A
denúncia de Janot envolve não só Gleisi, como também seu marido, o ex-ministro
de Dilma Paulo Bernardo, e o empresário Ernesto Kugler Rodrigues. A
procuradoria pede que eles devolvam R$ 2 milhões ao erário – sendo metade por
multa de danos materiais e a outra referente ao dinheiro arrecadado. Não há
notícias de que descumprirão a sentença judicial. No entanto, com o PT alijado
do governo, vai ficar mais complicado amealhar os recursos. Está entendido
tamanho estrépito.

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