Da ISTOÉ
A elevada temperatura da canjica servida na ampla varanda do
Palácio do Jaburu, na terça-feira 10, denunciava a certeza de que Michel Temer
(PMDB-SP) viria a se tornar o 37º presidente do Brasil, 48 horas depois. Nos
códigos brasilienses, é sabido que em gabinetes de quem tem poder ou a
expectativa dele, as refeições e o cafezinho são servidos bem quentes. No mesmo
dia, o café oferecido no Palácio do Planalto, ainda ocupado por Dilma Rousseff,
estava frio. “Vamos conversar enquanto a canjica esfria”, dizia Temer, às
voltas com o quebra-cabeça da montagem da equipe ministerial.
Naquele momento, as peças ainda não estavam todas
encaixadas, mas o novo presidente traduzia a convicção de que havia trilhado o
caminho correto ao decidir, depois de muito vai e vem, reduzir para 24 o número
de ministérios, a despeito de ter de enfrentar as pressões oriundas de partidos
aliados. Até o ano passado, a administração do PT ostentava nada menos do que
39 pastas. “Não é fácil diminuir o número de ministros e ao mesmo tempo escalar
uma equipe que atenda aos interesses dos partidos”, disse Temer. “Mas decidi
que meu primeiro compromisso é com a sociedade e as ruas estão pedindo isso.”
Na quinta-feira 12, veio a confirmação da extinção de nove ministérios. Uma
redução a transcender a economia com salários. É um gesto simbólico. Sinaliza
que o Executivo, ao contrário do que ocorreu durante a gestão petista, está
disposto a cortar na própria carne neste momento de crise. Dentro do mesmo
contexto, Temer iniciou também a demissão de parte dos 30 mil servidores
comissionados usados como cabides de empregos na gestão petista. O presidente
está absolutamente consciente de que dispõe de legitimidade constitucional e
política, mas que ainda lhe falta a chancela popular. “Não posso cometer os
mesmos erros daqueles que estão saindo. Ignoraram os recados que vêm desde as
manifestações de 2013”, afirmou.
No Palácio do Jaburu, próximo de se deslocar para o
Planalto, onde tomaria posse como presidente e nomearia seu ministério, Michel
Temer parecia tranquilo e aliviado. Havia finalmente terminado de escalar seu
primeiro escalão. Assessores e futuros ministros, como Romero Jucá, Eliseu
Padilha, Márcio Freitas e Elsinho Mouco davam os últimos retoques no discurso
que Temer faria à nação, enquanto que, na biblioteca, o pequeno Michel brincava
desprovido da dimensão do desafio imposto a seu pai.
A aliados, o presidente promete ir além da reforma
administrativa. A ideia de Temer é adotar um modelo de meritocracia inspirado
na iniciativa privada. Funcionários públicos ganharão bônus caso alcancem metas
preestabelecidas. No novo formato, as direções de estatais e agências
reguladoras deixarão de ser ocupadas por apadrinhados políticos. Seguiriam
critérios técnicos. O programa Ponte para o Futuro, espécie de plano de governo
do PMDB, defende a criação de leis para estabelecer o modelo de recrutamento
para as diretorias de empresas públicas – uma medida que, em vigor, poderia ter
evitado o Petrolão. Aprová-la, no entanto, exigirá muito jogo de cintura político.
Principalmente, dentro de casa. Desde a redemocratização, o PMDB de Temer é uma
legenda insaciável por postos estratégicos no poder – o caso das estatais,
empresas, em geral, com verba, caneta e tinta para dar e vender. Espera-se que
o novo presidente mantenha até o fim à disposição de comprar brigas em nome da
governança.
De nada adiantarão as propostas de aprimoramento da máquina
pública se Temer ceder ao fisiológico toma lá, dá cá de cargos. As ofertas sem
critérios para postos federais em troca de apoio político ensejaram os
principais escândalos de corrupção da história recente, como o mensalão e o
Petrolão. Por isso, é imperativo mudar essa lógica. É evidente que um governo
precisa de alianças e base parlamentar para aprovar projetos no Congresso. Não
à toa, Temer montou o chamado ministério de expressão parlamentar. Dos
escolhidos, 13 são deputados ou senadores. Mas os acordos têm de ocorrer de
modo republicano. As siglas precisam apresentar nomes qualificados que aceitem
se submeter a uma orientação programática. Foi dessa forma que Temer selou a
união com o PSDB. Sem dúvida, se levada mesmo a cabo, será uma importante
mudança na maneira de lidar com os partidos.
O presidente também quer impor uma nova sintonia para a
relação entre os Poderes. À ISTOÉ, com a canjica já em uma temperatura
agradável para ser digerida, Temer disse nutrir a expectativa de ficar marcado
como o responsável pelo que chama de “reinstitucionalização” do Brasil. Quer
dizer, não pretende governar com Medidas Provisórias, de maneira alguma irá
subjugar o Congresso e muito menos fazer pressões sobre o Judiciário. “A
manutenção da democracia passa necessariamente pela independência e harmonia
entre os poderes. As gestões do PT tutelaram o Legislativo e o próprio
parlamento deixou espaço para que o Judiciário muitas vezes tomasse decisões
por falta de regulamentações”, disse. Quando provocado a respeito de uma
reforma política que, por exemplo, acabe com a reeleição, o presidente, ao
menos nesse primeiro momento, mostra coerência entre o discurso e a prática.
“Não serei candidato em 2018, mas a questão da reeleição é um tema que cabe ao
Legislativo e não ao Executivo. Se vier um projeto assim do Congresso, ele terá
meu apoio, mas a tarefa é dos deputados e dos senadores.” Claro: para o
relacionamento com o Legislativo fluir com mel, Temer sabe que precisa de nomes
de peso político capazes, sobretudo, de fazer a ponte com os parlamentares.
Sofrerá, caso contrário, da mesma paralisia dos governos Dilma. Na terça-feira
10, Temer passou praticamente quase todo o dia ao lado de seus quadros mais
qualificados – ao menos do ponto de vista político. Com a chegada do sol do fim
de tarde, o presidente entabulou uma conversa em um sofá bem próximo de um buffet
onde o novo secretário de governo, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), conversava com
líderes partidários. Tão logo se aproximou, Temer foi interrompido por uma
chamada no celular. Do outro lado da linha, o senador Romero Jucá (PMDB-RR),
novo ministro do Planejamento e um dos principais artífices do governo
recém-empossado, informava sobre a sessão do Senado que havia sacramentado a
cassação de Delcídio do Amaral. Em menos de um minuto Temer desligou o telefone
e demonstrou admiração pelo interlocutor: “É impressionante como o Jucá conhece
o Orçamento e como é rápido no raciocínio político”.
Ato contínuo, a conversa se voltou para a operação Lava
Jato. Em harmonia com o discurso que faria dois dias depois, Temer prometeu ali
não criar embaraços às investigações. “Um presidente não pode interferir em uma
investigação policial e nem mesmo em processos judiciais. A apuração do
Petrolão é uma questão do Judiciário”. Temer sabe que a sociedade não admitirá
ingerência na independência funcional da Polícia Federal. Nem aceitará cortes
de verbas que impeçam o órgão de avançar contra os malfeitos. É possível que as
apurações desemboquem em correligionários dele. Dois de seus ministros são
investigados e outros citados no Petrolão. Qualquer movimento do novo
presidente em relação ao tema será observado de muito perto. A marcação será
cerrada, não há sombra de dúvidas. Os brasileiros que foram as ruas pelo
impeachment exigem que o Brasil continue a ser passado a limpo. Um novo momento
político exige novas práticas.
Nas semanas que antecederam ao impeachment, Temer tentou,
dentro das possibilidades, submergir. Não queria parecer um articulador do
afastamento, a despeito da romaria de políticos que o procuravam. Dedicou parte
deste tempo a mergulhar na leitura de biografias sobre líderes políticos.
Buscava inspiração para uma eventual gestão. Uma história, em especial, voltou
a despertar a sua atenção: a de Franklin Roosevelt, responsável por retirar os
Estados Unidos da grande depressão de 1929. A aliados, analisou que, assim como
ocorreu com Roosevelt, assumiria uma nação devastada. A economia nacional recua
3% ao ano. O desemprego cresceu de 6,4 para% 10,2% em dois anos. O poder de
compra despencou. A autoestima da população entrou numa crise sem precedentes e
a descrença com a política se ampliou. Precisava de um receituário ambicioso,
pensou. Usando o exemplo do ex-chefe de estado americano, Temer propõe um “new
deal” à brasileira. Na prática, unir a sociedade em torno de uma agenda de
transformações. Para acontecer, o peemedebista terá de se dispor a arriscar sua
biografia para promover reformas econômicas, mesmo que elas se mostrem
impopulares em um primeiro momento. Um líder comprometido com a democracia, que
respeite a autonomia das outras instituições e apoie o combate à corrupção até
quando as investigações atinjam pessoas próximas. E, principalmente, capaz de
pacificar um País conflagrado, deixando interesses partidários de lado.
Foi com esse tom de conciliação nacional que Temer inaugurou
a sua gestão. No primeiro discurso, na quinta-feira 12, não recorreu a
palanques ou claques partidárias. Tampouco criticou diretamente Dilma Rousseff.
A cerimônia foi frugal como a situação exigia. Ocorreu no menor salão de
eventos do Palácio do Planalto. Depois de empossar os ministros, Temer
discursou à nação por cerca de meia-hora. Fez questão, neste momento de crise,
de usar a palavra confiança para iniciar a sua fala. Conclamou, em seguida:
“Partidos, lideranças, entidades organizadas e o povo brasileiro hão de
emprestar sua colaboração para tirar o país desta crise.” “O diálogo é o
primeiro passo para enfrentarmos os desafios”, afirmou. O primeiro deles, como
lembrou Temer, é reconhecer os limites do Estado na economia. A equação das
gestões petistas de subsídios, intervencionismo e desrespeito a contratos
quebrou o País. “Teremos que incentivar, de maneira significativa, as parcerias
público-privadas, na medida em que esse instrumento poderá gerar emprego no
País”, disse. “Sabemos que o Estado não pode tudo fazer”, acrescentou. O discurso
do novo presidente, que chegou a ser interrompido por uma constrangedora
rouquidão, solucionada por uma pastilha entregue por um auxiliar, soou como
sinfonia de Bach a empresários, investidores, integrantes da classe média e até
aos menos favorecidos, aliviados com a promessa de manutenção dos programas de
transferência de renda.
Um novo ciclo de crescimento e emprego depende da atração do
investimento privado, principalmente para as obras de infraestrutura. Para
tanto, o Brasil precisa resgatar a confiança dos empresários. A troca de
presidente e a volta de Henrique Meirelles à equipe econômica garantem uma lua
de mel temporária com o mercado. Mas, para manter o romance, o governo terá de
agir com rapidez para promover reformas e melhorar os fundamentos econômicos
enquanto o café ainda está quente. O Brasil tem pressa. De olho no relógio, na
sexta-feira 13, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, se antecipou.
Defendeu a adoção de medidas duras para mudar os rumos da economia e um ajuste
fiscal com metas plausíveis que mostre a vontade real do País em gastar de
acordo com a sua realidade. Não tornando sua dívida impagável em décadas. Para
isto, porém, será preciso retirar subsídios e renúncias fiscais que
comprometeram o caixa público. Sindicatos e partidos políticos favoráveis ao
governo ainda resistem às alterações mais impopulares. O próprio (e necessário)
ajuste fiscal ainda é um tema delicado à maioria. São em situações com esta que
o novo presidente terá definido o seu lugar na história. Caso ceda, será mais
um entre tantos nomes. Se for em frente, arriscando o capital político, poderá
ingressar no seleto rol dos estadistas.

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