Rogério Furquim Werneck, O Globo
A pesar do respaldo da opinião pública, o avanço da
Lava-Jato e operações afins vem enfrentando sérias resistências de segmentos
influentes da sociedade. São reações que merecem reflexão. Já não há dúvidas
sobre a extensão do alarme de senadores do PMDB com a Lava-Jato. E boa parte do
Congresso padece, em alguma medida, de temores similares.
O próprio governo já não dissimula suas apreensões com os
embaraços advindos das investigações. Há duas semanas, o ministro-chefe da Casa
Civil, Eliseu Padilha, declarou que a Lava-Jato deveria saber sinalizar o
momento de caminhar “rumo a uma definição final”. Dias depois, o presidente
Temer mencionou que, embora não fosse o caso de fixar prazo para a Lava-Jato,
“o país não pode ficar nesta situação por dez anos”.
No meio empresarial, ganham força preocupações com as
dificuldades de uma ação mais desenvolta do governo diante dos recorrentes
embaraços da operação. Pouco a pouco, a ideia de que é preciso “conter os
excessos” e “passar uma régua” nas investigações, “para que o país possa
trabalhar”, vem sendo defendida de forma cada vez mais explícita.
Com frequência, a defesa vem temperada com vagas menções a
exageros da Operação Mãos Limpas, que teria desestruturado de vez o sistema
político italiano e aberto caminho para Berlusconi. Eufemismos à parte, o que
vem sendo alegado, à boca pequena, em bom português, é que a persistência na
Lava-Jato e operações similares tornará o país ingovernável.
Que assim não sobrará ninguém. Que é ingênuo imaginar que a
corrupção, entranhada como está no sistema político brasileiro, possa ser
eliminada dessa forma. E que o combate à corrupção se faz a longo prazo, com
paciência e pragmatismo. Não é surpreendente que as autoridades responsáveis
pelas investigações estejam na defensiva, temendo iniciativas que possam
cerceá-las.
Mas é pouco provável que tais iniciativas prosperem em meio
ao clima de crescente indigna- ção com a extensão e a organicidade das práticas
corruptas que se incrustaram no aparelho de Estado. Por ora, o cercea- mento
das investigações não parece politicamente viável. E se, mais à frente, se tornar
viável, é bem possível que a afronta à opinião pública transforme o combate à
corrupção no tema dominante da campanha eleitoral de 2018.
Seja como for, é preciso refletir com cuidado sobre as
propostas de “passar a régua” na Lava-Jato e operações similares. Para perceber
com mais clareza quão despropositada é tal ideia, vale a pena ter em
perspectiva uma experiência histórica bastante distinta em que, por razões bem
diferentes, a decisão de “passar a régua” nas investigações que se faziam
necessárias acabou sendo tomada.
No seu aclamado “Pós-guerra”, Tony Judt relata como o
programa de “desnazificação” da Alemanha, ao fim da Segunda Guerra Mundial, foi
rapidamente abandonado. Como nada menos que oito milhões de alemães — um sétimo
da população remanescente no país ao fim do conflito — eram nazistas, não havia
como viabilizar a reconstrução e o fortalecimento do país, num quadro de rápido
agravamento da Guerra Fria, excluindo-os desse projeto.
Concluídos os julgamentos de Nuremberg, em 1946, decidiu-se
que o mais prudente era fechar os olhos para o muito mais que ainda havia a
investigar. E deixar que a Alemanha mergulhasse numa longa e controvertida
“amnésia coletiva”, que tornou admissível, por exemplo, que 94% dos juízes e
promotores da Baviera, em 1951, fossem ex-nazistas.
Por mais alarmante que seja, a corrupção no Brasil está
muito longe de envolver um sétimo da população. A escala é outra. E por bem
encastelados que possam estar, os envolvidos em corrupção parecem perfeitamente
dispensáveis e substituíveis. Mas o conceito de amnésia coletiva vem a calhar.
E dá ensejo à pergunta óbvia. Por que razão o país deveria
compactuar com uma amnésia coletiva na questão da corrupção, justo quando se
defronta com o desafio de desmantelar o projeto cleptocrático de poder que o
arrastou para o colossal atoleiro em que está metido?
Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

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