Artigo de Fernando Gabeira
De novo na estrada mas preocupado com o Rio. Ao longo de
observação e conversas, acho difícil os serviços públicos voltarem a funcionar
na plenitude em curto prazo de tempo. Tenho a sensação, confirmada pelos
números, de que os crimes crescem e o poder da polícia esmorece. Todas as vezes
em que o Estado fraqueja, penso no papel da sociedade. Existe sempre o forte
argumento de que é uma função do governo, pago com os impostos para garantir a
segurança pública. Mas o que fazer quando o Estado está na lona?
Moradores do Catete compraram papel higiênico para a
delegacia funcionar. Eles se uniram para evitar o pior. Mas o leque de
possibilidades de intervenção social é mais promissor no campo de mecanismos de
autodefesa. Nos últimos anos, comecei a olhar para o smartphone e me perguntar:
o que é possível fazer com ele para aumentar a segurança do indivíduo?
Há cerca de dois anos, pensava num aplicativo que pudesse
ser uma espécie de conselheiro de segurança, sobretudo mapeando áreas
perigosas. Os dispositivos que existem trabalham em tempo real orientando o
trânsito. Um roteiro de segurança depende de dados confiáveis sobre a taxa de
incidentes ao longo do caminho. Há uma razão para vencer a resistência em
registrar um assalto na delegacia, motivada pela desesperança na ação policial:
um simples dado é importante para todos.
Um aplicativo voltado para a segurança poderia incluir
também ícones de alarme, indicando o tipo de perigo, a localização da pessoa.
Meus devaneios são secundários. O importante é que as pessoas que realmente
trabalhem com o tema encontrem os múltiplos caminhos e as ferramentas de
autodefesa através da informação.
Aplicativos como o Waze já indicam em cores os
congestionamentos. Mas estão abertos para comentários, de modo geral sobre a
fluidez do trânsito. Eles precisam absorver essa dimensão de segurança pois
volta e meia jogam os motoristas em lugares dominados pelo tráfico de drogas.
Tanto os territórios dominados pelo tráfico como pelas milícias são mapeáveis.
Isso já fizemos, mas hoje deve estar tudo embaralhado. Na Zona Oeste há
milícias que vendem territórios umas para as outras ou até para o tráfico.
O lugar em que a jovem médica Gisela Palhares foi
assassinada, na Linha Vermelha, já tinha sido cenário de quatro assaltos.
Deveria ser um pontinho luminoso, indicando perigo num roteiro de segurança. Vi
muitas crises de violência urbana, o entusiasmo com as UPPs, uma euforia com a
tomada do Complexo do Alemão, todas carregadas de esperança numa solução
durável.
A crise atual acontece num momento de crise econômica,
quebradeira do estado, véspera de Olimpíada. Não há solução durável no
horizonte. É por sentir essa sensação de aperto que olho para o smartphone com
alguma expectativa. Por que desprezá-lo? O fato novo que propiciou é uma
sociedade com uma extensa capacidade de se informar. O que significa também
instrumentos para melhor se defender. É uma contingência. Não significa
substituir o Estado, nem deixar de exigir serviços decentes. Apesar da
quebradeira, o estado ainda detém importantes instrumentos tecnológicos no seu
centro de comando e controle. Poderia ser um grande parceiro nesse fluxo de
informações, alertas, enfim entrar numa outra dimensão da luta pela segurança.
Numa entrevista, José Mariano Beltrame me declarou que as UPPS eram apenas uma
anestesia pois o projeto de recuperar socialmente os lugares ocupados não
vingou. E o efeito da anestesia está passando.
Quando me atrevo a pensar em segurança, algo inevitável para
quem trabalha na rua, sei que um abraço na tecnologia da informação não resolve
os problemas de fundo. Mas é o velho dilema que nos persegue: o que fazer
enquanto não se resolvem os problemas de fundo? Talvez seja prematuro refletir
sobre isto antes da Olimpíada, quando se espera um alívio temporário. A Copa do
Mundo já passou, e a vida continuou do mesmo jeito ou pior. Esses eventos não
têm o condão mágico de resolver problemas.
Depois da Olimpíada, a realidade vai aparecer com toda a
crueza. Quando começo a olhar para o telefone e a perguntar o que pode fazer
por mim é porque a situação está brava ou, pelo menos, parece estar. Daí a
necessidade de pensar cenários de crise, alguns remédios. A crescente violência
urbana pode suscitar uma série de visões extremadas mas ao mesmo tempo
atraentes pela sua simplicidade.
Depois do que aconteceu com a União Europeia, com a saída do
Reino Unido, constatei mais uma vez que nem sempre uma posição mais racional
triunfa, que a História não tem um script linear. O Brasil vive um período
vulnerável. Estado falido, sistema político falido. De alguns políticos, com a
ajuda da Lava-Jato, a sociedade está a caminho de se livrar. No entanto, não
pode se livrar facilmente dos estragos que deixaram no seu rastro. É um grande
desafio para ela: com a falência estatal precisa preencher parte das
atribuições do governo. E ainda ter serenidade. Haja paciência.
Artigo publicado no Segundo Caderno do O Globo em 03/07/2016

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